sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

MR. MILES

Mr. Miles

Como não recebemos nenhum tipo de comunicação, é justo imaginar que não se confirmaram, de novo, as suspeitas de que nosso correspondente britânico veio ao Brasil. A redação supõe que ele teria sido visto, a não ser que estivesse andando sem seu bowler hat - o que ele próprio acha inadmissível para um cavalheiro. No momento não temos notícia de seu paradeiro mas, certamente, seremos informados em uma de suas próximas cartas.

Querido mr. Miles, preciso lhe fazer uma confissão. Sempre tive muito medo de viajar de avião, o que tem atrapalhado meu sonho de ser uma viajante ativa como o senhor. Outro dia, porém, a empresa em que trabalho enviou-me para uma viagem de negócios na Alemanha. Não pude evitar e foi com muito sofrimento que me dirigi ao aeroporto. Acontece que me deram uma passagem de classe executiva. Então eu fiquei naquele bonito salão com comidinhas e bebidinhas, embarquei mais tarde (sem pegar fila) e deram-me uma poltrona incrível, que até massagem fazia! Resultado: comi bem, vi um ótimo filme e o medo passou… Seria um milagre?

Renata Muller Filiardi, por e-mail

"Well, my dear: sua narrativa foi muito esclarecedora. Unfortunately, ainda que eu tenha visto as mais belas e variadas atrações e pessoas deste mundo, não acredito em milagres. Que me perdoem os leitores mais religiosos, mas sempre há alguma explicação para tudo. E quando ainda não existe uma resposta, fico contente em saber que temos muito a evoluir.

As for your question, darling, não tenho a menor dúvida em afirmar que o sentimento de segurança está ligado a coisas inesperadas como o conforto, a cordialidade e todas as demais características de um espaço maior, menos claustrofóbico e - por que não dizer? - mais reservado. Veja bem, dear Renata: a primeira sensação quando você entra no avião sem a tensão de uma longa fila de embarque é a de que o avião está quase vazio.

Isn't it amazing? Muitas pessoas que têm ou tiveram medo de voar, como meu incorrigível velho amigo Lewis S. Pigeons, já me disseram que a simples constatação de que há 300 pessoas a bordo, com, of course, um número semelhante de bagagens pesadas, provoca-lhes pânico. "Como poderá levantar um avião tão cheio?" questionam-se. E é quando as garras viscosas do medo os agarram…

Na classe executiva, e ainda mais na primeira classe, o avião parece mais leve. A qualidade do serviço (sempre mais atento) também resulta na intuição de que, se você está sendo bem cuidado, deve ser sinal de que a companhia aérea cuida bem, as well, de seus aviões. Don't you agree?

Na verdade, os espaços na classe econômica andam tão exíguos que o sentimento é exatamente o contrário. Como nesse setor as empresas economizam em tudo, é justo pensar que economizam também na reposição de peças; que os pneus são recauchutados, a gasolina, as you say, é paraguaia e há uma série de remendos feitos com silver tape. É assim que o medo viceja.

Vou lhe contar mais uma coisa: minha querida companheira Léa Star tentou fazer um cruzeiro e jurou que nunca mais voltaria. Hospedada em uma cabine interna, sem vista para nada, ela enjoou por centenas de milhas náuticas e não viu qualquer prazer na viagem. Several years later, tive a oportunidade de convidá-la para um novo cruzeiro. Ela não quis. Disse-lhe, however, que tivesse confiança em mim. Naquela viagem, ela desfrutaria de uma suíte com varanda para o mar. Desconfiada, repleta de adesivos estranhos e comprimidos multicoloridos, ela acabou cedendo. Renata, darling: foi um milagre igualzinho ao que você me relatou. Nada de enjoos, nada de medo, tudo prazer e descoberta. Em outras palavras, querida: viajar melhor é melhor do que viajar bem e melhor do que viajar mal. Mas o pior mesmo é ficar em casa…"

Fonte: O Estadão

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