quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Um homem não é infeliz porque tem ambição, mas sim porque é devorado por elas. (Montesquieu)

LUGARES

LIUBLIANA - ESLOVÊNIA
Liubliana é a capital e a maior cidade da Eslovénia. É conhecida pela sua população académica e pelos espaços verdes, incluindo o extenso Parque Tivoli. O rio Ljubljanica, em forma de curva e ladeado de cafés exteriores, divide a cidade velha do centro comercial. Liubliana tem vários museus, incluindo o Museu Nacional da Eslovénia, que possui exposições históricas, e o Museu de Arte Moderna, que alberga pinturas e esculturas eslovenas do século XX. ― Google

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


Número: 014
Data: 31/01/2018
Título: DELETAR, PROTOCOLAR E OUTROS VERBOS

Jocélia Borges, de São Paulo, quer saber qual o correto e qual a diferença entre protocolar e protocolizar. E Sandra Regina Martins, de Florianópolis, pergunta sobre “alguns verbos de cunho técnico e que não constam no dicionário, tipo disponibilizar, itemizar, customizar e outros do gênero. Às vezes preciso utilizar algum desses verbos e não sei se devo”.

Digamos que você pode, Sandra. “Tudo o que se vê tem um nome” (PVOLP, 1999, p. XXII) e tudo o que se faz também é denominado. Se o ser humano cria objetos, inventa instrumentos e descobre novos afazeres, precisa dar-lhes nomes, que vão sendo incorporados à língua.

A questão é que normalmente na área técnica e científica eles têm vindo do inglês, e aí deveriam pelo menos sofrer uma nacionalização na ortografia. Por que escrever "ticket" ou "copydesk" se podemos escrever tíquete e copidesque? Ou "linkar" no lugar de lincar? Na verdade, por que lincar se temos ligar? Por que deletar e não apagar?

A resposta pode ser dada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Arnaldo Niskier: “O certo é que a língua portuguesa cresceu, até mesmo em virtude da introjeção de termos ligados ao desenvolvimento científico e tecnológico e de muitos estrangeirismos.(...) Não há como conter esse crescimento, mesmo que, por vezes, seja ele fruto de (...) um lamentável ‘linguicídio’, palavra que, aliás, consta do nosso Vocabulário”. Refere-se ele ao Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP), organizado pela ABL, cuja edição de 1999 registra a grafia correta e a classe gramatical de 350 mil verbetes. Nele já constam vocábulos como lincar e deletar.

Outro fator que responderia a essa fácil adesão ao estrangeirismo – mesmo nacionalizado – é “a lei do menor esforço”. Consta que o escritor português José Saramago, numa visita ao Brasil, indignou-se ao escutar no saguão do hotel: “Vamos checar”. O Nobel de Literatura não se conteve: “Ora, pois, não se pode mais verificar, averiguar”? O caso é que checar (aportuguesamento do inglês to check) é muito mais fácil de dizer e escrever do que seus sinônimos em português.

Enfim, a língua é mais dinâmica do que os dicionários. Na sua 1ª edição, por exemplo, o Aurélio não consignava o verbo alocar, termo cuja autenticidade hoje ninguém discute. O Aurélio Século XXI ainda não trazia os verbos mencionados pela leitora Sandra, mas os dicionários lançados em 2009 já incorporaram customizar e disponibilizar. De qualquer forma, verbos como agilizar, oportunizar, otimizar, customizar, acessar, deletar, itemizar estão legitimados... pelo uso.

PROTOCOLAR E PROTOCOLIZAR

Ambas as formas – dicionarizadas – têm o sentido de “registrar no protocolo”. Protocolar é uma simplificação brasileira do verbo original protocolizar, formado pelo adjetivo protocolar + o sufixo izar, que indica ação. Para fugir de possível confusão entre o adjetivo protocolar (“FHC teve com ACM uma conversa curta e protocolar”, por exemplo) e o verbo protocolar, um amigo meu sai pela tangente ao empregar "protocolizar" quando usa o infinitivo, utilizando a forma mais rápida e simples nos outros casos:

Favor protocolizar todos os ofícios, solicitou ela.

