segunda-feira, 31 de agosto de 2026

POR QUE EU ESCREVO

Ruy Castro

Entre outros motivos, porque não sei fazer mais nada Um futuro pesquisador não encontrará uma única linha inédita nas minhas gavetas

Minha colega Mirian Goldenberg tirou-me as palavras da boca outro dia. Disse que, com ou sem a IA, ela continuará a escrever. É exatamente o que eu queria dizer. Há quase 100 anos não faço outra coisa e é difícil dispensar velhos hábitos. Além disso, não sei fazer mais nada —nunca dirigi um carro, mal consigo trocar uma lâmpada e não sei cozinhar nem macarrão. O tempo em que podia estar desenvolvendo essas habilidades foi gasto lendo pessoas que escreviam bem e tentando aprender com elas.

Assim como as crianças da pré-história, comecei escrevendo nas paredes, não das cavernas e com uma costela de mamute embebida em sangue, mas nas da sala de casa mesmo, e a lápis. Logo cheguei à máquina de escrever e, ainda quase imberbe, vi-me numa Redação de jornal. O Rio tinha então 15 jornais diários, mas eu estava justamente no que queria: o heroico Correio da Manhã. Foi minha introdução ao combate entre a página impressa e o obscurantismo, no caso, vencido por este. O jornal foi destruído pelo regime militar na sequência do AI-5, em 1968, mas isso desenvolveria em nós, seus órfãos, uma casca grossa que nos valeria para sempre.

Dali passei por uma quantidade de veículos e, não muito comum na profissão, orgulho-me de nunca ter produzido uma linha em que não acreditasse. Claro que me arrependo de muitas, mas, na época, me pareciam as corretas. Quero crer também que haja uma coerência entre elas: desafio um futuro pesquisador a encontrar, em milhares de artigos, crônicas e reportagens, um elogio a um governante.

Ele também não encontrará nas gavetas uma única página que possa chamar de "inédita", não publicada. Poemas, então, nem pensar —por respeito aos poetas que admiro, jamais cometi um na vida. Tudo que produzi até hoje foi escrito para sair amanhã, na semana seguinte, dali a três meses ou no ano que vem. Tudo com destino marcado: colunas de jornal, uma reportagem para uma revista, um livro já programado pela editora.

O problema, Mirian, será: o que fazer no Além?

Fonte: Folha de S.Paulo - 18/12/25
Nenhuma herança é tão rica quanto a honestidade. (William Shakespeare).

LUGARES

​MURANO - ITÁLIA

A imagem mostra um canal na famosa ilha de Murano, situada na lagoa de Veneza, na Itália, conhecida mundialmente pela sua longa tradição na fabricação de vidro artístico. A Ilha de Murano, parte do arquipélago ao norte de Veneza. O cenário exibe um canal típico ladeado por edifícios históricos tradicionais italianos, calçadas laterais e barcos ancorados ao longo das margens. O local é mundialmente famoso pelas suas fábricas e lojas especializadas no artesanato em vidro de Murano. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 30 de agosto de 2026

LIVROS

TRÊS SEMANAS COM O MEU IRMÃO
Nicholas Sparks
430 Páginas

SINOPSE
Na Primavera de 2002, uma pequena brochura perdida num monte de junk mail veio introduzir uma nota de desafio e de aventura na vida de Nicholas Sparks e do seu irmão, Micah. 

O convite era, no mínimo, irresistível - uma viagem de três semanas à volta do globo que os levaria a conhecer as «Terras dos Adoradores do Céu» . Teria início no Hemisfério Sul e terminaria no Círculo Polar Árctico. 

Inspirados pela profunda amizade que os une, os dois irmãos concedem a si próprios um tempo de evasão e de descoberta que terá por cenário o exotismo e o mistério de alguns dos locais mais sagrados e míticos do mundo. 

