sábado, 10 de dezembro de 2016

MR. MILES


Sobre banhos termais
Continua repercutindo o artigo "Parece, mas não é", que nosso viajante britânico publicou nesse espaço há duas semanas, mencionando coisas que existem na língua, mas não existem nos fatos, como, por exemplo, o filé à cubana ou o macarrão à parisiense. Muitos leitores têm enviado novas sugestões à lista, da qual a mais recorrente é o pão francês, que não corresponde aos pãos feitos na França. Mr. Miles promete voltar ao assunto e pediu para que mencionássemos a ótima participação do leitor Dyrson Inohira: "quando você for aos EUA tome cuidado se quiser comer um autêntico americano; o canibalismo foi abolido da nossa sociedade há muito tempo e só expressar o desejo já dá cadeia. O americano é o nosso delicioso pão recheado com presunto cozido, queijo, ovo e alface".
A seguir, a pergunta da semana:

Querido mr. Miles: sou uma fã de banhos termais e já estive em diversas estações hidrominerais ao redor do mundo. Será que um dia eu terei o prazer de encontrá-lo em uma dessas piscinas quentes?
Sarita Gonçalves, por email


Well, my dear: sinto terrivelmente desapontá-la mas, de minha parte, não aprecio nem um pouco esses sempre muito concorridos banhos públicos.

Para que fique claro desde já, minhas razões não têm nada em comum com as dos franceses, que, for sure, a prezada leitora jamais encontrou em alguma terma. Como é sobejamente conhecido, os habitantes da Gália não gostam de qualquer tipo de banho por motivos, I presume, ideológicos. De minha parte, prefiro a solidão de minha própria banheira ou das que me são oferecidas pelos quartos de hotel. Elas não têm enxofre nem outras propriedades balsâmicas, mas, como dizia minha querida tia-avó Antonine: “quem precisa disso?”

I’m sorry, dear Sarita, mas tenho, as you know, uma saúde de ferro, exceto pelas recidivas daquela antiga malária que contraí no Congo muitas décadas atrás. E minhas raras experiências em estações hidrominerais foram inegavelmente desagradáveis.

Vou relatá-las para ver se você concorda: muitos anos atrás, ainda durante a vigência do regime comunista, meu amigo Férenc Puskás (N.da R.: célebre futebolista hungaro) convidou-me para um banho nas termas do renomado Hotel Géllert, em Budapeste. Fazia um frio de congelar torneiras e decidi acompanhá-lo. O recinto era — e ainda é —, muito bonito. Mas confesso que senti um certo desconforto ao compartilhar as tépidas águas desse balneário com cerca de 5000 camaradas magiares em nítido estado de petição de miséria. Para piorar, oh my God, no imundo vestiário coletivo (hoje, by the way, já reformado) adquiri uma persistente coceira nos dedos, da qual levei meses para me livrar. Isn’t it awful?

Em outra ocasião, uma mulher muito bonita (ah, o poder das mulheres) convenceu-me a provar as águas quentes de um enorme balneário que fica justamente no Brasil. Prefiro omitir o nome, porque não sei se ele aprimorou suas condições desde então. Eis que, ao lado da piscina, havia uma grande placa com um desenho esquemático sugerindo um homem em vias de urinar. Havia um X sobre a placa, advertindo, probably, de que era proibido urinar no local. A sutileza da indicação, of course, fez com que eu me sentisse imediatamente mergulhado em uma privada. Tentei, therefore, concentrar-me na beleza de minha acompanhante, mas logo notei uma estranha massa esfarelada flutuando sobre as águas quentes. Guess what? No meio da piscina havia um bar vendendo cerveja e guloseimas aos banhistas. Os tais farelos, como compreendi a seguir, eram apenas pequenos pedaços das empadinhas que se desprendiam das mãos dos meus gulosos pares.

Será que agora, darling, você ainda guarda alguma esperança de encontrar-me em um lugar desses?

Fonte: Facebook 

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