sábado, 13 de maio de 2017

MR. MILES


Os olhos do coração e as certezas precoces
Empolgado pelas estações que entram — a primavera no sul e o outono no norte — nosso viajante envia noticias de Kotor, uma pequena cidade montenegrina encaixada no fundo do único fiorde existente em todo o mar Mediterrâneo. Mr. Miles foi até lá a convite de seu velho amigo Lars Stronbörg, capitão de um navio pequeno que, como os deuses do passado, vive nas águas do Egeu e do Adriático. A seguir, a pergunta da semana:

Caro Mr. Miles: do que o senhor gosta mais? De uma praia idílica? De vestígios do passado? De montanhas? Ou de cidades? Adoraria conhecer suas opiniões sobre o assunto.
Rosa Morretes, por email

Well, my dear: obrigado pelo seu interesse por minhas opiniões. Unfortunately, tenho medo que minha resposta pareça evasiva. A bem da verdade, não estratifico minhas preferências, especialmente porques elas mudam o tempo todo. Se eu lhe disser que gosto mais de praia do que de montanha, será um desrespeito meu aos Andes, aos Alpes, ao Himalaia, aos Pirineus, às Rochosas — e a tantas outras cordilheiras que me levaram a viajar perto das estrelas, ao extremo prazer de ver a luz e da sombra brigando por espaço, ao ar puro, algumas vezes rarefeito, mas sempre fresco e leve, etc. Se eu lhe disser que prefiro as montanhas (pelos motivos que já citei), em que posição vou colocar as areias de Jost van Dike, no Caribe, as praias de Praslin, nas ilhas Seychelles, as ondas de Waikiki, na Havaí ou os tubos de Jeffrey's Bay, na África do Sul. Em que posto de minhas preferências ficam as noites românticas que vivi no Arpoador e as alvoradas inesquecíveis em que acordei em Zanzibar?

Sobre o resto, sempre terei de responder a mesma coisa. A história e suas lembranças proporcionam longas viagens no tempo — das quais jamais vou abrir mão. As cidades — não todas, mas várias — são a expressão de um povo; o modo como as constroem lembra o modo que vivem, há beleza em estilos bem definidos e há encanto, também, nas desarmonias arquitetônicas.

Sinto muito, querida Rosa, mas sou péssimo em fazer escolhas. Nesse sentido tenho a petulância de querer tudo junto — como quem junta no seu prato de comer o salgado e o doce, a carne e o peixe, o arroz e a pasta. In other words, admito que sou um viajante guloso, quero sempre mais e jamais fico enjoado.

Admito, however, que pessoas tenham suas preferências. Há gente que acompanha o sol para estar sempre no verão e há gente que acompanha o frio para estar sempre esquiando.

Nesses anos todos de viagem, quase sempre na companhia de Trashie — minha raposinha querida que já não tem mais sua visão —, pude constatar que há muitas outras formas de ver o mundo. Tenho amigos com olhos de lince, mas que, I'm sorry to say, jogam no lixo essa benção. Quando estão em lugar como o Pelourinho, for instance, só são capazes de enxergar as falhas no reboco ou a irregularidade do piso. Seus olhares são tão objetivos que, in fact, eles não veem. Outras pessoas, com a vista cansada ou embaçada são capazes de olhar para a mesma paisagem e captar a energia do lugar. Não precisam de óculos ou lentes para compreender o que o lugar significa, quem viveu ali, quem ainda vive — e, sobretudo que paz ou que força podem tomar emprestados de uma parede sem reboco e de um piso desnivelado.

Well, darling: acho que comecei a divagar. É da minha natureza. Entretanto, voltando à objetividade, gostaria de lhe responder que, na verdade, sinto-me jovem demais para proferir opiniões definitivas. Talvez isso mude quando a idade chegar. Don't you agree?

Fonte: Facebook

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