Livro de memórias e relato de viagem, Três Semanas com o Meu Irmão é, antes de mais, uma peregrinação interior que celebra o amor, a coragem e a fé, e nos exulta a abraçar a vida com todas as suas incertezas. Três semanas com o meu irmão - Three Weeks With My Brother (https://dlivros.com/livro/tres-semanas-com-meu-irmao-nicholas-sparks)
Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente. (Clarice Lispector)

LUGARES

​FLORIANÓPOLIS - SC

Ribeirão da Ilha é um distrito da cidade de Florianópolis, capital do Estado brasileiro de Santa Catarina. Foi criado por Alvará Régio datado de 11 de julho de 1809. Ali se encontra o ponto culminante da Ilha de Santa Catarina: o Morro do Ribeirão com 532 m de altitude. Wikipédia

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 29 de agosto de 2026

ROMANCE FORENSE

A discriminação racial da ´nega maluca´

No curso de preparação para o ingresso na carreira da magistratura, o professor de Direito Penal aborda recentes fatos de preconceitos raciais, especialmente os que envolveram atletas e um árbitro de futebol. Explica que "essa prática é punível como fato jurídico, contrário à lei".

O mestre lembra que "discriminação é o conceito ou o ato de separar por algum critério, isolar, segregar". E complementa que é o "tratamento desigual, favorável ou desfavorável, dado às pessoas em função de suas características raciais, sociais, religiosas, de gênero etc".

Pede então aos bacharéis e advogados presentes que indiquem quais são as normas e princípios capazes de fundamentar ações penais - ou até cíveis, por dano moral - por discriminar um negro.

Os estudantes vão, então, nominando: Código Penal, Artigo 5º da Constituição, Lei Maria da Penha, Lei Affonso Arinos, Código Civil, Código do Consumidor, Normas de Moral e Bons Costumes, Código Comercial, Códigos de Ética em geral e Lei Eusébio de Queiroz.

- Dez... é o quanto basta por ora! - observa o mestre.

Um dos presentes pergunta se ele, pessoalmente, pode correr riscos de, numa confeitaria, pedir a uma garçonete de origem africana que lhe sirva uma fatia de "nega maluca".

Há uma risada geral. O mestre não perde o comando e dirige-se objetivo ao estudante engraçadinho:

- Anota aí! Ao chegares, pede simplesmente uma fatia de ´bolo afrodescendente com distúrbio neuropsiquiátrico!...'

Fonte: www.espacovital.com.lbr
Substituir o amor próprio pelo amor aos outros é trocar um tirano insuportável por um bom amigo. (Concepción Arenal)

LUGARES

PRAGA - REPÚBLICA TCHECA​

A imagem mostra a famosa Praça da Cidade Velha (Staroměstské náměstí) em Praga, capital da República Tcheca. Ao fundo, destacam-se as torres góticas da Igreja de Nossa Senhora diante de Týn. O templo gótico do século XIV é um dos cartões-postais mais marcantes da cidade velha, com suas torres gêmeas pontiagudas. O coração histórico de Praga, cercado por edifícios de arquitetura gótica, renascentista e barroca. A Torre da Antiga Prefeitura, localizada no lado esquerdo da imagem, abriga o famoso Relógio Astronômico de Praga (Orloj). (Google)

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ANDRÉS SEGOVIA

Para preparar uma árvore de Natal são necessárias três coisas - além dos enfeites e da árvore, a fé nos belos dias que vão chegar. (Zarek Yakduzciyan, poeta armênio)

LUGARES

​MONTE TITLIS - SUÍÇA

O Monte Titlis é uma montanha de 3.238 metros de altitude nos Alpes Suíços, famosa por ter neve o ano todo. Fica em Engelberg, a cerca de 35 km de Lucerna. A subida inclui o Titlis Rotair, o primeiro teleférico giratório do mundo, e atrações como a ponte suspensa e a caverna de gelo. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O ELDORADO DE ALGUÉM

José Horta Manzano

Os primeiros aventureiros europeus levavam grande vantagem em relação aos viajantes atuais: na falta de imagens gravadas e de testemunhas, podiam contar o que quisessem. Na volta da viagem, El-Rei e toda a corte estavam ávidos por conhecer as novidades das novas terras. E os viajantes contavam exatamente o que lhes interessava e o que lhes aumentasse o prestígio.

