terça-feira, 11 de abril de 2017

ROMANCE FORENSE

Casado à noite, mas solteiro à tarde...

O ´Excelentíssimo Senhor Operador Jurídico´ exercia sua bem remunerada profissão com as confortáveis achegas de criticados penduricalhos. Como era possível não ser assíduo ao trabalho, ele eventualmente usava o horário vespertino para praticar o nobre esporte dos leitos.

Era – como diziam seus colegas – “um homem às vezes solteiro, à tarde; mas rigorosamente bem casado à noite”...

Em certa tarde outonal gaúcha, ele pegou a namorada-assessora, que os colegas chamavam de ´menina veneno´, partindo ambos a um acolhedor motel. Quando ia estacionar, ele levou um choque: no box ao lado, fechado por uma semi-arriada cortina de lona, percebeu a traseira de um bem novo carro que lhe parecia muito familiar.

Abaixou-se, espiou, e – zás...que decepção!... – era o automóvel da sua digníssima consorte, que - sendo ´do lar´- naturalmente deveria estar em casa, ou nas compras. Placa, cor, tudo conferia.

O operador jurídico explicou, à namorada, a surpreendente constatação e ambos acharam melhor dar meia-volta. No caminho, ele matutou: “mato ela, mato os dois, me suicido?”... - aqueles dilemas clássicos das novelas mexicanas, que às vezes afligem o homem enganado.

Tomou, então, uma decisão. Voltou ao seu gabinete de trabalho, viu o sombrio anoitecer outonal à beira-rio, avaliou seu matrimônio de 20 anos, etc. E duas horas depois foi para casa.

A esposa estava sentada, assistindo o Datena falar acerca da insegurança no Brasil e sobre os políticos canalhas. E ela - sem ficar vermelha ou sem graça - recebeu o marido com um comentário sobre os dramas retratados no programa de tevê...

- Como tem gente infeliz por este Brasil!...

O operador jurídico questionou com autoridade típica:

- Onde é que foste hoje de tarde?

A santa senhora nem mesmo levantou a cabeça e manteve o olhar fixo no televisor.

- Tava frio, fiquei em casa, ajeitando os armários, comendo pipoca e vendo televisão...

- É? E teu carro, por acaso, ficou na garagem, trocando o óleo?

Ela mudou de canal, e com a mesma cara de inocência, respondeu:

- Não fica brabo, meu bem. É que tua mãe me ligou, pedindo o meu carro. O dela tinha estragado, ela precisava dar umas voltas e eu emprestei.

Pode ter sido verdadeira a versão. Mas, dias depois, ingressou no foro a separação judicial do casal.

Consensual, mas evidentemente em segredo de justiça.

Fonte: www.espacovital.com.br

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