quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

ERA UMA VEZ PAPAI NOEL

Martha MedeirosMartha Medeiros

Eu acreditei em Papai Noel até os dez anos de idade. Minha filha mais velha acreditou até os seis. A mais moça, que tem quatro, ontem encontrou Papai Noel dirigindo um táxi e me disse: "Coitado, deve estar morrendo de calor, por que ele não tira aquela fantasia?"

Era uma vez um Papai Noel que vivia no Polo Norte, tinha uma fábrica de brinquedos onde empregava vários anõezinhos e, a cada 25 de dezembro, embarcava no seu trenó puxado por renas e passava na casa de todas as crianças (todas: japonesas, belgas, guatemaltecas) e distribuía presentes, entrando na sala pela chaminé. Ho, ho, ho. Que história mais sem pé nem cabeça.

Papai Noel está noutra. Caiu no mundo. Está tendo que se virar. Um deles foi visto com um sorriso de orelha a orelha na capa da Playboy, ao lado da Carla Perez. Outro foi algemado na Inglaterra depois de se estranhar com um rapaz: os dois saíram no soco na frente de um monte de criancinhas que, chorando convulsivamente, viram Papai Noel voltar pra casa de camburão. E há esse Papai Noel que dirige um táxi pelas ruas de Porto Alegre. Sem ar-condicionado no carro, ele enfrenta, de barba, gorro e luva, uma temperatura nada siberiana. Tudo pelo espírito natalino e por uma bela gorjeta, que ele também é filho de Deus.

Papai Noel, Bicho-Papão, Coelhinho da Páscoa: não há mais espaço para esta turma no imaginário coletivo. Estão decadentes. Não servem mais nem como garotos propaganda.

Quantos Papais-Noéis você viu na televisão este ano? Nem meia dúzia: a maioria dos comerciais anunciavam preço e condição de pagamento. Estamos impregnados de realidade. A realidade tomou conta. A realidade dita as regras. A realidade existe.

A boa notícia é que a realidade também comporta o sonho. Podemos continuar desejando coisas materiais e espirituais, podemos renovar intenções e fazer planos mesmo sabendo que o bom velhinho é um delírio. Primo existe, amigo existe, namorado existe, filho existe, pai, mãe, avós. Não entram pela chaminé, mas você pode facilitar deixando a porta aberta. Tá legal, ladrão também existe. Feche-a, então, e espere a campainha tocar.

Papai Noel, meu caro, foi bom enquanto durou. Sua mensagem de paz e união continua entre nós, mas sinto lhe dizer: o símbolo do Natal agora são as luzinhas.

Dezembro de 2000


Fonte: Facebook

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