Afirmou o juiz que o recurso foi protocolado fora do prazo.

O partido protocolou no Senado denúncia de que o deputado estaria envolvido em muitas irregularidades.

Instituto Euclides da Cunha
Luiz Fernando de Queiroz, diretor
Rua Marechal Deodoro, 235 cj. 1204
CEP 80020-907 - Curitiba - PR
Fone (41) 3223.6543

Fonte: https://www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

DE PERNAS PARA O AR

Antonio Prata

Usar bermuda é uma atitude 'decolonial'

Eu não canso de me surpreender com o fato de as pessoas se surpreenderem com o fato de eu usar bermuda. No Brasil. Numa cidade onde a temperatura bate os 36 graus —no inverno. Acham que é uma atitude infantil ou traço de uma adolescência tardia. Maturidade, aos olhos (ou às pernas?) dos meus críticos, é passar a vida suando o rego.

De uns tempos pra cá, venho dando às questões térmicas um viés político. Afirmo que usar bermuda é uma atitude "decolonial". Onde vocês veem os meus joelhos, vejo Simón Bolívar e San Martín. Minhas canelas são Zapata e Tupac Amaru. As panturrilhas atendem por Gandhi e Frantz Fanon. Ao vestir a bermuda, dispo-me da opressão europeia.

Sabiam que, em São Paulo, um taxista que não estiver de calça social leva multa? Segundo a "PORTARIA 7/2016 - SMT/DTP, DE 20 DE JANEIRO DE 2016", o traje requerido para o motorista é calça social, camisa social ou terno. Para "os taxistas da categoria de táxi Luxo", a regra é "terno ou smoking". Sim. Smoking, Jesus amado...

Os brasileiros da cidade acham que caipira é o Jeca Tatu —enquanto pagam o maior pau para o caipira dos Estados Unidos, mais conhecido como caubói. Os americanos, muito orgulhosos de sua nação, escalaram John Wayne para representar seu homem do campo. Nós, envergonhados de tudo o que é nativo, escolhemos o Mazzaropi. Aqui em São Paulo rimos do Mazzaropi e então nos sentindo muito cosmopolitas na sala de um edifício chamado Palm Beach ou Piazza Navona ou Versailles, fazemos um "call" para "endereçar" alguns assuntos, de modo que "no fim do dia", "eventualmente", todos estejam "na mesma página". Jeca total.

Lutar pelo Brasil não é, meu caro patrício, cantar "Teus risonhos, lindos campos têm mais flores" ou sair por aí vestindo a bandeira feito a capa do Super-Homem. Esses são os símbolos dos caipiras metropolitanos que mandam os taxistas vestirem calça social e que, se pudessem, fugiam pra Miami —sintomas do complexo de vira-latas. Para nos curarmos desta doença, temos que parar de querer ser huskies siberianos e valorizar a mistura.

Nada representa melhor a mistura brasileira do que o samba. Poucos bares de São Paulo representam melhor o samba do que o Ó do Borogodó. Nos últimos 20 anos, passaram por lá Beth Carvalho, Paulo Moura, Wilson Moreira, Yamandu Costa e Élton Medeiros; Fabiana Cozza e Kiko Dinucci são crias da casa; visitando o Brasil, a americana Esperanza Spalding e a portuguesa Maria de Medeiros (nada a ver com o Élton, até onde eu sei) deram canjas por lá. Mas não são os nomões que fazem do Ó um lugar importante para a cidade, são os mais de 70 músicos de primeira que tocam ali toda semana e seu público, responsáveis por manter viva a rica cultura sambista paulistana.

