quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NEM AÍ

Ruy Castro

Há dias, o papa Francisco declarou ao "Corriere della Sera" que dorme muito bem — "seis horas por noite, sem tomar ansiolíticos" —, apenas por seguir um velho conselho italiano: o de que, "para viver em paz, precisamos de uma boa dose de 'não estou nem aí". Taí. Não sou religioso, mantenho distância das coisas do Além e sempre fui indiferente a seus funcionários. Mas é impossível ficar alheio a este delicioso papa, que diz coisas como esta, tão fora do script.

Até então, para mim, tudo que acontecia no mundo cristão — ponha aí dois bilhões de almas, em sua maioria concorrentes à vida eterna — estava sob a jurisdição do papa. Se, em Xique-Xique (BA), João e Maria desfaziam a caminho do altar o casamento, se um seminarista em Exu (PB) aceitava o convite de seu superior para ir ao quarto deste a fim de conhecer sua coleção de sobrepelizes ou se o Brasil estava a ponto de se tornar o maior país ex-católico do mundo, tudo isto dizia respeito ao papa — eu pensava. Pelo visto, enganei-me.

Segundo entendi, o papa se reserva o direito de não ser obrigado a pontificar — mesmo sendo ele o Pontífice e, como se não bastasse, o Sumo — sobre tudo que acontece. Se há católicos se matando uns aos outros nos arredores dos estádios de futebol, o que ele pode fazer? Se senhoras em dia com seus terços e novenas impedem que os maridos saiam dos quartéis para patrulhar as cidades e isso provoca quase 150 mortes no Espírito Santo, o que você quer que ele faça?

E há temas explosivos sobre os quais não adianta perguntar-lhe. Por exemplo, o que ele acha da descriminalização da maconha, do apagamento dos grafites em São Paulo ou do boicote às marchinhas de Carnaval que falam de mulatas.

"O papa pode ser infalível", dirá Francisco, "mas não é otário de se meter nesses assuntos".

Fonte: Folha de S. Paulo

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