quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor. (Roberto Campos, economista e político brasileiro)

LUGARES

FRAKFURT - ALEMANHA
Frankfurt, cidade localizada à beira do rio Meno na região central da Alemanha, é um grande centro financeiro que abriga o Banco Central Europeu. A cidade é o local de nascimento do famoso escritor Johann Wolfgang von Goethe, cuja antiga residência é hoje o museu Goethe-Haus. Como a maior parte da cidade, a construção foi danificada durante a Segunda Guerra Mundial e, depois, reconstruída. A Altstadt (Cidade Antiga) foi reformada e abriga a praça Römerberg, local onde ocorre um mercado natalino anual. ― Google

MR. MILES

(republicação)

Mr. Miles: um amigo meu ocidental, praticante de aikidô, foi, há alguns anos, treinar com os senseis no Japão. Lá contaram que o fundador da modalidade, Morihei Ueshiba, ficara impressionado com a habilidade de um aluno inglês que, coincidentemente, usava bigodinho e estava sempre de chapéu coco. Ueshiba Sensei, sempre tão comedido como geralmente são os grandes mestres, ficava horas ouvindo as peripécias pelas quais passara esse aluno, agora amigo, em suas andanças pelo mundo… É apenas uma coincidência, mr. Miles?
Kansabulo Sato, por e-mail

"Well, Sato San, eis uma faceta de minha vida que sempre tentei manter em segredo, porque as pessoas comuns confundem o conhecimento de uma arte marcial com agressividade. As you know, o aikidô não é um esporte de competição, mas o caminho para o espírito harmonioso.

Yes, my friend: tive a inenarrável alegria de conhecer Morihei Ueshiba, quase sempre chamado apenas de O-Sensei (Grande Mestre). Durante um período de minha vida - curto, I must say - fui ao Japão para tentar entender a obstinação, a obediência e, why not, a alma guerreira daquele povo. Conheci diversos sábios e um tipo de lógica que nós, ocidentais, desconhecemos. Entre todos, o que mais me encantou foi O-Sensei, o homem que falava por seus silêncios. De alguma forma que nunca compreendi, o simples ato de respirar já emanava a energia de Morihei Ueshiba.

Aprendi muito com ele: as nuances da beleza, o favor da reverência e, mais que tudo, o espírito da ética. Além de, by the way, ter me tornado um modesto aikidoka. Fico muito surpreso que, após todos esses anos, ainda seja lembrado entre os senseis dessa arte. Deve ter sido pelo tipo de roupa que eu usava (e ainda uso), I presume. O Grande Mestre começou a me chamar de Savirô, que é o nome que os japoneses dão aos ternos ocidentais. E eu lhe disse, em meu ainda precário japonês, que savirô era um substantivo derivado de Saville Row, a rua dos alfaiates em Londres.

Morihei Ueshiba achou muita graça naquela explicação e, desde então, pediu-me que contasse mais histórias sobre o mundo. Foi uma imensa honra para um modesto viajante como eu poder passar alguns ensinamentos para o legítimo Grande Mestre.

Para dizer a verdade, Sato San, ainda hoje pratico, esporadicamente, o aikidô em alguns templos e escolas ao redor do mundo. Exercito, assim, a energia que tenho e que me conduz a viajar - o que, as you know, é a minha perspectiva de harmonia. E sinto falta do Grande Mestre. Aprendi, também, que, em qualquer circunstância, o bem-estar do oponente tem de ser preservado. As I see, mais do que uma arte marcial, essa última definição transforma o aikidô em poesia.

Estive em Tanabe, na província de Yakayama, para acompanhar a partida do Grande Mestre no final dos anos 60. E ainda hoje sinto-me como um padrinho do bom Moriteru Ueshiba, seu segundo sucessor e meu companheiro em deliciosos jantares no Japão. Foi Moriteru, by the way, que cometeu a heresia de me informar que o melhor blended whisky do mundo era japonês (e não, my God, o nosso, feito na Escócia!). Pois quando eu provei o Hibiki 21 anos fiquei astonished. O mesmo ocorreu com minha mascote Trashie. E vejam só: os mestres japoneses acabaram ganhando, com essa marca, todos os prêmios mais importantes na categoria blended whisky. Felizmente, my friend, ainda temos o melhor single malt, que é o Galileo, produzido pela Ardbeg Distillery, na Ilha de Islay, no Reino Unido.

