quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A NOVA PEDAGOGIA É UM ERRO

Cristina Galindo, El País Brasil*

“O novo desafio é controlar o acesso ao celular. As escolas fazem bem em proibi-lo e os pais devem vigiar seu uso em casa. Devem saber dizer ‘não’”

Pedagoga sueca, com mais de quatro décadas de experiência na educação, critica método que dá mais iniciativa aos alunos na sala de aula e defende um ensino mais tradicional

O silêncio reina na rua de pedras onde mora Inger Enkvist, em Lund, uma das cidades mais antigas da Suécia, com uma das universidades mais importantes deste país nórdico. Ninguém diria que a poucos minutos a pé fica o centro urbano. Esta calma chega ao interior de seu apartamento, uma sobreloja com grandes janelas e um jardim traseiro comunitário. Seu escritório, luminoso e cheio de livros, é um reflexo de sua ideia de como é preciso se entregar a qualquer tarefa intelectual: com ordem, concentração, seguindo regras…, lendo.

Enquanto a maioria dos pedagogos questiona a utilidade de decorar informações na era do Google e prega o fim das carteiras enfileiradas e das disciplinas estanques, com mais liberdade para os alunos, Enkvist (Värmland, Suécia, 1947) defende a necessidade de voltar a uma escola mais tradicional, onde se destaquem a disciplina, o esforço e a autoridade do professor. Seu ponto de vista contraria os postulados dessa nova pedagogia, mas também se distancia daqueles que acreditam que a escola é uma fábrica de alunos em série e que deve centrar seus esforços em competir com outros colégios para subir nos rankings mundiais.

Começou sua carreira educativa como professora do ensino secundário, e agora é catedrática emérita de espanhol na Universidade de Lund. Centrou sua pesquisa na obra de Mario Vargas Llosa e Juan Goytisolo, e escreveu ensaios sobre José Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno e María Zambrano. Publicou vários livros sobre pedagogia – como Repensar a Educação (Bunker Editorial, 2006, digital) – e centenas de artigos, além de ter assessorado o Governo sueco no assunto. Sentada na sala de sua casa, Enkvist conversa em espanhol sobre como acredita que as escolas deveriam ser, enquanto bebe um suco de frutas vermelhas servido num jarrinho de barro comprado em Segóvia. Falando com ela, não é nada difícil imaginá-la no seu colégio, ainda menina, tirando ótimas notas.

Eis a entrevista:

Como recorda sua escola?

Era pública e tradicional. Não tenho más recordações. Talvez houvesse algumas aulas chatas, mas às vezes a vida é assim. Os alunos chegavam na hora e não havia conflitos com os professores. A Suécia me deu uma educação gratuita e de qualidade.

Os tempos mudaram. Continua valendo a disciplina daquela época?

A relação entre pais e filhos se baseia mais do que nunca nas emoções. Temos uma vida mais fácil, e queremos que nossos filhos também a tenham. Mas a escola deve estar consciente de que sua tarefa principal continua sendo formar os jovens intelectualmente. A escola não pode ser uma creche, nem o professor um psicólogo ou um assistente social.

Qual deve ser a finalidade do ensino infantil?

Deve ser muitas coisas, mas sua tarefa principal é dar uma base intelectual. Dar conhecimentos aos jovens, prepará-los para o mercado de trabalho, transmitir-lhes uma cultura e proporcionar-lhes uma ideia da ordem social, porque a escola é a primeira instituição com a qual as crianças se deparam, e é importante que vejam que há algumas regras, que o professor é a autoridade e que é preciso respeitar tanto ele como os colegas.

Mas a tecnologia torna mais difícil controlar crianças hiperestimuladas.

Sempre houve dificuldades na aprendizagem. Há 50 anos, era o fato de precisar andar uma hora para chegar ao colégio, ou oferecer refeições nutritivas. Hoje se trata da enorme quantidade de estímulos. O novo desafio é controlar o acesso ao celular e ao computador para que se concentrem. As escolas que proíbem o celular fazem bem. Em casa, os pais devem vigiar o tempo de uso da tecnologia. Proibir é muito difícil, porque se criam conflitos, mas um pai moderno deve saber dizer “não”. Deve resistir.

Há pedagogos que afirmam que a escola tradicional é chata e educa crianças submissas, e que é preciso aprender a aprender.

A escola é um lugar para aprender a pensar sobre a base dos dados. Isso de insistir em aprender a aprender sem falar antes de aprendizagem é uma falsidade, porque não podemos pensar sem pensar em algo. Sem dados não há com o que começar a pensar.

A escola não deveria ser um lugar onde se divertir?

