Diferente de outros taxidermistas que buscavam o porte da cabeça ou o brilho dos olhos de vidro, Tibúrcio guardava apenas as orelhas.
"O instinto do cão não mora no focinho, nem no rabo", sentenciava ele, entre um gole de mate e uma mentira deslavada. "O tino da caça, a vibração da ave levantando voo... tudo isso se manifesta é na cartilagem da orelha. É ali que o som vira cheiro."
Com o tempo, ele acumulou um estoque respeitável de orelhas curtidas. Para não deixar tal "energia" desperdiçada, encomendou a um sapateiro de confiança um par de botas de cano alto, forradas inteiramente com o couro dessas orelhas.
Certo outono, o destino lhe pregou uma peça. Seu último e melhor perdigueiro, o "Vendaval", foi picado por uma cruzeira e não resistiu. Tibúrcio, com o pragmatismo de quem já vira muito a morte, colheu as orelhas do amigo e seguiu para o campo sozinho, calçando suas famosas botas.
O campo estava silencioso, mas a mágica aconteceu:
A Comichão: De repente, Tibúrcio sentiu um formigamento nas panturrilhas, um movimento involuntário que subia pelos tornozelos.
As botas pareciam ganhar vida própria, puxando sua perna esquerda para o lado.
O Resultado: Mal ele firmava o pé, de uma moita de capim-annoni, saltava uma perdiz gorda, batendo asas com aquele barulho seco que é música para o caçador.
"É o instinto, vivinho da silva!", exclamava ele no bolicho da vila, batendo com o cano da bota na mesa de madeira. "As orelhas dos falecidos agora farejam por mim. Se eu descuido, a bota direita sai correndo atrás de lebre e me deixa plantado de um pé só!"
O Respeito ao Mito
Os amigos ouviam em silêncio sepulcral. Olhavam para as botas — um tanto quanto macabras, é verdade, com remendos de couro de tons diferentes — e depois para a expressão feroz e convicta de Tibúrcio.
Ninguém ousava rir. Fosse pela provecta idade do velho mecânico, ou pelo receio de que ele, num acesso de fúria, usasse o "instinto" daquelas botas para lhes desferir um coice certeiro, todos assentiam.
— "É coisa de ciência, Tibúrcio", diziam alguns, enquanto desviavam o olhar.
E assim, o velho caçador seguia pelos campos gaúchos, guiado pelos fantasmas de seus cães que, costurados ao couro, ainda buscavam o voo das perdizes sob o sol do meio-dia.
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