Fonte: O Estado de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

NUNES, MENDONÇA E ZANIN

José Horta Manzano
Vale a pena anotar como se comporta profissionalmente cada um dos três ministros do STF entronizados mais recentemente. Refiro-me a Nunes e Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e a Zanin, nomeado por Lula.

Logo ao emitir seus primeiros votos, Zanin deixou a plateia de queixo caído. Seu posicionamento em matéria de entorpecentes, de homofobia e de furto famélico foi ducha fria para os ardores progressistas da militância lulopetista. Quem esperava dele um comportamento de ‘pasionaria’ deu com os burros n’água.

Já os indicados por Bolsonaro, que oficiam há mais tempo no STF, jamais surpreenderam ninguém. Desde o primeiro voto, posicionaram-se rigorosamente na linha de interesse daquele que os nomeou. Como cães de guarda, servem aos interesses do bolsonarismo.

Os votos de Mendonça e Nunes costumar divergir do voto dos colegas. Os dois não parecem se importar em se posicionar às vezes contra o bom senso. A obediência cega a um chefe destituído surge como objetivo obstinado, atitude que, no distinto público, levanta certa inquietação.

Cabe a curiosidade de saber por que razão, apesar de estarmos na era pós-bolsonárica, Mendonça e Nunes persistem na reverência ao antigo “chefe”. Será por convicção ou por outro motivo?

E Zanin, por que razão ousa se posicionar no campo oposto ao do cliente (Lula), que ele defendeu por tantos anos? Será por convicção ou por outro motivo?

Quanto a Zanin, me parece que ele aposentou a vida de advogado. Ela entrou no passado e a página está virada. Agora, abrigado sob o manto de magistrado, seus votos são ditados pela consciência, sem conexão sistemática com o ideário de antigos clientes. Daí a disparidade de vistas entre o velho lulismo e o nascente “zanismo”.

Quanto a Mendonça e Nunes, seus votos mostram persistente apego ao antigo chefe. É compreensível que, no geral, apoiem causas conservadoras, mas o julgamento dos atos do 8 de Janeiro é outra coisa. O que está em jogo estes dias não tem a ver com pautas de costumes, como homofobia, racismo ou aborto. Está-se avaliando a que ponto a depredação dos palácios do governo revelou-se parte de um amplo projeto de golpe de Estado – fracassado.

É perturbante a insistência com que Mendonça e Nunes tentam desconstruir a tese aceita por todos os outros ministros. Fica evidente que a tentativa de minimizar os acontecimentos e apresentá-los como um passeio dominical é uma estratégia para beneficiar o chefe que, mais dia menos dia, estará no banco dos réus pelo mesmo motivo.

Em resumo, a atitude dos que foram nomeados pelo capitão é a de quem deve favor a alguém mais importante. Agem como agiriam integrantes de uma estrutura mafiosa, baseada em fidelidade canina e submissão absoluta, regime no qual o menor sinal de infidelidade pode ser punido com rigor.

Ainda bem que são só dois.

Fonte: https://brasildelonge.com/

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Pequenas ações que realizamos são melhores do que as grandes que planejamos. (Confúcio)

LUGARES

SIRACUSA - ITÁLIA
Siracusa é uma cidade na costa jónica da Sicília, em Itália. É conhecida pelas ruínas antigas. O Parque arqueológico central de Neapolis inclui o Anfiteatro Romano, o Teatro Greco e o Orecchio di Dionisio, uma gruta de calcário com a forma de uma orelha humana. O Museo Archeologico Regionale Paolo Orsi exibe artefactos de terracota, retratos romanos e cenas do antigo testamento esculpidas em mármore branco. ― Google

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 
Número: 012
Data: 17/01/2018
Título: À MEDIDA QUE OU NA MEDIDA EM QUE + TORNAR PÚBLICO


São duas locuções diferentes, embora semelhantes na aparência. Cuidemos para não fazer um cruzamento entre elas, como neste caso: "*À medida em que recuavam, o exército russo e a população civil iam queimando plantações e destruindo fábricas".

I - A locução conjuntiva à medida que está classificada entre as conjunções subordinativas proporcionais; portanto, tem o mesmo significado de à proporção que:

À medida que os relógios de precisão se sofisticaram, a velocidade se tornou vital.

No caso do Mal de Alzheimer, que é a principal doença da memória, os neurônios são destruídos à medida que a enfermidade avança.