A satisfação na escola deve estar vinculada ao conteúdo: entrar numa aula e que lhe contem algo que você não sabia. Mas é preciso saber que, para entender algo novo, é necessário fazer um esforço. Além disso, é fundamental que o professor nos ensine a ler e também como nos comportar. É impossível aprender bem sem que haja ordem na sala de aula. Essa é a base principal: comportamento, leitura e avaliação pelo conhecimento.

O que opina da tendência de pôr almofadas na sala de aula para que os alunos se deitem?

Isso é enganar os jovens. Para aprender a escrever, uma criança precisa sentar-se bem, olhar para frente, ter lápis e papel, concentrar-se… Aprender pode ser um prazer, mas, insisto, exige um esforço e um trabalho. É preciso dizer isso às crianças. Se não, estamos enganando-as. Tocar violino, por exemplo, não é fácil. Exige muita prática. Os estudos do psicólogo sueco Anders Ericsson mostraram que é necessário um esforço prolongado para melhorar em algo. Para ser bom em algo você tem que se dedicar 10.000 horas. E precisa fazê-lo de forma consciente e trabalhar com um professor. Sua pesquisa avaliza a ideia tradicional de uma escola baseada no esforço do aluno, sob a orientação de um professor.

Há quem diga que não é preciso decorar porque tudo está no Google.

Essa é outra falsidade. O Google é uma ferramenta genial. É de grande ajuda para os adultos, porque sabemos o que procuramos. Mas, para quem não sabe nada, o Google não serve de nada. Há intelectuais que andam por aí dizendo que estudar geografia não foi útil. Acredito que se esqueceram de como e quanto aprenderam na escola. Afirmar essas coisas é uma falta de honradez com os jovens. E menosprezar a importância em si da vida intelectual do aluno.

Em que consiste a nova pedagogia que você critica?

A nova pedagogia é um pensamento que se vê por toda parte no Ocidente. A Suécia a adotou nos anos sessenta. Consiste, por exemplo, na pouca gradação das notas, por isso muitos pensam que não há razão para estudar muito se isso não for se refletir no histórico escolar. Dá-se muita importância à iniciativa do aluno, trabalha-se em equipe e, ao mesmo tempo em que as provas desaparecem, aparecem os projetos e o uso das novas tecnologias. Em geral, parece que se vai à escola para fazer atividades, não para trabalhar e estudar. Dá-se mais ênfase ao social que ao intelectual. Acho que é um erro. Por um lado, os alunos com mais capacidade não desenvolvem todo o seu potencial e, por outro, os que têm uma menor curiosidade natural por aprender não avançam. Além disso, muitos gostos são adquiridos, como a história, a leitura e a música clássica. No começo podem parecer chatos, mas, se alguém insistir para que tenhamos um primeiro contato, é possível que acabemos gostando. Atualmente, muitos jovens escolhem sem terem conhecido e, claro, escolhem o fácil.

A Espanha é um dos países da OCDE que dedica mais horas à lição de casa. Isso tem alguma utilidade?

Quando a jornada é muito longa, como na Espanha, não faz sentido. Se um aluno está cansado, a lição de casa não melhora o seu rendimento. É preciso buscar um número ideal de aulas pela manhã, quando a criança está mais acordada, dar-lhe um tempo de descanso e, à tarde, talvez uma tarefa de revisão do que fez durante aquele dia. Um bom exemplo é a Finlândia, onde os alunos entram às oito da manhã e saem às duas da tarde, incluindo o almoço; exceto às quintas-feiras, quando saem às quatro da tarde.

Quando criança, você era um grande leitora. Como despertar esse prazer se uma criança não está interessada?

Era uma leitora compulsiva. Ninguém teve de insistir para que eu pegasse um livro. Mas há crianças que precisam disso. Talvez no começo seja necessário forçá-las um pouco, encorajá-las para que se tornem leitoras de lazer. Como se faz isso da escola? Comprar bons livros para a biblioteca e recomendar um a cada sexta-feira. Um aluno pode contar o que leu naquela semana. Fazer pequenas competições para ver quem leu mais. Medir como o seu vocabulário aumenta. E explicar que a leitura lhes permitirá, quando adultos, um melhor desenvolvimento. Se os alunos começam a ler, quase todos descobrirão que é um prazer. Mas eles precisam de horas. Calcula-se que na maioria dos países se dedicam 400 horas à aprendizagem da leitura na escola primária. Para ser um bom leitor, são necessárias 4.000 horas. É impossível ter tanto tempo na aula. Eles têm de fazer isso em casa. O que os pais podem e devem fazer é ler com os filhos: apoiar a leitura e servir de modelo.

Mas as humanidades estão perdendo peso.