Pois bem: o dono do imóvel decidiu vendê-lo. Provavelmente, vão colocar o sobrado abaixo e construir mais um prédio chamado Palm Beach ou Piazza Navona ou Versailles. Stefânia Gola, dona do bar, está tentando fazer com que a prefeitura reconheça o Ó do Borogodó como uma Zepec-APC (Zona especial de preservação cultural —área de proteção cultural). Trata-se de uma espécie de tombamento que leva em conta não necessariamente o valor histórico ou arquitetônico de um lugar, mas sua importância na cultura e na vida da cidade. Se um dos principais celeiros do samba nos últimos 20 anos não for apto para tanto, o que será? As estátuas da liberdade do véio da Havan?

Neste domingo, das 11h às 17h, vai rolar na rua Horácio Lane, em frente ao bar, o festival #FicaÓ. Uma roda com dezenas de sambistas, a tarde toda, para tentar mostrar à prefeitura que é assim que se faz uma cidade viva, acolhedora e decente —não cobrindo as pernas dos taxistas.

Fonte: Folha de S.Paulo

terça-feira, 3 de outubro de 2023

As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo. (Benjamin Franklin)

LUGARES

MUNIQUE - ALEMANHA
Conhecida popularmente como Stachus, a Karlsplatz é uma grande praça localizada no centro de Munique que foi construída no século XVIII depois do derrubamento da muralha medieval, da qual ainda se conserva a reformada porta Karlstor.

A PROVA DO SONHO

Ruy Castro

O homem pisou na Lua em 20 de julho de 1969; Tom Jobim chegou lá dois anos e meio antes

Um LP cai-me às mãos num leilão: "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim". É, claro, o disco de 1967, em que Frank Sinatra canta Tom Jobim, acompanhado pelo próprio. Não é um vinil difícil. A versão nacional abunda nos sebos. Mas este é o disco americano, importado, e, melhor ainda, por ser mais raro, em mono. Incrível como, até nos EUA em 1967, mesmo os discos de Sinatra vinham em versões mono e estéreo —o estéreo ainda não era universal. Mas o que o torna especial é o que vem escrito a tinta na contracapa.

"Aos meus amigos Carmelia e Jimmy, para constatarem a realização de parte dos nossos sonhos, que faziam parte [sic] das nossas reuniões no Clube da Chave, onde todas as noites vocês, eu, João Gilberto, Dolores Duran, Jonny [sic] Alf, Nanai, Vinicius e Donato éramos constantes, lembram-se? Do seu Tom Jobim."

Carmelia e Jimmy eram os cantores Carmelia Alves e seu marido Jimmy Lester, nome artístico de José Andrade Ramos. O Clube da Chave era uma boate em Copacabana, exclusiva de 50 grã-finos, boêmios, jornalistas e seus convidados. Durou dois anos: 1953-54. Tom, o desconhecido João Gilberto, Dolores, Johnny Alf, o violonista Nanai e o acordeonista João Donato eram alguns dos músicos que se revezavam. O poeta e diplomata Vinicius de Moraes ainda não cantava, só aplaudia. E gravar com Sinatra ou ser gravado por ele era um sonho tão inacessível quanto ir à Lua —talvez mais.

Mas, em fins de 1966, seduzido pelas canções que Tom já despejara no mercado americano, Sinatra convidou Tom a fazerem um LP para a Reprise, sua gravadora. Em três sessões, nas noites de 30 e 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 1967, de 20h às 23h30, no estúdio Western Recorders, em Hollywood, gravaram-se as dez imortais faixas. Aquele LP era o sonho realizado.

O homem só pisaria na Lua no dia 20 de julho de 1969. Tom chegara a ela dois anos e meio antes.

Fonte: Folha de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

COMO A LOUCURA MUDOU A HISTÓRIA


Livro mostra efeitos de transtornos e doenças mentais sobre governantes

Idi Amin Dada foi um dos mais brutais ditadores da África, continente pródigo em ditaduras brutais. Governou Uganda nos anos 70, quando mandou torturar e matar uns 300 mil. Tomou várias decisões com base em caprichos que depois prejudicaram seu governo. Gostava de atribuir a si mesmo títulos grandiosos como "senhor de todos os animais da terra e peixes dos mares". Idi Amin era louco? E Hitler? Stálin? Putin? Trump?

