Mario e Raquel sempre foram mais do que irmãos — eram cúmplices. Vindos do interior, trouxeram na bagagem a simplicidade da terra natal e uma determinação silenciosa que os guiaria pela vida inteira. Quando se mudaram para a cidade maior, ainda jovens, tinham apenas a certeza de que estudariam e construiriam um futuro sólido. E cumpriram a promessa.
Seguiram caminhos distintos, mas jamais deixaram de lado os livros. Mario inclinou-se para o mundo dos negócios. Ainda muito moço, já respirava números e estratégias, formando-se em Economia enquanto se aventurava no empreendedorismo. Raquel, por sua vez, encontrou na sala de aula seu primeiro palco. Tornou-se professora dedicada, mas sua inquietude intelectual a levou mais longe: ingressou no curso de Direito.
Curiosamente, o destino fez com que os dois cursassem Direito na mesma época. Mario, mesmo já empresário, decidiu ampliar horizontes. A paixão pela área jurídica acabou por falar mais alto. Abandonou a trajetória empresarial e fundou um escritório de advocacia que, em pouco tempo, se tornaria respeitado na cidade. Raquel, firme e combativa, trilhou outro rumo após a formatura: enveredou pela política, elegendo-se vereadora e levando para a tribuna a mesma eloquência que exercitara na docência.
Mas, antes que se tornassem doutores e autoridades, eram apenas dois estudantes cheios de sonhos — e algumas travessuras.
Naqueles dias, a cidade fervilhava com a exibição de um épico muito comentado: Taras Bulba, estrelado pelo icônico careca Yul Brynner. A sessão da noite, no tradicional Cine Real, estava lotada de jovens universitários que, estrategicamente, haviam decidido que a aula poderia esperar.
Mario e Raquel estavam entre eles.
O filme, grandioso e dramático, arrancou suspiros e comentários animados na saída. A noite estava agradável, e Raquel caminhava pela calçada rumo ao centro da cidade, acompanhada de algumas amigas, ainda debatendo as cenas mais intensas.
Enquanto isso, Mario vinha logo atrás — mas não a pé.
Ainda nos tempos de estudante, num golpe de ousadia e economia bem administrada, ele havia adquirido seu orgulho sobre quatro rodas: um flamante Renault Gordini. Pequeno, barulhento e charmoso, era seu troféu particular. O que Raquel não sabia é que o irmão agora era um motorista orgulhoso.
Ao reconhecer a irmã caminhando distraída, Mario teve uma ideia pouco sensata — porém irresistível. Decidiu pregar uma peça. Aproximou-se devagar e começou a buzinar insistentemente, sem revelar o rosto, como se fosse algum galanteador inoportuno tentando chamar atenção.
As amigas riram nervosas. Raquel, porém, era mulher resolvida, de temperamento firme e pouca paciência para atrevimentos. Não se intimidou. Ao perceber que a buzina persistia, aproximou-se discretamente de uma construção próxima, abaixou-se com naturalidade e, munida de um tijolo providencial, aguardou o momento exato.
Quando o carro passou novamente, insistente, o projétil voou certeiro.
O som do impacto ecoou pela rua.
Mario mal teve tempo de compreender a própria imprudência. Reconheceu na postura decidida da “vítima” a irmã que conhecia desde a infância — e percebeu que a brincadeira havia ido longe demais. Sem alternativa, acelerou o Gordini ferido e desapareceu rua abaixo, levando consigo o susto, o prejuízo e uma história que renderia risadas por décadas.
Anos depois, já advogados respeitados — ela também vereadora combativa — ainda recordavam o episódio. Mario, com certa resignação; Raquel, com inegável orgulho da pontaria.
Porque, entre irmãos que cresceram juntos enfrentando o mundo, até um tijolo lançado contra um Gordini podia se transformar em memória afetiva. (Auxiliado pela IA)
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