Para a criançada qualquer espaço mais ou menos plano servia para improvisar um "campinho" para a prática do futebol. Nem precisava ter goleiras - duas pedras, uma de cada lado, serviam para demarcar os limites da porta por onde a bola deveria passar. Trave superior nem precisava. Decidia-se no olho, o que sempre gerava muitas discussões. Algumas vezes a coisa era resolvida no tapa. O importante era ter o campinho. Todo lugar tinha um. Nós tínhamos diversos desses espaços mas o preferido dos domingos de manhã, por ser um pouco maior que os demais, ficava bem próximo da Vila Sindical. Dez horas da manhã, depois de cumprida a obrigação de ir à missa, lá estávamos nós. Geralmente os dois melhores jogadores ou os que despontassem como líderes, iam formando cada um a sua equipe, escolhendo dentre os atletas presentes, um por vez, um para cada time. O método assegurava, ao menos teoricamente, a equivalência de forças. Depois era só diversão. Pausa. O nosso bairro acabou sendo o destino de muitas famílias de origem alemã que vinham à cidade em busca de trabalho, oriundas, quase todas, do vale do Rio Caí. Num certo domingo de manhã, a convite de outros garotos que já estavam enturmados, se apresentaram para jogar três irmãos, os mais novos moradores do bairro: Milton, Sadi e Remi. A única semelhança entre eles era que só só batiam com o pé esquerdo. O Milton era alto, atacante e goleador e exímio cabeceador. Acumulava responsabilidades por ser o mais velho da família e se voltava mais para o trabalho para ajudar nas despesas de casa. A mãe era viúva e só tinha uma irmã além dos dois manos. Pouco participou das nossas brincadeiras dominicais. O Sadi era meio-campista. Tinha um excelente domínio de bola e era exímio driblador. Depois da sua primeira intervenção, passou a ser muito disputado na formação das equipes. Logo se tornou o batedor oficial de penaltis da equipe pela qual estivesse jogando. Com a idade, conquistou uma cadeira cativa em qualquer escalação do Floriano, que disputava o campeonato varzeano da cidade. Nem mesmo os exercícios do ano de serviço militar alteraram sua massa física, Permaneceu magro o que lhe dava vantagem nos deslocamentos em campo. Já o Remi, que era da minha idade, se destacou mais como defensor. Para mim era o melhor dos três. Pena que nunca levou nada a sério, nem mesmo o futebol. Poderia ter virado profissional. Entretanto, o seu esporte preferido, embora o tapete verde, era outro: o carteado e por aí se perdeu um talento. Mas faço o registro dos canhotos pois com a chegada deles a qualidade dos nossos times pelos campinhos da vida melhorou sensivelmente.
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