sábado, 6 de agosto de 2016

MR. MILES


Vizinhos de poltrona
Nosso incansável viajante está de partida para Gudvangen, na Noruega, onde será padrinho de casamento de Peer e Kaila, ele filho de sua velha amiga Nia, ex-companheira de caminhadas no gelo do Ártico. É, ao que tudo indica, promessa de novas histórias.
A seguir, a correspondência da semana:

Prezado Mr. Miles: viajo muito sozinho e gosto de minha privacidade. Muitas vezes, porém, nos voos intercontinentais, sou “brindado” com a companhia de vizinhos que puxam conversa e contam histórias o tempo inteiro. O que devo fazer para livrar-me dos inconvenientes?
Otávio Arguello, por email


Well, my friend: uma longa viagem de avião é um periodo de estranhas convivências. Exceto nas raras vezes em que a aeronave tem muitos lugares vazios, somos sempre colocados na companhia de alguém com quem, de uma maneira ou de outra, desenvolveremos enorme proximidade física — sobretudo nos assentos cada vez mais estreitos das empresas aéreas. É desejavel e very polite que, ao menos, se cumprimente o vizinho de infortúnio (ergométrico e não outro, porque, afinal, ele também está viajando). Essa simples medida evitará, for instance, que, como dois seres primitivos, ambos fiquem disputando a cotoveladas o exíguo apoio de braços que os separa (ou une?).

O restante do relacionamento é uma questão de convenção. Há os que, como você, preferem uma quase utópica privacidade. Há, as well, os que buscam um contato verbal civilizado — e você ficaria surpreso, fellow, se soubesse quantas boas amizades podem nascer em tais ocasiões. Existem, também, of course, os fanfarrões. Essa espécie, I agree, pode ser mais inconveniente do que uma noite de turbulências. Nesses casos, I’m afraid, só nos resta lamentar a má sorte ou, em caso de apuro comprovado, recorrer à infalível solução do sonífero na bebida alheia, providência que, shame on me!, já tive de tomar certa feita.

Entre passageiros educados, a senha utilizada para abortar uma conversação é aproveitar uma brecha e abrir um livro. Raras vezes não funciona. Utilizo-a com parcimônia e apenas quando estou very tired. Em regra geral, agrada-me trocar idéias com alguém que está compartilhando de meu destino. A prática, however, já me ensinou a distinguir até onde pode ir um relacionamento tão fortuito e improvável como são os que ocorrem em aviões de longo alcance. Os latinos, de forma geral, serão mais loquazes e emocionais. Houve uma ocasião em que minha vizinha venezuelana lamentou-se a tal ponto que, ainda no meio do Atlântico, fui forçado a dissuadi-la de sua idéia de suicidar-se. Fiz com que ela visse que Juanito, afinal, era um cafajeste, matar-se por ele era dar valor demasiado a um pústula, and so on.

As cartas que recebi mais tarde comprovaram que fui convincente.

Europeus serão, often, mais reservados. Mas não lhes deem muita bebida, my God! Já quando viajo ao lado de orientais — sobretudo japoneses —, procuro ser apenas cortês e reverente. Embora os costumes venham mudando, nunca foi de bom tom enchê-los de perguntas. Minha saudosa amiga Pearl (N.da R.: Pearl S. Buck, escritora norte-americana, Prêmio Nobel de Literatura), contou-me que, certa vez, na casa de uma sua amiga perto de Tóquio, observou a presença de uma mulher silenciosa dividindo a sala com ambas. Movida por sua curiosidade de autora, inquiriu sua amiga sobre a mulher. “ É minha irmã. Casou-se há vinte anos e quatro dias depois voltou para casa” “O que aconteceu?” insistiu Pearl. “ Não sei. Jamais julgamos de bom tom perguntar”.


Uma dessas seria a sua vizinha ideal em um avião, não seria dear Otávio?

Fonte: Facebook

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