sábado, 25 de fevereiro de 2017

MR. MILES


Um novo caminho que se abre

Nosso solerte viajante retornou da temporada nas ilhas Canárias e, ao lado de sua mascote ligeiramente mais aloiradada, retomou a correspondência.

Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem para Londres e fiquei um tanto decepcionada. Choveu muito e acabei passeando pouco. Mas minha pergunta é outra: nunca vejo dicas objetivas em seus artigos. Por que isso acontece?
Mayra Gonçalves Brunatti, por email

Well, my dear, temo dizer que essa pergunta é recorrente e, de vez em quando, preciso respondê-la para que os leitores entendam o espírito de minha coluna. Tenho, of course, milhares de dicas para oferecer. E, claro, eu o faço para amigos próximos. O problema — que, however, não é problema nenhum — é que, thank God, tenho milhares de amigos ao redor do mundo. Essa tem sido a minha grande recompensa nessa vida viajora. Eu os conheci em vários lugares, mas sobretudo em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, lugares, enfim, que todo turista frequenta. Assim, sempre que viajo (agora que a fortuna que herdei décadas atrás já foi toda consumida), hospedo-me, como e bebo em seus estabelecimentos. Recomendá-los seria, portanto, antiético, embora, pelo que leio, a questão da ética não significa nada para muitos brasileiros.

Por vários motivos: eles são meus amigos — o que pode comprometer minha isenção —, não tenho a intenção de ofender aqueles que não forem mencionados e, como não vou a muitos outros lugares, eu tampouco seria justo com eles. Besides, my dear, dicas têm ser frescas como peixes tirados no mar no próprio dia. Unfortunately, elas tendem a envelhecer muito rapidamente. Basta uma tempestadade para destruir o mais belo dos jardins; basta um gerente descuidado para obnubilar o mais gentil e amoroso dos serviços; basta um descuido para que o melhor dos restaurantes transforme-se em perigosa arapuca. On the other hand, qualquer lugar desinteressante pode virar a melhor das dicas a partir de uma decisão brilhante ou do aporte de algum capital que faltava.

Eis porque, darling, prefiro manter-me afastado de dicas pontuais, embora jamais deixe de mencionar cidades, vilas, montanhas e praias encantadoras, que assim são porque a natureza e, sometimes, a intervenção humana assim as fizeram.

Espero que você, como outros leitores, compreendam essa minha pequena idiossincrasia. Prefiro, como sempre, ater-me a questões de outra magnitude (Secundárias? Fundamentais? Who knows?) como a do mau tempo em Londres a que você mesmo se refere em sua indagação. Sim: a capital de meu reino é um lugar chuvoso além da média. O encontro do ar frio com correntes maríimas mais quentes produz esse fenômeno. Mas o que seria de Londres sem o seu jeito úmido, seus transeuntes com guardas-chuva ou o cinza de seus infinitos mistérios. Há cidades solares como o Rio ou Miami, que não combinam com dias plúmbeos. Há países onde nunca chove — e é isso que deles se espera.

Nossas ilhas, however, têm essa alternância climática permanente, que lhes empresta o delicioso brilho de surpreender. E porque são assim, estão prontas para oferecer as melhores alternativas em qualquer clima. Durante a chuva, há uma imensidão de museus, galerias, pubs, teatros e castelos a explorar. Quando faz sol, é hora de explorar nossos infinitos parques e jardins. Quando faz frio, é o momento de exibir a elegância de seus sobretudos ingleses e dos bowler hats que sempre tenho comigo. And so on. É a possibilidade de mudar a cada instante que faz de qualquer lugar um destino a ser revisitado muitas vezes. Na primavera, no verão, no outono ou no inverno. Cada estação com seus aromas, sua paleta de cores e os sabores a ela ligados. Cada dia um novo lugar, uma nova experiência, um novo caminho que se abre. Don't you agree?

Fonte: Facebook

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