quarta-feira, 23 de agosto de 2017

PARA NÃO ESQUECER

Martha Medeiros

Quando completei 10 anos de idade, meus pais resolveram organizar uma festa para comemorar. Naquela época festa de criança tinha bolo feito pela avó, cachorro-quente, refrigerante, parabéns a você e os amiguinhos iam assim mesmo, juro por Deus, mesmo sem bufê contratado, decoração milionária, fogos de artifício e show da Anitta. Era simples e era bom.

Só que eu nasci no mês de agosto, quando o inverno de Porto Alegre resolve ser mais malvado que o habitual. E naquele dia específico, além de fazer uns quatro graus, chovia o suficiente para encher todas as represas do país e evitar qualquer ameaça de racionamento de água até o próximo milênio.

Eu não sofria bullying, mas tampouco era a Miss Sunshine do colégio. Sabia que minhas amigas mais íntimas não deixariam de ir, éramos grudadas, mas eu havia convidado umas 30 pessoas. Se aparecesse apenas meia dúzia daria uma trabalheira para reconstruir minha reputação.

Tudo dando errado. Justo na comemoração dos 10, minha primeira data redonda e de dois dígitos, logo no aniversário que eu mais ansiava, logo quando eu me sentia amadurecida para o que a vida me reservasse a partir dali — já era dramática desde pirralha, como se vê.

Faltava meia hora para às quatro da tarde, o horário marcado, e já não havia como enxergar a calçada, os bueiros transbordavam, eu parecia estar num navio e não num edifício. Olhava desconsolada pela janela do segundo andar e chovia, chovia, chovia. E o frio só piorava. E não tinha show da Anitta.

Foi quando vi um táxi se aproximando lentamente, levantando ondas enquanto estacionava — ou atracava, verbo mais condizente com a situação. Lá de dentro saltou um homem que correu em direção ao prédio com água entrando no sapato, água escorrendo pelo pescoço, água descendo pelas costas, e mesmo sem ele levantar o rosto, eu soube.

Era meu pai.

Não era para ele estar ali. Ele estava viajando a trabalho há dias e já tinha avisado que não voltaria a tempo. Mas voltou. Sorri por dentro. Eu não precisava mais de quórum nenhum.

Logo chegaram uma, duas, três amigas. Não precisava, não precisava.

Passou mais alguns minutos, chegaram a oitava, a décima segunda, a décima quinta. Apareceram 17 no total e mais o meu pai, que tinha me enganado direitinho dizendo que não poderia voltar, mas que voltou. Era o único homem da festa (o.k.,tinha também meu irmão de 8 anos, promovido rapidamente a segundo homem da casa). E mais as 17 amigas do colégio, minha mãe, minha avó, a empregada, duas primas também foram, e eu não lembro de ter me sentido tão amada naquele dia em que não apostei um níquel na minha sorte.

Não teve Anitta, mas teve show surpresa.

Fonte: Facebook

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