quinta-feira, 6 de abril de 2017

A UM PASSO DA ETERNIDADE

Ruy Castro

O que mais me fascina na ciência é que ela é indiferente ao noticiário. O mundo pode estar se desintegrando em corrupção, drogas e terrorismo que nada disso lhe compete. Tem seus programas e se dedica a cumpri-los em ritmo próprio. Se busca a resposta a um problema xis, não importa que ela só seja conhecida daqui a 50 anos. Importa a resposta.

Neste momento, a ciência está empenhada em tornar o homem imortal. A ideia é a de que, em breve, todas as mazelas do envelhecimento —câncer, demências, problemas cardiovasculares e degenerações várias –poderão ser evitadas se os estágios iniciais que dão origem a elas forem submetidos a uma "limpeza" pela tecnologia. Com isso, não será surpresa se, no futuro, o homem chegar —não ria— aos mil anos.

A tese, ousada, é do gerontologista britânico Aubrey de Grey, que andou por aqui. As pessoas continuarão morrendo em tiroteios, tempestades elétricas, batidas de carro, brigas de torcidas e até por amor, mas –diz ele–, não por fadiga do material. A questão é: quem quer viver para sempre? E em que condições? Um homem de mil anos terá alguma chance com uma gata de, digamos, 450?

Meu amigo Mariozinho de Oliveira era do famoso Clube dos Cafajestes, grupo de rapazes que assombrou a noite carioca nos anos 40 e 50. Séculos depois, ele e seus amigos, aposentados da farra, animavam um quiosque no calçadão de Copacabana, chamado jocosamente de "A um passo da eternidade" —faziam piada com a morte, que sentiam perto. E ela chegou para cada um. Sobrou Mariozinho. Até que a dita também o levou, ano passado, aos 90 anos.

Seja namorando, ouvindo os grandes do jazz, aprontando os trotes mais absurdos, brigando ou fazendo amigos, ninguém se divertiu mais do que ele. Quem viveu o que Mariozinho viveu não precisa chegar nem aos 100. 

Fonte: Folha de S. Paulo

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