Dizem que o amanhã será dominado pela tecnologia e pelas ciências naturais, e que o que é histórico não é importante. Além disso, as provas do PISA [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], um conjunto de exames organizados pela OCDE para avaliar as competências de alunos de 15 anos em ciências, matemática e leitura] não levam em conta as humanidades porque é difícil comparar esses conhecimentos entre países, então a vontade de competição os leva a dar mais ênfase às matérias que fazem parte do PISA e negligenciar as outras. Tanto a escola quanto a família devem dar mais ênfase às humanidades.

A visão do PISA é a de uma escola que deveria funcionar como uma empresa?

A OCDE é uma organização econômica e analisa a educação a partir dessa perspectiva. O que o PISA não revela é se existe uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são inculcados, se as ciências humanas, as ciências sociais, as matérias estéticas como arte e música, que são essenciais, são bem ensinadas. O PISA é uma prova muito específica que analisa algumas coisas. As escolas e os países deveriam defender que eles ofereçam muito mais do que isso.

Em seus livros, você aponta a Finlândia como um dos grandes modelos.

A educação na Finlândia foi tradicional, embora há dois anos o Governo tenha lançado um programa mais parecido com o da Suécia, porque meu país tem um desempenho escolar inferior, mas tem um comportamento econômico superior e criou empresas de tecnologia como Spotify e Skype. O Governo finlandês parece pensar que com um pouco de desordem suas escolas serão mais criativas. Não acredito nisso.

A Finlândia era tradicional? Não há exames no ensino obrigatório nem os havia antes dessa reforma que você menciona.

É preciso repensar a fobia aos exames. O exame ajuda a se concentrar em um objetivo. Que em tal dia você tem de saber esses conhecimentos. Um bom professor ensina coisas aos alunos, revisa com eles e faz algumas provas. E constroem outros ensinamentos sobre o que já foi aprendido, então esses conhecimentos voltam a aparecer mais tarde. Não faz um exame sobre algo sem importância. Com a prova final acontece a mesma coisa. É um objetivo claro. Ajuda a ter uma visão global.

Na Finlândia não se compara tanto as escolas, o que é comum na Espanha. É assim?

Na Finlândia continuam com a tradição de confiar nos professores. Quando existe um controle estatal do desempenho e se fazem comparações entre as escolas, o ambiente se deteriora. Para os professores, gera estresse e rancor em relação a quem te controla.

Como deve ser um bom professor?

Responsável e bem formado. Deve acreditar no poder do conhecimento. Não se é bom professor apenas pelo que se sabe sobre a matéria, nem só porque sabe conquistar os alunos. É preciso combinar ambos os elementos: atrair os alunos para a matéria para ensiná-la adequadamente. É preciso recrutar professores excelentes em que alunos, pais e autoridades possam confiar. E a menos que haja uma situação grave, devemos deixá-los trabalhar.

Como foi sua experiência na sala de aula?

O aluno tem de respeitar as instruções do professor, fazer as lições de casa e, por exemplo, não mentir. Antes, mentir era muito grave. Agora parece que não acontece nada. Vi jovens que inventam motivos para justificar por que não fizeram um trabalho, que escrevem de forma pouco legível para gerar dúvidas ou discutem o tempo todo com os professores. Sei o quão desagradável é que um aluno tente mentir para você. Vi isso no ensino médio e na universidade. Quando um professor sente que não é respeitado, que tentam enganá-lo, todas as relações de ensino se rompem.

O que fazer com as crianças que incomodam e não deixam os outros trabalharem?

Isso é um tabu. É considerado pouco democrático. Diz-se que devemos dar uma oportunidade a todos. Mas o que acontece quando uma criança problemática não deixa os outros trabalharem, quando se fala com ela e com os pais, mas não se corrige? É preciso colocá-lo em um grupo separado para ver se percebe e muda.

E as crianças que se esforçam, mas não atingem o nível?

Elas podem ter aulas de reforço. E podemos oferecer itinerários diferentes, como no caso de Cingapura.

E repetir de ano?

Fazer repetir uma criança às vezes serve e às vezes não, porque cada um é diferente. Gosto do sistema de Cingapura, onde o lema é que cada criança pode atingir seu nível ótimo. Existem diferentes maneiras de conseguir isso: uma maneira, digamos, normal e outra, expressa. A segunda inclui mais conteúdos em menos tempo. Há quem diga que é menos democrático, mas creio que, pelo contrário, é mais democrático porque convém à criança, à família e ao Estado. E há menos evasão escolar, um problema muito mais grave.

Não está aprendendo também por imitação? Ou seja, os alunos adiantados podem puxar aqueles que ficam para trás?

Funciona quando o grupo tem um bom nível e um bom professor. E se aqueles que têm de se integrar são poucos e querem fazê-lo. Se não, o que geralmente acontece é que aqueles que não querem trabalhar arrastam os outros.

