quarta-feira, 8 de julho de 2026

RECRUTA GAGO

Seu nome era Josué, apelido Jépe. Um pouco descontado das idéias. Era gago. Mas só gaguejava quando ficava contrariado. Ou seja, não era portador de uma gagueira permanente. Veio a convocação para o serviço militar. Na caserna, seu superior imediato era um sargento, este, gago em tempo integral. Para não "falhar” na hora dos comandos inerentes à Ordem Unida, o sargento falava “cantando”. Por conta da gagueira ou quiçá por insegurança, o sargento era de se fazer respeitar à base de ameaças. O recruta, sempre que interpelado pelo sargento, naturalmente se sentia ameaçado e a gagueira acordava. Na chamada matinal ao ouvir seu número de identificação ser pronunciado pelo sargento, respondia - Jo - Jo - Josué. Alguns colegas não conseguiam represar o riso. Daí porque o sargento cismava com o Jépe que ele não era gago, antes, se fazia de ser. A reprimenda vinha em forma de prisão no próprio quartel. Livre e solto, a cena se repetia, com o recruta cada vez mais contrariado. - Sol...Sol...Soldado Josué se a - a - apresentando. A solução encontrada foi simples: atribuir-lhe tarefas isentas de qualquer comunicação verbal. Uma dessas tarefas consistia em rachar lenha junto ao paiol, onde também estavam depositados explosivos e munições de uso do exército. A primeira e mais importante orientação passada ao recruta foi no sentido de não permitir o ingresso naquele recinto de quem quer que fosse. A manhã transcorria sem quaisquer incidentes até que um Capitão por lá apareceu para conferir o estoque de explosivos. Seguindo à risca os termos da ordem recebida, o Jépe impediu o Capitão de ingressar no paiol. Foi o estopim para ser deflagrado um intenso bate-boca que resultou numa cena hilária do recruta, munido de um machado, correndo atrás do Capitão, que valentemente escapuliu do embate. Seguiu-se nova prisão e tudo voltou como dantes no quartel do Abrantes.

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