As imbricações entre loucura e poder são uma constante na história da humanidade. Estudo de 2006 mostra que quase a metade dos presidentes americanos experimentaram problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e abuso de substâncias. E não necessariamente para o mal. Abraham Lincoln, tido como um dos melhores se não o melhor líder do país, lidava com uma depressão importante.

O psicólogo Christopher Ferguson conta essas e muitas outras anedotas em "Como a Loucura Mudou a História". Eu sabia que o imperador Heliogábalo era estranho, mas não tão estranho. O livro, contudo, é bem mais do que um compêndio de fofocas históricas. Ferguson discute a própria noção de saúde mental.

Embora utilizemos o termo "loucura" com liberalidade na linguagem do dia a dia, é preciso distinguir as doenças mentais, que fazem com que um indivíduo altere seus comportamentos, dos transtornos de personalidade, que são características que definem a própria identidade da pessoa. Embora ambos possam afetar os poderosos, são os segundos que marcam os tiranos mais destrutivos. O destaque aqui é a tríade sombria, a combinação de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo, que aparece em Hitler e Mao. Acrescente uma boa dose de paranoia à tríade e você obtém um Stálin.

Já afastando-se das lideranças políticas, Ferguson pincela algumas das loucuras da própria sociedade, incluindo religião, pânicos morais, lacrações e cancelamentos, além, é claro, de votar em certos tipos de malucos.

Fonte: Folha de S.Paulo

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Ser presidente é como administrar um cemitério. Há um monte de gente embaixo de você, mas ninguém escuta. (Bill Clinton)

LUGARES

DUBROVNIK - CROÁCIA

Dubrovnik é uma cidade no sul da Croácia na costa do Mar Adriático. É conhecida por sua Cidade Antiga, cercada por enormes muros de pedra erguidos no século 16. Seus prédios bem conservados abrangem desde a igreja barroca St. Blaise até o Palácio Sponza, da Renascença, e o gótico Palácio de Rector, agora um museu de história. Pavimentado com pedra calcária, o Stradun (ou Placa) é um passeio público repleto de lojas e restaurantes. ― Google


ROMANCE FORENSE

O drama do advogado honesto

Um dia desses, o sempre ativo Sérgio Souza Araújo, ex-escrivão (aposentado) da 7ª Vara Cível de Porto Alegre, navegava na Internet e digitou no Google a expressão “a honestidade dos advogados”.

Clic! Vejam para onde foi direcionado: ao Youtube, aparecendo a indicação “Advogado Honesto, música de Tião Carreiro e Pardinho”. Mais um clic e foi possível escutar o som (não há imagens) de uma composição produzida em 1980, pelos dois artistas.

Araújo compartilhou a informação com o editor do Espaço Vital e a redação conseguiu recuperar a história dos dois músicos-compositores.

Em 1954, Tião Carreiro conheceu Pardinho no Circo Rapa Rapa, em Pirajuí (SP), quando Tião ainda tinha o pseudônimo de Zé Mineiro. Lá, eles cantaram juntos pela primeira vez. Em 1956, resolveram tentar a sorte em São Paulo, onde conheceram o então prestigiado compositor sertanejo Teddy Vieira que, ouvindo a dupla, rebatizou José Dias Nunes: ele passou a ser Tião Carreiro. Em novembro de 1956, eles gravaram o primeiro disco juntos.

A dupla Tião Carreiro e Pardinho ainda é tida – agora, 62 anos depois, como uma das principais da música sertaneja de raiz e inventores do pagode. Os dois chegaram a gravar 30 LPs, todos remasterizados em CDs, que continuam disponíveis em lojas.

Tião Carreiro faleceu em 1993; Pardinho em 2001. Este, depois da morte do companheiro, ainda seguiu carreira solo em shows e espetáculos circenses.

