Por volta de 1962, eu era uma dessas criaturas úteis e ligeiras chamadas office boy. Trabalhava numa empresa do ramo metalúrgico, lotado no escritório, e, como mandava a hierarquia natural das coisas, por ser o mais novo — na idade e no emprego — sobravam-me as missões nobres: levar papéis, buscar café, pagar contas e conhecer a cidade a pé antes de qualquer outro meio de transporte.
Alguns meses depois, chegou um novo colega - Delfim era o seu nome. Interiorano recém-desembarcado na cidade grande, foi alocado na loja de autopeças da mesma empresa. Assim como eu, herdou as tarefas que ninguém disputava. Cabia-lhe entregar peças para oficinas e, quando faltava algo, sair à caça em outras concessionárias. Sem saber, Delfim inaugurava, em versão pedalada, o embrião da peste moderna conhecida como motoboy.
Numa de suas primeiras empreitadas, recebeu ordem expressa: buscar uma determinada peça na agência Ford. Lá foi ele, montado na bicicleta da firma, com a coragem dos iniciantes e a inocência dos que ainda acreditam que tudo se resolve com boa vontade.
Chegando ao balcão, explicou — ou tentou explicar — o que viera buscar. O balconista, depois de alguns minutos de tradução simultânea do “delfinês” para o português técnico, concluiu que seria mais prudente falar diretamente remember the chefe. Indicou o telefone e sugeriu:
— Liga pro teu patrão e pede mais detalhes.
E saiu para atender outros clientes, deixando Delfim a sós com o aparelho.
O telefone, convém lembrar, era daqueles pretos, pesados, jurássicos, com disco e tudo. Um objeto tão familiar quanto um fóssil para quem acabara de trocar o interior pela cidade. Nem toda casa tinha telefone, e quando tinha, ele ficava lá, imóvel, respeitado como se fosse um parente importante.
Delfim ficou parado, encarando o monstro. Não ousava tocá-lo. O balconista, ao voltar e perceber que nada havia acontecido, compreendeu o drama e orientou com simplicidade: — Levanta o aparelho.
Delfim obedeceu. Mas obedeceu demais. Agarrou o telefone inteiro — base, fio e tudo — e ergueu o conjunto com cuidado, como quem resgata um bezerro recém-nascido.
Nesse instante, o balconista entendeu tudo: a origem, o espanto, a falta de intimidade com a modernidade. Calmamente, tomou a iniciativa, fez a ligação e falou diretamente com Rubens, o chefe do Delfim, resolvendo a questão em poucos minutos.
Delfim saiu dali com a peça certa, uma nova experiência no currículo e a certeza silenciosa de que, na cidade grande, até os telefones exigiam manual de instruções.
Vivendo e aprendendo — às vezes, começando pelo jeito certo de atender um telefone.
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