quarta-feira, 6 de maio de 2026

ADOÇANTE E COLÍRIO

Meu dileto amigo João Alberto sempre foi um exemplo de método, disciplina e autocontrole — desses que fariam um relógio suíço pedir dicas. Comedido nas refeições, zeloso com a saúde e atento à forma física, era um modelo de equilíbrio. Se há quem beba socialmente, João Alberto fumava socialmente: acendia um cigarro sem compromisso, sem vício, apenas quando a inspiração — ou a telha — mandava.

Gostava de cachimbo, mas não tanto pelo fumo em si; o que realmente o encantava era o ritual: escolher o tabaco, acomodá-lo, acender com solenidade, como se estivesse celebrando uma cerimônia diplomática. Também apreciava um bom cafezinho e, no fórum, por expressa recomendação sua, o café jamais era adocicado. Algumas gotas de adoçante bastavam para satisfazer seu rigor científico com o paladar.

De vez em quando pingava colírio nos olhos. Segundo me recordo, havia passado por alguma cirurgia corretiva — dessas que a gente nunca sabe exatamente o quê, mas que exigem cuidados permanentes e justificam frascos misteriosos sobre a mesa.

Nossas salas eram contíguas, ligadas por uma porta. Na hora do café, fazíamos a pausa regulamentar: ora ele vinha à minha sala, ora eu ia à dele. Em uma dessas ocasiões, enquanto ele pingava o adoçante no café, notei que o frasco de colírio repousava perigosamente próximo da xícara. Não resisti à tentação:

— Não vá confundir adoçante com colírio!

O tempo passou. Numa segunda-feira — ele costumava passar os fins de semana em Chapecó —, João Alberto chegou ao fórum com certo atraso, o que não era de seu feitio. Mais estranho ainda: mesmo dentro do prédio, não tirava os óculos escuros. Antes que eu abrisse a boca, ele se adiantou:

— Irineu, tu és um bocudo!

Sem entender, fiquei em silêncio. Ele prosseguiu:

— Ontem, em vez de pingar colírio nos olhos, por tua influência, pinguei adoçante. A reação foi uma tremenda ardência! Parecia que eu tinha chorado cebola em pó.

Tentei me desculpar, mas ele logo me tranquilizou, com aquela serenidade de quem assume a própria tragédia doméstica:

— A culpa é minha. Quem mandou ouvir palpites de terceiros?

Desde então, toda vez que vejo um frasco sobre a mesa, desconfio: em certos casos, o perigo não está no veneno — está na sugestão.

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