Deliciem-se com a letra, que revela o drama de um advogado que é procurado para atender uma ocorrência policial e, pouco depois, constata que seu filho é um criminoso – que está morto.

O Advogado Honesto

Um doutor advogado trabalhava
Com cadência.
Em seu trabalho mostrava
Sua grande competência.
Em sua sala de espera por todos
Tinha frequência.

Enquanto todos esperando,
Uma mulher foi entrando
Sem menos pedir licença...

Os filhinhos maltrapilhos,
Consigo ela levava
Cortando a frente dos outros
Ao advogado ela implorava.

E de joelhos no chão
A sua história contava:
Meu esposo pra defender
Matou para não morrer
Um ladrão que lhe assaltava...

O doutor pediu licença
A quem ali lhe esperava
Se foi para o necrotério
Onde o corpo se encontrava
Queria ter a certeza se morto
O rapaz estava.

Seu olhar perdeu o brilho
O ladrão era o seu filho
Que ele tanto estimava.

Voltando à delegacia
Contando toda a verdade
Quero ver o criminoso
Vou por ele em liberdade
Nem todo o dinheiro compra
Esta é a realidade.

Meu filho tinha de tudo
Dinheiro, carro e estudo
Mas não tinha honestidade.

Olhando pra este homem
Me sinto até humilhado
Vou defender seu marido
Um trabalhador honrado
Defender um pai de família
É o meu dever sagrado
Se eu perder essa parada
Na vida não sou mais nada
Por ser bom advogado...

O ex-escrivão Araújo elogia “as pérolas da letra da canção, que se realça pela simplicidade e muito bem reproduz a vida do advogado, batalhador, ético e honrado”.

Araújo ainda sugeriu que a letra poderia ser “publicada como uma homenagem a todos os abnegados profissionais da advocacia”.

O Espaço Vital acolheu.

O som da música

Para escutar “O Advogado Honesto”, clique aqui.

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

EM PARIS FINGINDO-ME PARISIENSE E COMENDO À FRANCESA

Josimar Melo

Fígado, rins, timo e pé de porco celebraram a volta após anos sem Paris

Não ia a Paris desde antes da pandemia. Agora que a oportunidade surgiu, dá pra imaginar a quantidade de museus, pessoas, cafés e novos restaurantes acumulados na agenda para visitar.

Mas não foi possível sair ticando a lista de desejos. Foi uma viagem breve, de cinco noites, e com uma agenda alucinada de gravações para os canais Sabor&Arte e Band, focadas não em restaurantes ou museus, mas em queijos.

Com o agravante de que, com equipamento para carregar, não dava para usar transporte público, tampouco as bicicletas. E com os engarrafamentos, os momentos livres se tornaram ainda mais escassos.

Boa oportunidade, então, para fingir-se de parisiense. E, no tempo disponível, comer no botequim da esquina pratos típicos e cotidianos de quem vive lá e preza a boa mesa.

Houve apenas uma excentricidade: no dia em que cheguei, troquei o jet lag por longas horas em um grande restaurante, o do hotel Plaza Athénée, que estava curioso para visitar desde que, com a saída de Alain Ducasse, o comando passou para um chef mais jovem, pop e midiático, Jean Imbert.

Mas, mesmo ali, no lugar de uma culinária vanguardista, encontrei ecos de uma cozinha de tradição, baseada em clássicos antigos de Paris. Foram pratos como a lagosta à parisiense, sobre leve emulsão; o brioche coberto por caviar; e o ris de veau (timo de vitelo) financière, em massa folhada. Tudo servido com a precisão típica do local, onde pontificam, dos tempos de Ducasse, o elegante diretor de sala Denis Courtiade e o entusiasmado sommelier Laurent Roucayrol.

Onde reencontrei o ris de veau (que os argentinos chamam de molleja) foi no café da vizinhança, meu principal destino gastronômico da breve temporada: o La Petite Périgourdine, colado ao hotel. O nome significa a mocinha do Périgord, região famosa pelo foie gras, terrines e trufas, mas não só.