“À medida que o regime foi se consolidando, só o caminho que Jango preconizava, de resistência política, é que podia mesmo prevalecer”, Brizola reconheceu.

À medida que eram desocupados, galpões impregnados de fuligem passaram a ganhar cores e aromas.

II - A segunda locução não se encontra nos livros de gramática tradicionais, mas está legitimada pelo uso. Não é "invenção de brasileiro". Em francês, por ex., se diz "dans la mesure où". Em italiano: "I diritti umani hanno in potenza una dimensione culturale, nella misura in cui un diritto culturale è un diritto all'identificazione". Na medida em que se encaixa nas conjunções causais, tendo o sentido aproximado de “pelo fato (razão, motivo) de que, uma vez que, já que, porquanto”:

O Estado, na medida em que se responsabiliza apenas pelo financiamento do Ensino Fundamental, estaria se abstendo de cumprir seu papel de promotor do bem comum.

O currículo escolar daria então sua contribuição na medida em que abrisse discussões ideológicas e metodológicas.

Essa concepção de linguagem está associada à teoria da comunicação e é falha na medida em que reserva ao emissor um papel ativo e ao receptor um papel passivo.

A requisição distingue-se da desapropriação na medida em que somente a União pode requisitar a desapropriação, entre vários outros fatores.

TORNAR PÚBLICAS AS MANOBRAS E TORNAR PÚBLICO QUE...

*Ela voluntariamente "tornou público" as manobras do governo. Atendendo às regras da concordância nominal – o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere –, corrija-se essa frase para:

Ela voluntariamente tornou públicas as manobras do governo.

Acredito que o redator da frase inicial foi induzido ao erro pelo fato de ser mais usual a expressão “tornar público” (no masculino), que é assim usada com o conectivo “que”:

A empresa Santec torna público que estão abertas as inscrições.

O governo do Estado torna público que no dia 17 dará início ao processo.

Não havendo o conectivo, mas sim um substantivo, é preciso fazer a devida concordância:

[masc. singular] ...torna público o balanço da empresa.
[masculino plural] ...torna públicos os resultados obtidos.
[femin. singular] ...torna pública a realização de processo licitatório.
[feminino plural] ...torna públicas as datas de abertura dos envelopes.

Instituto Euclides da Cunha
Luiz Fernando de Queiroz, diretor
Rua Marechal Deodoro, 235 cj. 1204
CEP 80020-907 - Curitiba - PR
Fone (41) 3223.6543

Fonte: https://www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS


O PREÇO DAS EMOÇÕES: COMO OS SENTIMENTOS AFETAM SUAS COMPRAS


Compras não planejadas podem gerar dívidas e estresse

Comprar por impulso é um hábito que pode comprometer a saúde financeira e emocional de muitas pessoas. Muitas vezes, as compras por impulso são motivadas por sentimentos negativos, como ansiedade, tristeza, raiva ou tédio, que são aliviados temporariamente pela sensação de prazer e recompensa que a compra proporciona. No entanto, esse alívio é passageiro e logo dá lugar a um sentimento de culpa, frustração e arrependimento, que pode levar a mais compras por impulso, criando um ciclo vicioso.

Além disso, por não serem planejadas, essas compras podem gerar dívidas, que se acumulam com juros e multas, dificultando o equilíbrio financeiro e aumentando o estresse. Em julho de 2023, o juro do rotativo do cartão de crédito subiu para 445,7% ao ano, o que significa que uma dívida de R$ 1.000,00 nessa modalidade se transformaria em R$ 5.457,00 em um ano. Como evitar essa armadilha?

Para evitar esse tipo de situação, deve-se reconhecer o papel das emoções nas escolhas econômicas. Isso significa que elas influenciam as coisas que as pessoas querem comprar ou vender e também o quanto elas acham que essas coisas valem em dinheiro. Essa influência se dá ainda que a emoção específica seja causada por alguma ação anterior sem relação com a decisão naquele momento.

Para testar como o nojo e a tristeza afetam os preços que as pessoas pedem ou aceitam por um objeto, Jennifer Lerner e outros pesquisadores conduziram experimentos com estudantes universitários. Em ambos os testes, eles induziram o nojo ou a tristeza nos participantes, mostrando-lhes cenas de filmes que provocavam essas emoções ou fazendo-os beber uma bebida desagradável ou escrever sobre uma experiência triste. Em seguida, eles pediram aos participantes que indicassem o preço mínimo que aceitariam para vender ou comprar um produto.