Houve relatos fantásticos de mulheres amazonas cavaleiras que decepavam o próprio seio para facilitar o porte de um escudo de ferro que as protegia durante a batalha. Essa história é uma mentira particularmente mal costurada. Sabe-se que, na América, não havia cavalos. Sabe-se também que os indígenas amazônicos não conheciam o trabalho do ferro. Por fim, essa coisa de decepar o próprio seio é o cúmulo da história mal ajambrada. Mas os cortesãos acreditavam, aplaudiam e pediam mais.

Um mito persistente, de autoria desconhecida, foi o do El Dorado. A historinha original era do rei de uma região da atual Colômbia, que se cobria inteirinho de ouro em pó e se limpava mergulhando na Laguna Guatavita, uma caldeira vulcânica (boca de vulcão extinto) que o tempo preencheu d’agua, formando um lago. De “homem coberto de ouro em pó”, o mito aos poucos se transformou e virou uma cidade de ouro. Era esse o El Dorado que diversos exploradores procuraram.

A cidade de ouro nunca foi encontrada, mas a expressão ficou. É hoje usada em sentido metafórico, indicando um lugar onde se pode enriquecer depressa ou que oferece boas oportunidades a todos.

As autoridades migratórias brasileiras informam que, nos últimos dez anos, mais de meio milhão de estrangeiros vindos em busca de um país que os acolhesse, que lhes permitisse se instalar e recomeçar a vida com a família. Boa parte desses imigrantes chegou sem grandes posses além da roupa do corpo. Ainda que mal preparadas para chegada tão maciça, nossas autoridades têm lidado bem com o problema. Os novos chegantes vêm recebendo acolhida humana e amável. Os brasileiros, em parte descendentes de imigrantes pobres, não se esqueceram de como a família aqui aportou.

Por seu lado, 4.000 brasileiros que viviam indocumentados nos EUA já foram deportados desde que Donald Trump assumiu a Presidência. A esse contingente, é preciso acrescentar outro maior ainda: 17.000 permanecem agrupados e detidos em centros especializados, à espera de serem deportados.

O objetivo de nossos compatriotas que buscaram fincar pé nos EUA não era delinquir, mas recomeçar a vida do nada, dando duro, a fim de dar melhor futuro à famíla. Se um ou outro descambou, o xerifado americano já deve ter cuidado de tirá-lo do convívio com a sociedade.

O objetivo dos novos imigrantes que chegam no Brasil é exatamente o mesmo. Não vieram de terras distantes para descambar aqui. Muitos deles, em especial os que já viveram uma guerra, querem sossego e paz.

O governo Trump, além de causar pasmo e temor ao redor do planeta, causou pânico em estrangeiros indocumentados que vivem nos EUA. Eram gente que trabalhava tranquila e honestamente, e que hoje se esgueira pelas esquinas e não ousa mais participar da vida em sociedade. O povo americano, que em grande maioria descende de imigrantes pobres, se esqueceu desse detalhe do passado. Caçam e expulsam hoje os estrangeiros pobres cujo único crime era estar dando seu quinhão à contínua construção daquele gigantesco país.

Felizmente, nosso povo é de outra índole. Talvez porque continua a viver cercado de pobreza, o brasileiro não se esquece de que um dia também foi pobre.

Pode até ser que esta minha conclusão seja otimista demais, mas prefiro acreditar que seja assim.

Nossos recém-chegados refugiados podem até, um dia, descobrir que o eldorado que imaginavam não está bem aqui. Sairão, se quiserem. Mas não serão expulsos.

Fonte: brasildelonge.com
A riqueza supérflua só compra supérfluos. Não é preciso dinheiro para comprar o necessário à alma. (Henry David Thoreau)

LUGARES

FARROUPILHA - RS​

A imagem exibe uma longa via reta em declive com arborização típica e a imponente cúpula ao fundo do Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, localizado no município de Farroupilha, no estado do Rio Grande do Sul. O templo retratado é o Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravaggio, um dos maiores centros de turismo religioso e de romarias do Sul do Brasil. Situado na Serra Gaúcha, o santuário atrai centenas de milhares de fiéis anualmente em romarias tradicionais que ocorrem no mês de maio. A via é caracterizada pela vegetação com presença de araucárias, cenário marcante das estradas de peregrinação da região. (Google)

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