sexta-feira, 27 de agosto de 2021

MR. MILES


Outono, tempo de reflexões

Decidindo sobre o lugar aonde pretende passar o os próximos dez dias, Mr. Miles tem passado alguns dias lendo bons jornais e diz-se "chocado com a quantidade de bobagens que assola o Brasil". O provável é que ele não vá muito longe porque pretende estar em mais um aniversário de sua amiga, a rainha Elizabeth, que cumpre anos no dia 21 de abril. A seguir, a carta da semana:

Querido Mr. Miles: acabou-se o que era doce. Fim de verão, praia só no ano que vem. Concorda?
Larissa Gomes, por email

Well, my dear: o outono não é apenas uma temporada que antecede o inverno. É mais uma sensação, um desejo do que um periodo. É quando os dias de sol a pino vão, slowly, ganhando cores mais apagadas. O céu abaixa a ponto de que as nuvens parecem quase pentear nossos cabelos. Nada disso, however, surpreende — e poucos de meus amigos têm criticas a essa fase de muda, mais amável e mais amena. Uma intrigante estação de dúvidas e reflexões. Hora de trocar a pele, assim como as cobras. E, more then that, tempo de viajar.

Estou lhes escrevendo, of course, de minha pequena casa no Condado de Essex. Aqui é a primavera que começa. Em breve estarei vendo petúnias e begônias no meu backyard. Minha raposinha Trashie, oriunda como vocês sabem, da Sibéria, começa a resmungar para os termômetros que sobem. O verdejar dos parques, entretanto, anuncia: é hora de viajar também.

As semelhanças entre o que ocorre em ambas estações é evidente. Meu querido e saudoso amigo, Camus, (N.da R.: Albert Camus, escritor argelino, supostamente assassinado na França aos 46 anos de idade) dizia, com seu brilho habitual: "O outono é uma segunda primavera, em que cada folha vira uma flor". Esse fenômeno é sempre mais evidente nas regiões que distam do Equador, como o Canada ou a Patagônia. Florestas vermelhas, trilhas de cor púrpura, o suave som de andar sobre as folhas com a certeza de que outras virão muito em breve.

Há uma coisa que nunca entendi. A primavera é muito mais festejada do que o outono. Tem reputação melhor, mais likes (como é da moda afirmar) e ótima assessoria de imprensa. Posso tentar atribuir essa anomalia aos milhões de pessoas que enfrentam invernos longos e gélidos no hemisfério norte. Ocorre que livrar-se do calor escaldante, das roupas deselegantes e das chuvas torrenciais, é, também, uma grande conquista.

Se a primavera é um periodo que se abre à luz, o outono é uma ocasião que a ela se fecha. Se a primavera é propicia para quem planta, o outono foi feito para a colheita. É evidente que se antagonizam, mas são muito mais indicadas para conhecer o mundo do que o verão e o inverno. É tempo de um sol oblíquo que nos dedica sombras mais alongadas e cores menos distorcidas. Se você, my dear, já esteve em Roma no outono e na primavera, é certo que terá conhecido cidades distintas uma da outra. E essa é a maravilha da transformação dos dias longos para os dias curtos que, of course, sempre ampliam a beleza do ato de viajar. Não concordo, however, com suas considerações sobre as praias. Se tomar sol é um de seus programas preferidos, basta lembrar que, entre o Trópico de Capricórnio e o de Câncer, as estações são sempre parecidas. Isso serve, by the way, para mais da metade da área de nosso planeta.

Experimente, por exemplo, ir para o Rio de Janeiro em abril. Menos chuvas (as águas de março já fecharam o verão), sol mais ameno, 35 graus ao invés de quarenta, preços menores pela baixa estação. Wonderful! Mas, se o céu nublar com uma leve brisa soprando do sul, olhe para ele como se estivesse olhando para dentro de si.

Fonte: Facebook

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