Foi onde me aboletei em primeiro lugar, direto do avião, cansado, esperando que o quarto do hotel fosse liberado. Abatidos e entediados, fomos sentar na mesinha da calçada; e não demorou para que me aproveitasse da fadiga distraída (e do efeito das primeiras cervejas) para convencer meus colegas de equipe a provar as tentações do cardápio.

Para quem nunca provou, pareciam assustadoras. Primeiro uma andouillete artesanal —com uma fresca saladinha e batatas fritas— intensa, mas domada, realçada pela fritura. Ótima para um prato de 24 euros (em um lugar mais arrumadinho seria o dobro).

Não escondi que era uma linguiça de intestino de porco: ninguém desmaiou. Animado pela paciência dos colegas, pedi então rins de vitelo. Que vieram na panelinha, o molho flambado com conhaque ali mesmo na calçada —uma beleza carnuda e macia, com sabor intenso arredondado pelo molho cremoso. Expliquei que, se a andouillete não cheirava a excremento nem o rim a urina, o lugar já era sério só por isso.

Foi onde também comi um delicado fígado de vitelo, aromático e macio, escoltado pelo aligot (purê de batata e queijo) servido diretamente da panela.

Cansado dos intensos dias de trabalho, enfastiado depois de tanto queijo, uma noite resolvi caminhar pelas redondezas do hotel, na região da Sorbonne. Passando em frente ao sempre lotado Le Comptoir du Relais, recentemente vendido, encontrei amigos e ali me instalei para uma singela taça de vinho.

Nela fiquei —até aparecer o prato que haviam pedido: pé de porco recheado e empanado. Claro que não resisti, e imediatamente tinha diante de mim outro exemplar. Não que estivesse com fome: mas vai saber quando estarei em Paris outra vez?

Fonte: Folha de S.Paulo

domingo, 1 de outubro de 2023

Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor e a maldade e depois dizemos ‘o mundo é mau’. (Fernando Pessoa, poeta português)

LUGARES

COPENHAGUE - DINAMARCA
Copenhague, a capital da Dinamarca, fica localizada nas ilhas costeiras de Zelândia e Amager. Ela se liga a Malmö, na parte sul da Suécia, pela Ponte do Øresund. O centro histórico da cidade, chamado de Indre By, contém Frederiksstaden, uma área rococó do século XVIII que abriga o Palácio de Amalienborg da família real. Perto dali, ficam o Palácio de Christiansborg e o Castelo Rosenborg, da era renascentista, que é cercado por jardins e guarda as joias da coroa. ― Google

VODU DA SEPARAÇÃO

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Como você morava junto, fazia tudo junto, ainda pensa que a outra pessoa está ligada mesmo depois da separação.

Jura que o outro faz o que você faz: se chora o outro também vem chorando, se tem um ataque de pânico o outro também suporta aceleração cardíaca, se segura o celular para esperar uma ligação o outro também aninha o celular com ansiedade, se escuta aquela música que vocês se conheceram o outro também está cantando na mesma hora com a voz embargada. Vive a ilusão da telepatia, a miragem da correspondência emocional, a síndrome da duplicidade do sofrimento.

Não desligou o Wi-Fi da sua alma e mantém o acesso do antigo parceiro às fontes de seus pensamentos.

Tranca-se no quarto, esquece que tem casa e coloca na cabeça o que o seu coração manda. Alimenta a fantasia de que a ruptura dos laços criou uma alma gêmea sofredora. Ele é você - como se estivessem dividindo um único corpo de arrependimento e orgulho ferido.

É o vodu da separação, com a diferença de que você é o boneco. Acaba se maltratando para repercutir agulhadas em seu objeto amado e agora distante.

Não come e acredita que o outro não estará comendo, não dorme e acredita que o outro não estará dormindo, não sai e acredita que o outro amarga idênticas privações, faz paralisação da felicidade e acredita que o outro não aproveita os antigos prazeres.