O bilinguismo que combina inglês e espanhol prolifera nas escolas espanholas. Você matricularia seus filhos em uma dessas escolas?

Primeiramente, eu analisaria outras opções. Aprender inglês é bom, mas é preciso perguntar o que deixamos de aprender de outras matérias. Tenho dúvidas. Acredito que se pode aprender bem inglês com algumas horas de aula sem sacrificar outros conhecimentos, como por exemplo, as ciências. Na Suécia, as aulas de inglês só começam aos 9 ou 10 anos.

*Originalmente publicado no jornal El País Brasil


Fonte: Revista Prosa e Verso
Olho por olho... e o mundo ficará cego. (Gandhi)

LUGARES

AMSTERDAM - HOLANDA
Moinho pitoresco e reformado do século 17, localizado às margens do Rio Amstel.

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


UM DOS QUE SOFREM OU SOFRE?
--- É um dos lugares que mais sofreram ou é um dos lugares que mais sofreu com as chuvas. Construções como estas ouve-se com frequência em jornais de TV; ontem, por exemplo, a Sra. Prefeita mencionou a primeira.” G. G., São Paulo/S
 --- É uma das obras que o lançou... Pergunto se aqui também pode ser aceito o plural? Quando tiver a expressão uma das e também quando tiver o sentido de obra literária. É o mesmo critério de um dos que?” Paulo, Rio de Janeiro/RJ
São comuns na língua portuguesa as duas construções. A escolha pelo verbo no plural  (que é tida como a sintaxe mais recomendável) ou no singular reside primordialmente na ênfase que se quer dar ou ao conjunto ou a um só elemento, isto é, à ação feita por um só indivíduo ou por muitos/alguns, como se observa nos exemplos abaixo:
  • Sanga do Leste é um dos lugares que mais sofreram com as chuvas.
  • Recomendo a leitura de “Intimidades”, uma das obras que lançaram Dorothy.
  • Pita foi um dos [políticos] que mais falaram na reunião.
  • O linho é um dos tecidos que estão em alta nesta estação.
  • Sanga do Leste é um dos lugares que mais sofreu com as chuvas.
  • Recomendo a leitura de “Intimidades”, uma das obras que a lançou.
  • O linho é um dos tecidos que está em alta nesta estação.
  • Foi desativada uma das maiores quadrilhas que atuava em Divinópolis.
O linguista e gramático Celso Luft explicou o uso do singular como “uma regra elementar de sintaxe que manda suprimir termos repetidos (persistem na mente, mas podam-se na frase)”. Isso significa que, por exemplo, em vez de dizer “o linho é um tecido que está em alta entre os tecidos que estão em alta nesta estação”, dizemos simplesmente “o linho é um dos tecidos que está em alta nesta estação”.
Há, contudo, uns poucos gramáticos e professores que receitam o uso do plural apenas, desqualificando uma prática secular de emprego do predicado no singular. Rui Barbosa, entre outros estudiosos da língua, defendeu a construção com verbo no singular, já que ele exprime “o fenômeno da atração do verbo de uma sentença pelo sujeito de outra” (1986, nota 192, v.I, p.334), e apresenta inúmeros exemplos clássicos, dos quais extraio três:
  • “Ele foi um dos que muito contradisse a el-rei.” (Fern. Lopes)
  • “Uma das cousas que derrubou a Galba do império foi tardar...” (M. Bernardes)
  • “Na Ásia foi um dos governadores que mais impulsionou a queda do império índico.” (Camilo Castelo Branco)
Aponta ainda Rui Barbosa que em quase todos os trechos transcritos por ele “a ação é exercida por muitas entidades, e, não obstante, o verbo está no singular” (ibid.).
E Said Ali (apud Luft, Mundo das Palavras n. 2.313, s/d) fez ver que esse fenômeno se observa em grego, latim, francês, espanhol, inglês e alemão. Celso Luft aproveitou a deixa para ironizar: “Os clássicos e todas essas línguas deveriam ter esperado pelos dois filólogos* portugueses para acertarem a sintaxe?” [*referia-se a Epifânio Dias e Vasco B. de Amaral, que só admitiam o plural] Como em português o caso não é novidade nem ilógico, aceitemos as duas maneiras de expressão!
Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

 

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

SOU CONTRA A 'ESCOLA EM CASA' PORQUE AS FAMÍLIAS NÃO ESTÃO COM A BOLA TODA

Luiz Felipe Pondé

Quem defende 'homeschooling' acaba pedindo a Deus ou a extraterrestres para dar um golpe de Estado no Brasil

Sou contra. "Homeschooling", ou "escola em casa", é uma daquelas modinhas que a direita brasileira importou da direita americana, como arma para todos e fake news como liberdade de expressão. O maior argumento contra os bobocas da direita hoje é eles terem vícios semelhantes aos inteligentinhos da esquerda: importar todo tipo de lixo americano. Os EUA são o maior produtor de lixo cultural do mundo.