Os participantes que sentiam nojo pediam preços mais baixos do que os participantes que sentiam tristeza ou neutralidade. Já os participantes que sentiam tristeza pediam preços mais baixos para vender, mas aceitavam pagar preços mais altos para comprar que os participantes que sentiam nojo ou não tinham emoções induzidas.

Em ambos os casos, a decisão econômica pode ser percebida como uma forma de alterar ou aliviar o sentimento do momento, ainda que gere consequências e emoções negativas no futuro. Ou seja, se alguém se sente triste e acredita que comprar uma roupa nova ou comer fora pode melhorar seu humor, pode acabar tomando uma decisão e se arrependendo depois pelo gasto desnecessário ou impulsivo. Em várias situações a tentativa de regular o próprio estado emocional é o principal mecanismo para a falta de controle de impulsos.

Sabendo disso, há estratégias possíveis para que a tentativa de mudar o incômodo não gere mais dor de cabeça depois. Um passo fundamental consiste em reconhecer e compreender as emoções que se manifestam. Por exemplo, quando sentimentos como ansiedade ou tristeza surgem, é válido se questionar se a compra desejada é uma real necessidade ou apenas uma tentativa de aliviar o desconforto momentâneo.

Outra estratégia útil é postergar qualquer decisão de compra até alcançar um estado emocional mais calmo ou positivo. Em vez de adquirir imediatamente algo que chame a atenção, pode-se criar uma regra de aguardar um dia ou mais para verificar se o interesse ou necessidade pelo produto ainda se mantêm.

É importante buscar alternativas para regular as emoções sem envolver gastos financeiros. Alguns exemplos possíveis são ouvir as músicas favoritas, fazer uma caminhada ou esporte, meditação ou conversar com os amigos.

Ignorar nossas emoções ao tomar decisões econômicas pode resultar em armadilhas financeiras e desgaste emocional. As compras impulsivas muitas vezes são feitas pela vontade de mudar sentimentos negativos, buscando alívio momentâneo. Entretanto, muitas vezes, ao tentar evitá-los, após essa satisfação momentânea, eles podem retornar na forma de culpa e arrependimento. Reconhecer nossos sentimentos e usá-los de forma consciente, em vez de reprimi-los, é essencial para fazer escolhas mais equilibradas.

Fonte: Folha de S.Paulo

terça-feira, 19 de setembro de 2023

 

Não há saber maior ou saber menor. Há saberes diferentes. (Paulo Freire)

LUGARES

ROMA - ITÁLIA
Coliseu, também conhecido como Anfiteatro Flaviano, é um anfiteatro oval localizado no centro da cidade de Roma, capital da Itália. Construído com tijolos revestidos de argamassa e areia, e originalmente cobertos com travertino é o maior anfiteatro já construído e está situado a leste do Fórum Romano. Wikipédia

A VOLTA DO DISCO IMPOSSÍVEL

Ruy Castro

Colecionador arremata por R$ 535,50 um exemplar de 'Santos Dumont', perdido há 120 anos

Em 1901, Alberto Santos-Dumont contornou a torre Eiffel num dirigível com motor a gasolina, decolando e pousando no mesmo lugar, à vista de atônitos especialistas, jornalistas e do povo de Paris. Nunca tinha sido feito. Dois anos depois, no dia 7 de setembro de 1903, Santos-Dumont desembarcou do navio no porto no Rio e, embora ainda estivesse a três anos de voar no 14-Bis, já tinha aura de herói. Uma multidão foi recebê-lo. Alpinistas estenderam uma faixa no Pão de Açúcar para saudá-lo. E o querido palhaço e compositor Eduardo das Neves homenageou-o com a marcha "Santos Dumont".

Em 1903, aurora da música gravada, pouquíssimas pessoas tinham vitrola. A aceitação popular de uma música dependia das partituras para piano, com suas tiragens de milhares. Mesmo assim, o disco "Santos Dumont", gravado em 78 rpm pela Casa Edison, do Rio, e fabricado na Alemanha para o selo Zon-O-Phone, em 1902, cantado pelo famoso Bahiano, foi um sucesso. Devem ter sido prensadas 250 cópias, que eram a média na época. E que fim levaram esses discos? Foram escutados, amados e desapareceram.

