O pós-64 não inventou todas as proibições, mas teve o cuidado de reforçar as já existentes, como os jogos de azar, especialmente os ditos carteados — que continuaram proibidos com a mesma eficiência de sempre, ou seja, nenhuma. Acrescentou, porém, outras restrições, entre elas a do consumo da famosa “branquinha”, substância reconhecidamente subversiva, capaz de derrubar governos, dentaduras e até a própria dignidade humana.
Foi nesse ambiente de sobriedade forçada que, num sábado à noite, um grupo de amigos resolveu ir a um baile na vizinha Nova Petrópolis. Entre eles estava João Carlos, doravante tratado apenas por JC, talvez por economia de letras, talvez por já prenunciar um certo espírito de agente secreto da resistência etílica.
O problema é que JC padecia de uma dor de dente monumental, dessas que fazem o sujeito reconsiderar pecados passados e promessas futuras. A ciência popular, sempre à frente da oficial, recomendava bochechos com cachaça, seguidos da ingestão do remédio, para não desperdiçar o princípio ativo. Nada para o santo, registre-se; tudo em nome da saúde bucal.
O bolicheiro, homem honesto e temente às autoridades — visíveis e invisíveis —, negava o fornecimento do precioso medicamento. Mas a dor de dente é argumento forte, quase irrefutável, e talvez o próprio bolicheiro tivesse conhecimento empírico dos efeitos terapêuticos da marvada. Cedeu. Uma vez. Depois outra. E mais uma, sempre em nome da medicina caseira.
Com o avançar dos bochechos terapêuticos, o bolicheiro começou a desconfiar. Ou JC tinha o dente mais resistente do Rio Grande, ou a dosagem eficaz ainda não fora atingida. Talvez o homem conhecesse exatamente a medida correta do remédio; talvez apenas temesse a presença de algum dedo-duro, infiltrado entre uma polca e um vanerão.
Negado o novo fornecimento, JC, já com a dor devidamente instalada — segundo ele, agora ainda maior —, indignou-se. Pensou um pouco, como fazem os grandes estrategistas, e lançou a pergunta fatal:
— Conhaque é proibido?
Diante da resposta negativa do bolicheiro, JC resolveu definitivamente seu problema pelo resto da noite. O dente, reza a tradição oral, nunca mais foi assunto. Já a ressaca, essa sim, apareceu no dia seguinte, mas como não constava na lista de proibições, foi devidamente tolerada.
E assim, em tempos de tantas restrições, a criatividade popular mostrou mais uma vez que, quando falta a branquinha, sempre há um conhaque disposto a salvar a pátria — ou pelo menos um dente inflamado.
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