Sou contra a "escola em casa" porque não acho que as famílias estão com essa bola toda. Assim como desconfio de gente que quer ficar falando de sexo —ou similares— com crianças, desconfio de pais que querem educar seus filhos em casa.

O argumento máximo a favor da escola formal é a pluralidade de ambientes que ela oferece. Claro que nessa pluralidade vai todo tipo de risco, mas quem disse que as famílias não são um risco também? Principalmente aquelas que querem ter o monopólio dos "valores" —eita expressão brega essa "valores"— na formação dos filhos. Acho gente muito esquisita esse povo que defende a "escola em casa".

Evidente que há uma parte da escola que acontece em casa. Pais que se importam tanto com a escola deveriam tirar dez em toda tarefa para casa dos filhos. Mas, não. Quem defende a "escola em casa" o faz por uma forma peculiar de arrogância. Entende a si mesmo como especialista em tudo.

No lado diametralmente oposto aos pais que correm atrás de especialistas de forma paranoica para fazer diagnósticos psicopatológicos dos filhos, os defensores da "escola em casa" são também uma forma teratológica —não sabe o que é? Olhe no Google— da paternidade e maternidade loucas do mundo contemporâneo.

Não duvido que existam países que pratiquem essa forma de escola. O que por si, não prova nada. Mas, a realidade do Brasil é que a "escola em casa" é capricho de classe média obcecada com ser a única fonte de mundo dos filhos —o que, por si só, já deve levantar suspeitas. Quem defende a "escola em casa" acaba pedindo a Deus ou a extraterrestres para dar um golpe de Estado no Brasil.

A realidade do Brasil é "escola em lugar nenhum" porque grande parte das crianças não vão a escola nenhuma. Grande parte das famílias não tem estrutura para garantir nem a ida das crianças para a escola formal, quanto mais "escola em casa". Por isso, toda essa discussão é jogar no lixo tempo de resolução para os problemas sérios da educação no Brasil.

Não entremos aqui num debate profundo sobre educação porque ela simplesmente não comporta profundidade nenhuma. A questão é urgente demais para as complexas combinações da inteligência. A questão é puro desespero. É necessário botar as crianças na escola porque do contrário o país vai para o saco, mais do que já está. E escola aqui é escola formal, onde elas deviam passar o dia todo.

Sim, a educação é rasgada por modas ideológicas, professores pregadores, infraestrutura lixo. As escolas privadas são empresas submetidas ao mercado e a queda na natalidade. As universidades são instituições em que burocratas, marqueteiros e politiqueiros dominam o território. Aluno importa como renda. A gente sabe disso tudo. Não há nenhuma grande teoria na educação afora muita idealização da própria atividade ou modas de autoajuda e motivacional. Ou ela é política, ou é psicologia ou é vendas. Por isso mesmo não cabe nenhuma profundidade no assunto.

O problema é mais de engenharia do que de ciências humanas. Quando uma situação fica tão miserável quanto a educação no Brasil, a única atitude possível é a busca do razoável. No caso, instalações descentes, professores treinados,crianças com dentes na boca, ambiente seguro, comida sem veneno, carga horária completa, ler, escrever, fazer conta, aprender a conviver com outras crianças que serão os adultos do futuro.

Vale acrescentar que a família brasileira é, em grande parte, tão miserável quanto as outras instituições brasileiras. Portanto, esse fetiche com uma educação em que a família é responsável pelos "valores" —de novo essa expressão brega— a serem passados para os filhos é papo furado. Arrogância e blá-blá-blá.

Fonte: Folha de S. Paulo
Aquele que duvida e não investiga torna-se não só infeliz mas também injusto. (Pascal)

LUGARES

VIANA DO CASTELO - PORTUGAL

Viana do Castelo é uma cidade portuguesa, capital do distrito com o mesmo nome, na região do Norte, e integrada na sub-região NUT III do Alto Minho, com cerca de 26 000 habitantes. É sede do município de Viana do Castelo — com 319,02 km² de área e 85 784 habitantes — que está subdividido em 27 freguesias. Wikipédia

E AQUELA DA MAE WEST?

Ruy Castro

Ela negava que tivesse descoberto o sexo: "Apenas não o cobri"

Você sabe quem foi Mae West (1893-1980) e como ela se definia: "Quando eu sou boa, sou ótima. Mas, quando eu sou má, sou muito melhor". Se não sabe, ela foi uma estrela da Broadway e de Hollywood a partir dos anos 20, escritora, roteirista, cantora, símbolo sexual e alvo nº 1 da censura, da polícia e dos religiosos americanos por suas frases. Como esta: "Já estive em mais colos do que um guardanapo". Ou: "Tive tantos homens que o FBI devia me procurar quando quisesse comparar suas impressões digitais". Ou: "Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido, a não ser que ele fosse perfeito".