Qualquer disco de 78 rpm, não importa de quando, tem baixa expectativa de vida. Está sujeito a arranhões, mofo, desgaste por agulhas rombudas, empenar, trincar e, claro, quebrar. Seu habitat, se sobrevivente, é o abandono em velhos armários, entre fungos, baratas e ratos. O último 78 produzido no Brasil foi em 1964. Imagine um disco de 1903.

Uma versão digitalizada de "Santos Dumont", de origem desconhecida, chegou um dia ao pesquisador cearense Nirez e está hoje nos arquivos do IMS. Mas nem Nirez nem seus colegas nunca viram o disco em si, o impossível objeto de 120 anos. Pois acaba de aparecer um exemplar num leilão aqui no Rio, saído de uma coleção que passou 50 anos fechada. Foi arrematado pelo colecionador Cristiano Grimaldi por R$ 535,50.

Equivale a comprar um chapéu do aviador por esse preço.

Fonte: Folha de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

MENTIRAS SEM FANTASIA

Paulo Pestana
Um dos primeiros livros que me recordo de ganhar, ainda de calças curtas e tropeçando nas sílabas, era uma coletânea de contos de fantasia. Entre seres mitológicos e gênios de garrafa, lembro claramente de um dos personagens dessas fábulas: o barão de Münchausen. E não apenas pelo nome que, ainda mais com trema, eu não conseguia pronunciar.

Era tido como o maior mentiroso do mundo. O que eu não sabia na época é que o barão era um personagem real, aristocrata alemão, que dizia ter vivido as mais absurdas aventuras em situações em que a realidade se escorava em episódios flagrantemente fantasiosos – foi um precursor da tal realidade aumentada, hoje tão comum no mundo virtual.

O que me encantava não era a mentira, mas a engenhosidade do uso do impossível para concluir as narrativas, como na vez em que, preso num banco de areia movediça, afundando inapelavelmente, teve a ideia salvadora: puxou os próprios cabelos e venceu a gravidade. E como estava montado, içou também o cavalo.

O verdadeiro (é sempre uma temeridade usar o adjetivo em relação a ele) barão de Münchausen se chamou Karl Friedrich, viveu de 1720 a 1797, lutou com as tropas russas contra os otomanos, mas revelou-se mesmo um grande contador de histórias. Os casos foram publicados pela primeira vez por Rudolph Erich Raspe, ainda com o barão vivo – nas livrarias brasileiras se acha uma bela edição, com gravuras de Gustave Doré.

O personagem das histórias era sempre o próprio barão. Foi ele quem voou com auxílio de patos, foi arremessado montado numa bala de canhão, subiu até a Lua usando uma corda de apenas dois metros só para buscar a machadinha que ele próprio havia arremessado. As histórias são narradas com a graça do absurdo e transformaram o barão num rei da mentira – ou do exagero.

A disputa não é fácil, principalmente na literatura: desde Penélope que, na Odisséia, tece uma interminável colcha para enrolar seus pretendentes enquanto espera pela volta de Ulisses, ao Pinóquio, bonequinho de pau que ganhou vida para contar lorotas reunidas em livro, por Carlo Collodi, e nos filmes, por Disney.

No cinema, personagens como Eve, de All About Eve (A Malvada), interpretada por Anne Baxter, o protagonista de O Grande Gatsby (Robert Redford) ou Brad Allen (Rock Hudson) em Confidências à Meia-Noite fizeram história. Na TV tivemos Don Draper (Jon Hamm), o publicitário de Mad Man, e Volpone (Nei Latorraca) da novela Um Sonho a Mais.

Na vida real os mentirosos não são menos inventivos. Há o caso de Frank Abagnale, falsário que teve suas aventuras narradas no filme Prenda-me se for capaz e o brasileiro Marcelo Nascimento, golpista que chegou ao cinema em Vips – Histórias reais de um mentiroso.

Mas o barão de Münchausen enfrenta uma concorrência opressiva, desleal, entre os políticos. Conhecidos por lorotas desde que a profissão começou na Grécia antiga, estão se esmerando. No hemisfério norte, na Ásia, no Brasil. A diferença é que não há fantasia nas desculpas esfarrapadas, ameaças vazias, justificativas vãs e acusações à granel. É só um desfile de cinismo, desfaçatez e despudor – de todo lado.