Todo o ex é um fantasma - o defunto amoroso não tem direito de resposta e permite o surgimento de fantasias totalitárias.

A abstinência pode durar duas a três semanas, até que rompe o casulo e
vai espiar o Facebook de quem gostava e descobre que nada disso aconteceu: só fotos de festas, piscina, bares, sorriso, algazarra com os amigos, leveza e descompromisso.

É a maior decepção, enxerga-se enganado, traído, como se não valesse nem o intervalo do luto. A vontade é telefonar e soltar os cachorros feridos: eu agonizando por você e você nem aí para mim.

Não vale a ligação. Não vale mais nada. Penou todo o tempo sozinho, como de repente amou o tempo todo sozinho.

Perceber que não são a mesma pessoa é o caminho para o amadurecimento. Daqui por diante, exponha as desilusões por você, não mais pelos dois, já que morreu a dependência. Não dê desculpas pelos dois, não justifique o fim pelos dois, não invente esperanças pelos dois, não mantenha a porta aberta pelos dois. A separação nunca será solidão a dois. Por isso que é separação: para cada um sofrer do seu jeito ou simplesmente não sofrer.

O amor, antes ditadura de um único sentimento, tornou-se democracia para os demais sentimentos, inclusive da indiferença.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

RELÓGIO DE PULSO

Marcelo Duarte

Relógio de pulso surgiu porque Santos Dumont queria ver as horas sem tirar mão do manche

Você sabia que a invenção do relógio de pulso tem tudo a ver com o inventor do avião, o brasileiro Santos Dumont?

Essa história está muito bem contada na exposição "Santos Dumont - O Poeta Inventor", que está em cartaz em dois andares do Farol Santander, no centro de São Paulo, até o próximo dia 15 de outubro. A homenagem celebra os 150 anos de nascimento do "pai da aviação".

Relógios de pulso andam um tanto ultrapassados, não acha? Quase todos agora consultam as horas na tela do aparelho celular!

Como o mundo dá voltas... Isso é mesmo bastante curioso! No início do século passado, os relógios ficavam nos bolsos, presos a uma corrente.

Santos Dumont não podia tirar as mãos do manche para pegar o relógio. Só que ele queria cronometrar o tempo de voo de seus aviões durante as experiências. O que fazer?

Em 1904, ele comentou isso com um amigo, o joalheiro francês Louis Cartier.Santos Dumont usava abotoaduras e pulseiras da marca francesa, até hoje uma das mais famosas grifes de joias do mundo.

O que Cartier fez para ajudar o brasileiro?

Cartier foi para sua oficina com o pedido do amigo aviador em mente: criar um modelo que ficasse fixo no braço e facilitasse o controle das horas. Algum tempo depois, o joalheiro presenteou o amigo com um relógio plano, de moldura quadrada, com os números em algarismos romanos na cor preta. Usou também parafusos externos visíveis para prender o vidro do mostrador, dando um ar mais moderno à peça.

Em novembro de 1906, como informa a exposição, Santos Dumont foi a primeira pessoa do mundo a ser filmada num voo de avião —e estava lá com seu relógio Cartier, com pulseira de couro, no pulso.

Cartier fez relógios para mais gente depois disso?

Sim, os homens passaram a se interessar pela novidade e a encomendar relógios de pulso para Cartier. A demanda era tão grande que, em 1911, ele contratou o renomado relojoeiro parisiense Edmond Jaeger para desenvolver um modelo que ganhou o nome de "Santos".

Já me convenceu... Como eu faço para ver essa exposição que você está falando tanto?

O Farol Santander fica na Rua João Brícola, 24, no chamado Centro Histórico de São Paulo, pertíssimo da estação São Bento do metrô. Convide os adultos para ir com você. Os ingressos custam R$ 35 (inteira) e R$ 17,50 reais (meia).

Ah, no hall de entrada, dê uma boa olhada para o alto e veja a réplica em tamanho real do 14 Bis.

Fonte: Folha de S.Paulo