Seu cartão de visitas no cinema foi sua primeira frase em "Noite após Noite" (1932). A chapeleira a olha admirada: "Meu Deus, que diamantes lindos!". E Mae: "Deus não teve nada a ver com isso, querida". Um filme depois, Mae examina um homem de alto a baixo e sugere: "Dê uma subidinha e venha me visitar". E a um amigo que lhe dá um abraço: "Isso é um revólver no seu bolso ou você está só contente de me ver?".
Suas frases marcaram época: "Ama o teu próximo —e se ele for alto, moreno e simpático será muito mais fácil"; "Entre dois males escolho o que ainda não experimentei"; "Sempre evito tentações, exceto quando não consigo resistir".

Escreva "Mae West" no seu computador e o corretor ortográfico burro que mora dentro dele corrigirá para "Mãe West". Mae, mãe? Mae nunca foi mãe —sua independência não lhe permitia. Um dia, ela refletiu: "Durante algum tempo eu me envergonhei da vida que levava". "E você se corrigiu?", perguntou alguém. "Não", ela respondeu, "deixei de me envergonhar".

Em "Homem e Mulher até Certo Ponto" (1970), que ela fez aos 77 anos, um caubói muito alto se aproxima dela. Mae pergunta: "Qual é a sua altura, caubói?". "Dois metros e 18", diz ele. E ela: "Bem, esqueça os dois metros e vamos falar sobre esses 18 centímetros".

Fonte: Folha de S. Paulo - 18/06/2022

FRASES ILUSTRADAS



terça-feira, 29 de novembro de 2022

A ORIGEM DA RECEITA

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem vai ao médico, nos dias de hoje, não se dá conta de que a regulamentação da profissão ― em terras europeias e americanas ― é relativamente recente.

Da Idade Média até o século XIX, a arte de curar foi exercida por corporações disparates, tais como: homens de igreja, barbeiros, boticários, tira-dentes, curandeiros, charlatães, feiticeiras.

Prescription 2

A Revolução Francesa, entre outros feitos, tornou a sociedade consciente de que certas práticas ancestrais reclamavam por normatização. O sistema métrico, por exemplo, é fruto daquela época. Até então, havia um rosário de unidades de medida ― de peso, de capacidade, de tamanho. Pés, polegadas, quintais, braças, arrobas variavam de uma região a outra.

A Revolução, assim como normalizou as unidades de medida, apontou para a necessidade de sistematizar outros atos e procedimentos que cada um costumava, até então, executar a seu modo. A regulamentação de certos ofícios começou naquela época.

A valorização das profissões da área de saúde ― medicina, cirurgia, farmácia ― gerou, como corolário inevitável, o rebaixamento de curandeiros e feiticeiras. Barbeiros passaram a dedicar-se unicamente à pilosidade de seus clientes, deixando sangrias e extrações dentárias para profissionais habilitados.

Olho de Horus
Olho de Horus

Embora já fosse adotada esporadicamente desde o século XVII, ganhou força aquela marca de que uma receita tinha sido prescrita por um profissional. Tratava-se de um R barrado ― este aqui: ℞.

Está em uso até nossos dias. É muito provável, distinto leitor, que o médico que cuida de sua saúde tenha guardado o que lhe ensinaram na escola e continue a marcar suas receitas com o símbolo distintivo da corporação. Preste atenção da próxima vez.

De onde vem essa, digamos assim, logomarca? Pois parece que a origem é incrivelmente longínqua. Contam que as raízes descem até o Egito antigo. O R barrado seria a transliteração, se assim podemos nos exprimir, do hieroglifo que simbolizava o olho esquerdo de Horus, um dos deuses da mitologia egípcia.

Olho de Horus
Olho de Horus

Por que o olho esquerdo? Ih, é uma história complicada, com briga entre deuses, assassinato, esquartejamento, muito sangue. Pra resumir, saiba-se que, numa luta entre Seth e Horus, o olho esquerdo deste último foi arrancado e picado em 64 pedaços. Toth, o deus da ciência e da medicina, foi quem conseguiu dar jeito de recompor o despedaçado olho de Horus.

Seja como for, é surpreendente que milhares de médicos ao redor do planeta encabecem suas prescrições, talvez sem o saber, com símbolo forjado milênios antes de nossa era.

Publicado originalmente em 22 agosto 2014.