Publicado no Correio Braziliense em 25 de agosto de 2023

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Quem não tem uma causa pela qual morrer não tem motivo para viver! (Martin Luther King Jr.)

LUGARES

FOUGÈRES - FRANÇA
Fougères é uma comuna francesa na região administrativa da Bretanha, no departamento Ille-et-Vilaine. Estende-se por uma área de 10,47 km². Em 2010 a comuna tinha 21 186 habitantes.124 hab/km². Wikipédia

ROMANCE FORENSE

Cabaré versus igreja evangélica

Numa cidade do interior do Ceará, a - chamada - ´professora´ Marcília estava construindo uma extensão de seu cabaré, cujas atividades estivam em constante crescimento após a liberação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas.

Em oposição, uma igreja evangélica local próxima iniciou forte campanha para bloquear a expansão do negócio. Fazia sessões de oração em três turnos, com ampla propagação por alto-falantes.

A ampliação do cabaré progrediu célere, até uma semana antes da inauguração da “nova ala” quando – em meio a uma rara chuvarada - um raio atingiu o prédio, provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte do salão e dos quartos. Sem demora, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar "do grande poder da oração".

Então, a ´professora´ Marcília – pessoa física - ingressou no JEC com uma ação contra a igreja, o pastor e toda a congregação, sob o argumento que eles "foram os responsáveis pelo fim do prédio e negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta.”

Na contestação, os réus veementemente negaram qualquer responsabilidade ou ligação com os fatos, sustentando que “os raios são uma descarga elétrica de grande intensidade que ocorre na atmosfera, entre regiões eletricamente carregadas, podendo acontecer tanto no interior de uma nuvem, como entre nuvens ou entre nuvem e terra e, como tal, tratando-se de reações da natureza, são totalmente incontroláveis”.

O juiz leu a petição inicial e a contestação. E logo na abertura da audiência, comentou: “Eu ainda não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa, para mim, está clara nos autos. Temos aqui uma proprietária de casa de libação que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não podem nada!”

Ouviram-se testemunhas. No final, a ação foi improcedente. A ´professora´ Marcília não conseguiu provar que as rezas tenham sido a causa do maldito raio.

O juiz concluiu que a “a origem da destruição foi uma descarga elétrica, provinda do espaço, surgindo imprevistamente e sem qualquer comando humano, tratando-se de um mero, mas devastador agente da natureza”.

Amém!

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

VÍCIO VIRTUOSO

Hélio Schwartsman

Livro define matemática como a arte de encontrar atalhos

A preguiça é um dos vícios mais virtuosos da humanidade. Ela não apenas nos levou a grandes invenções poupadoras de trabalho, como o arado e o computador, mas também é uma das forças propulsoras da matemática. Marcus du Sautoy (Oxford), em "Thinking Better" (pensando melhor), define a matemática como a arte de encontrar atalhos e confessa que a foi preguiça que o levou a se tornar um matemático.

"Thinking Better" é um daqueles livros de divulgação matemática que se leem como romances. O autor pesca a atenção do leitor desafiando-o a resolver um problema e, enquanto o contextualiza e apresenta a solução, que invariavelmente envolve um atalho, dá aulas de história e matemática. Também dá pistas de como a questão pode ser generalizada para iluminar outros problemas tão ou mais interessantes que o original.

Fã ardoroso de Gauss, Du Sautoy dá um jeito de contrabandeá-lo para todos os capítulos, sem fechar as portas para outros gênios como Newton, Euler, Hilbert.

Os temas tratados vão do trivial de salão ao ambicioso. Ele ensina, por exemplo, que você, leitor, pode obter um aumento salarial de 15% se mudando para uma cidade cuja população seja o dobro da sua. É que, sempre que a população dobra, itens como salários, restaurantes, escolas, padarias não apenas dobram, mas experimentam crescimento de 15%. É claro que a fórmula não vale só para coisas boas. Congestionamentos, crimes e doença também aumentam em 15%.

Du Sautoy não se limita a nos municiar com historietas que fazem sucesso em papos de festa. Ele também arrisca uma explicação de poucas páginas de como o cálculo funciona e por que ele é um dos melhores atalhos já inventados. E descreve de forma quase inteligível a computação quântica, além de mostrar que, sem atalhos, nunca encontraremos solução para problemas hoje intratáveis, que demandam bilhões de anos de contas utilizando os melhores computadores disponíveis.

Fonte: Folha de S.Paulo