O futebol se despede nesta semana de uma de suas figuras mais carismáticas e folclóricas. Aos noventa e sete anos, partiu Juarez, o eterno "Tanque". Nascido em Blumenau, Santa Catarina, ele fez história no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense na década de 50 como um autêntico centroavante rompedor — daqueles que levavam a defesa adversária arrastada e não pediam licença para estufar as redes. Porém, entre tantos gols, uma das páginas mais curiosas de sua biografia não foi escrita na grande área adversária, mas sim debaixo das próprias traves.
A história aconteceu em uma tarde de futebol raiz na Serra Gaúcha. O Grêmio enfrentava o Juventude em Caxias do Sul, vencia a partida e tentava segurar a pressão dos donos da casa. Sob a meta tricolor, encontrava-se Germinaro, um goleiro argentino que, fazendo jus à fama da época, era dono de um temperamento vulcânico.
Naqueles tempos, a arquitetura dos estádios deixava a torcida a pouquíssimos metros da goleira, quase respirando o mesmo ar dos jogadores. Cansado de ouvir as incessantes ofensas que lhe eram dirigidas pelos caxienses, Germinaro perdeu as estribeiras. Em dado momento, o argentino abandonou sua posição e investiu furiosamente contra os torcedores, quase derrubando o alambrado na força do ódio. Diante da confusão generalizada, o juiz não teve outra alternativa senão expulsar o esquentado arqueiro gremista.
O grande problema é que as regras do jogo eram outras, muito mais cruéis do que as atuais, e o limite de substituições já havia sido alcançado. Sem poder colocar um goleiro reserva em campo, a única solução era improvisar e levar o jogo até o apito final. Foi então que Juarez, o Tanque, tirou a sua farda de artilheiro, vestiu uma camisa de goleiro e marchou rumo ao travessão.
Sem a menor intimidade com a nova posição e com as luvas, o "TANQUE" tentou fazer o básico. Mas, ao tentar repor a bola em jogo, acabou sofrendo um forte encontrão de um atacante adversário e foi ao chão. Foi a deixa perfeita para a malandragem do futebol entrar em ação.
O massagista gremista invadiu o campo em disparada, aplicando generosas e demoradas doses do seu "líquido milagroso" — o bom e velho éter — na perna do atacante-goleiro. Aqueles minutos preciosos de cera técnica foram saboreados com gosto pelos visitantes para esfriar a partida e garantir o resultado, enquanto a torcida local, debruçada no alambrado e fervendo de indignação, reclamava aos berros com o bordão bem conhecido:
— "Cera! Cera! Cera!").
Foi-se o Tanque, mas ficaram as histórias de um futebol romântico que não volta mais.
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