Fonte: brasildelonge.com
Um bem adquirido sem dificuldade é um tesouro no ar. (Pierre Corneille, poeta francês)

LUGARES

GRANADA - ESPANHA
Granada é uma cidade na região de Andaluzia, no sul da Espanha, nos contrafortes das montanhas da Serra Nevada. Ela é conhecida pelos grandiosos exemplos de arquitetura medieval que datam da ocupação moura, especialmente a Alhambra. Essa vasta fortaleza, no topo de uma colina, abrange palácios reais, pátios serenos e espelhos d'água da dinastia Nasrid, além das fontes e dos pomares dos jardins de Generalife. ― Google

FRASES ILUSTRADAS

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

BOLAS DE FUTEBOL ANTIGAS MACHUCAVAM QUEM CABECEAVA

Marcelo Duarte
Desde a Copa de 1970, bolas vêm ganhando altos investimentos em design

Curtiu a primeira semana da Copa do Mundo? Pois as emoções estão apenas começando. Não sei você, mas eu adorei a Al Rihla ("a viagem", em árabe), bola oficial da competição. Da Copa de 1970 para cá, as bolas vêm ganhando altos investimentos em design, com desenhos e cores inovadores.

A tecnologia também está cada vez mais avançada. Bem diferentes dos modelos antigos.

As bolas antigas eram brancas?

Nada disso. No livro inglês "1001 Football Moments", os autores Rob Wightman, Robert Lodge, Mike Hooley, Louis Massarella, Leo Moynihan e Sam Pilger contam que a bola de futebol branca foi usada pela primeira vez num amistoso entre o Arsenal, da Inglaterra, e o clube israelense Hapoel Tel Aviv no dia 19 de setembro de 1951, em Londres.

Como muitas partidas começaram a ser disputadas à noite, os jogadores reclamavam de não enxergar a bola de cor marrom em campo. Daí que a mudança foi acontecendo aos poucos.

A Copa do Mundo de 1970, no México, foi a primeira em que a bola deixou de ser marrom. A Telstar, da Adidas, apareceu com um design revolucionário: 32 gomos, sendo 12 pentagonais pretos e 20 hexagonais brancos. Ela era usada também em jogos com a luz do dia.

Então como eram as bolas antes disso?

Até então, as bolas mantinham a cor do couro com que eram feitas. Alguns modelos eram costurados por fora, outros eram bem rústicos. Um longo caminho precisou ser percorrido para chegarmos aos modelos atuais.

Um costume medieval europeu era inflar bexigas de porco para que as crianças brincassem. As primeiras bolas foram feitas desse material coberto com couro para manter seu formato original. A parte interna é chamada de câmara.

O americano Charles Goodyear patenteou o processo de vulcanização da borracha. A primeira bola feita com esse material apareceu em 1855. Ela era parecida com uma bola de basquete, com vários painéis de borracha colados pelas extremidades.

Em 1862, o inglês Richard Lindon inventou uma das primeiras câmaras de borracha para bolas de couro. No final do século 19, a maior parte das bolas já tinha câmara de borracha e pingava mais no chão.

Qual foi o primeiro modelo trazido para o Brasil?

O modelo de bola trazido da Inglaterra pelo estudante paulista Charles Miller em 1894 era desse tipo. O exterior era de couro curtido e tinha uma costura aparente bem no centro. Os cordões machucavam a testa dos jogadores que tentavam cabecear.

As bolas passaram a ter costura interna, deixando de ter cordões só nos anos 1940. Mesmo assim, em dias de chuva, o couro ficava encharcado, o que as tornavam extremamente pesadas.

Depois da Segunda Guerra, tintas sintéticas começaram a ser usadas para proteger o couro da água.

Fonte: Folha de S. Paulo
Um ciumento sempre encontra mais do que procura. (Madeleine de Scudéry, escritora francesa)

LUGARES

BERGEN - NORUEGA

Traduzido do inglês-Fløyen ou Fløyfjellet é uma das "montanhas da cidade" em Bergen, Hordaland, Noruega. Seu ponto mais alto fica a 400 m acima do nível do mar. O nome pode se originar de fløystangen ou um cata-vento que foi criado para indicar a direção do vento para veleiros. Wikipedia (inglês)

PERDIDAMENTE

Martha MedeirosMartha Medeiros

Amizades passam por fases, como os amores. Fase do grude, fase do silêncio, fase da demolição, fase da reconstrução. Tenho uma amigona com a qual eu andava na fase grude, só que ela se apaixonou e saiu de cena com o novo namorado. Hoje nós duas estamos na fase qual é mesmo o teu nome?, mas ela me mandou um WhatsApp dia desses dizendo que sente minha falta e que um dia irá voltar, como se estivesse num paraíso perdido. Ora, ela está o que é uma bênção. O que me comoveu foi a sua definição do momento atual: A felicidade anda me desorganizando.

A gente busca a felicidade como se ela fosse um pacotinho escondido atrás da Torre Eiffel, como se ela estivesse resumida a seis números de loteria, como se ela viesse dentro de uma bolsa de grife, como se sua chegada dependesse de uma foto no jornal, de uma capa de revista: cada um vai atrás da sua felicidade idealizada e acredita que só ao alcançá-la é que a vida finalmente entrará nos eixos.

É o contrário. Aí é que a vida ficará de pernas para o ar.

A cada manhã, levantamos da cama com a esperança de que o dia nos surpreenda, mas as surpresas não são cotidianas, não ficam tão disponíveis, elas são sorteadas aqui ou acolá, escapando de qualquer planejamento. Enquanto nada de especial acontece, a gente está no eixo, muito no eixo. Estabilidade é ausência de emoções fortes. Quando um desejo, finalmente, se cumpre, aí é que a bagunça se instala e o tempo desenfreia-se.

A felicidade (aqui traduzida por uma alegria incontida, não a felicidade da paz de espírito) nos desorganiza, de fato: minha amiga tem total razão, ela que deixou de ser regida pelo cérebro há alguns meses e se tornou ainda mais inteligente. A felicidade é carnavalesca, dança de um lado para o outro, se traveste, se fantasia, retira o relógio do nosso pulso, joga longe nossos sapatos, passa a ser regida por calafrios, não mais por conversas sensatas. Destrava, desalinha, e nós, seus portadores, desalinhamos juntos. Filhos, amigos, parentes: realidade demais, xô.

Esse tipo de felicidade (repito: a do enlevo, do encantamento profundo) não tem laços vitalícios com ninguém, ela é uma chama, um raio, um cometa, intuímos sua efemeridade e queremos mantê-la acesa o máximo de tempo possível. Obediência a calendários e compromissos conduziriam ao fim deste fervor, mas tudo o que queremos é que este fervor permaneça, mesmo que ao custo do nosso despreparo para ele, mesmo que pareçamos fora do esquadro. Ok, pagamos o preço. Desorganizados, mas radiantes.

É possível ser feliz e ao mesmo tempo organizado, mas você entendeu: não estou falando da felicidade comum, aquela incluída em nossos afazeres diários, e sim do êxtase, esse adorável corruptor da nossa agenda.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

 

domingo, 27 de novembro de 2022

COM ERASMO CARLOS PARA PLAYBOY

Ruy Castro

Nesta entrevista de 1980, ele começava a voltar, depois de conhecer a glória e o desprezo


Playboy, 1980. Trechos de minha entrevista com o suave Erasmo.

"Já tive a minha fase de ídolo, de ser rasgado pelas fãs, de não poder sair à rua. Um dos motivos da minha calvície foram os chumaços de cabelo que as meninas arrancavam. Até três juntas dá pra encarar, só querem beijar. Mas, no que passou de dez, ficam selvagens, te pisoteiam, podem até te matar."

"Eu não vim da elite. Vim do proletariado urbano, nasci na Zona Norte do Rio. Cantei em circo, cantei em propaganda de candidato a vereador na Baixada Fluminense, cantei em caminhão, já fui em avião de carga para cantar no Piauí. Já cantei em cinema sem microfone. Onde pintava uma grana eu ia buscar."

"Era chique convidar o pessoal da Jovem Guarda para as festas. Uma grã-fina dizia pra outra: ‘Sabe quem vem? O Erasmo!’. A outra dizia: ‘Oh!’. E lá ia eu. Era só chegar, dizer boa-noite e já me punham um violão na mão. Depois de cantar, eu me interessava por uma ou por outra. Mas aí já não servia mais. As mães delas diziam: ‘Ponha-se no seu lugar. Quem é você para querer a minha filha?’."

"Quando a Jovem Guarda faliu, ninguém mais quis saber de mim. Aí pintou o tropicalismo e eu descobri que havia cabeludos mais cabeludos do que eu, gente que usava roupas mais extravagantes que as minhas, rebeldes mais ousados do que eu —porque eu era rebelde, mas não era ousado. Pirei. Ninguém mais me recebia nem com cafezinho. Tive de recomeçar do zero."

"Foi num show da Elis Regina no Canecão. Ninguém entendeu por que eu chorei quando ela cantou ‘As curvas da estrada de Santos’. Para mim, era a volta por cima. Hoje está todo mundo integrado, as pessoas gravam umas com as outras, é uma bacanal de ritmos, ninguém cobrando raízes. Música é universal e não tem de estabelecer fronteiras. Se há duas pessoas que eu não me canso de ouvir, e não vou me cansar nunca, são Elvis Presley e João Gilberto."

Fonte: Folha de S.Paulo