Aquele que deseja construir torres altas, deverá permanecer longo tempo nos fundamentos. (Anton Bruckner, compositor austríaco, 1824-1896)
domingo, 4 de dezembro de 2022
LUGARES
GRAMADO - RS
A Igreja do Relógio em Gramado foi inaugurada em 1961. Ela fica no alto de um morro e seu relógio faz parte de um cenário lindo, principalmente quando as hortênsias florescem. Você pode ir até o local para garantir fotos incríveis com ângulos surpreendentes do centro de Gramado.
O CAUSO DAS ESCRITURA
Por Sérgio Jockymann
Pois não sei se já les contei os causo das Escritura Sagrada. Se não les contei, les conto agora. A história essa é meio comprida, mas vale a pena contá por causa dos revertério. De Adão e Eva acho que não é perciso contá os causo, porque todo mundo sabe que os dois foram corrido do Paraíso por tomá banho pelado numa sanga.
Naqueles tempo, esse mundaréu todo era um pasto só sem dono, onde não tinha nem dele nem meu. O primeiro índio a botá cerca de arame foi um tal de Abel. Mas nem chegou a estendê o primeiro fio porque levou um pontaço no peito do irmão dele, um tal de Caim, que tava meio desconforme com a divisão. O Caim, entonces, ameaçado de processo feio, se bandeou pro Uruguay. Deixou o filho dele, um tal de Noé, tomando contada estância.
A estância essa ficava nas barranca de uma corredera e o Noé, uns ano despois, pegou uma enchente muito feia pela frente. Cosa munto séria. Caiu uma barbaridade de água. Caiu tanta água que tinha até índio pescando jundiá em cima de cerro. O Noé entonces botou as criação em cima de uma balsa e se largou nas correnteza, o índio velho. A enchente era tão braba que quando o Noé se deu conta a balsa tava atolada num banhado chamado Dilúlvio.
Foi aí que um tal de Moisés varou aquela água toda com vinte junta de boi e tirou a balsa do atoleiro. Bueno, aí com aquele desporpósito, as família ficaram amiga. A filha mais velha do Noé se casou-se com o filho mais novo do Moisés e os dois foram morá numa estância muito linda, chamada estância da Babilônica. Bueno, tavam as família ali, tomando mate no galpão, quando se chegou um correntino chamado Golias, com mais uns trinta castelhano do lado dele. Abriram a cordeona e quiseram obrigá as prenda a dançá uma milonga.
Foi quando os velho, que eram de muito respeito, se queimaram e deu-se o entrevero. Peleia braba, seu. O correntino Golias, na voz de vamos, já se foi e degolou de um talho só o Noé e o velho Moisés. E já tava largando planchaço em cima do mulherio quando um piazito carretero, de seus dez ano e pico, chamado Davi, largou um bodocaço nomeio da testa do infeliz que não teve nem graça. Foi me acudam e tou morto. Aí a indiada toda se animou e degolaram os castelhano. Dois que tinham desrespeitado as prenda foram degolado com o lado cego do facão. Foi uma sanguera danada. Tanto que até hoje aquele capão se chama capão do MarVermelho.
Mas entonces foi nomeado delegado um tal de major Salomão. Homem de cabelo nas venta, o major Salomão. Nem les conto! Um dia o índio tava sesteando quando duas velha se bateram em cima dum guri de seus seis ano que tava vendendo pastel. O major Salomão, muito chegado ao piazito, passou a mão no facão e de um talho só cortou as velha em dois. Esse é o muito falado causo do Perjuízo de Salomão que contam por aí.
Mas, por essas estimativas, o major Salomão, o que tinha de brabo tinha de mulherengo.
Eta índio bueno, seu. Onde boleava a perna, já deixava filho feito. E como vivia boleando a perna, teve filho que Deus nos livre. E tudo com a cara dele, que era pra não havê discordância. Só que quando Deus nosso Senhor quer, até égua véia nega estribo. Logo a filha das predileção do major Salomão, a tal de Maria Madalena, fugiu da estância e foi sê china de bolicho. Uma vergonhera pra família. Mas ela puxou à mãe, que era uma paraguaia meio gaudéria que nunca tomo jeito na vida. O pobre do major Salomão se matou-se de sentimento, com uma pistola Eclesiaste de dois cano.
Mas, vejam como é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casou-se três ano despois com um tal de coronel Ponciano Pilatos. Foi ele que tirou ela da vida. Eu conheço uns três caso do mesmo feitio e nem um deles deu certo. Como dizia muito bem o finado meu pai, mulher quando toma mate em muita bomba, nunca mais se acostuma com uma só. Mas nesses contraproducente, até que houve uma contrapartida. O coronel Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tiveram doze filho, os tal de aposto, que são muito conhecido pelas caridade que fizeram. Foi até na casa deles que Jesus Cristo churrasqueou com a cunhada de Maria Madalena, que despois foi santa muito afamada. A tal de Santa Ceia.
Pois era uns tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinham perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no potrero, chamada Samaritana. Um rico animal, criado em casa, que só faltava falá. Pois tiveram que se desfazê do pobre. E como as desgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí que estouraram as revolução.
Os maragato, chefiado por um tal de coronel Jordão, acamparam na entrada da Vila. Só não entraram porque tava lá um destacamento comandado pelo tenente Lazo aquele mesmo que por duas vez foi dado por morto. Mas aí um cabo dos provisório, um tal de cabo Judas, se passou-se pros maragato e já se veio uns tal de Romano, que tavam numas várzeas, e ocuparam a Vila.
Nosso Senhor foi preso pra ser degolado por um preto muito forte e muito feio chamado Calvário. Pois vejam como é a vida. Esse mesmo preto Calvário, degolador muito mal afamado, era filho da velha Palestina, que tinha sido cozinheira da Virge Maria. Degolador é como cobra, desde pequeno já nasce ingrato. Mas entonces botaram Nosso Senhor na cadeia, junto com dois abigeatário, um tal de João Batista e o primo dele, Heródio dos Reis. Os dois tinham peleado por causo de uma baiana chamada Salomé e no entrevero balearam dois padre, monsenhor Caifás e o cônego Atanásio.
Mas aí veio uma força da Brigada, comandada pelo coronel Jesus Além, que era meio parente do homem por parte de mãe e com ele veio mais três corpo de provisório e se pegaram com os maragatos. Foi a peleia mais feia que se tem conhecimento. Foi quarenta dia e quarenta noite de bala e bala.
Morreu três santo na luta: São Lucas, São João e São Marco. São Mateus ficou três mês morre não morre, mas teve umas atenuante a favor e salvou-se o índio. Nosso Senhor pegou três balaço, um em cada mão e um que varou os pé de lado a lado. Ainda levou mais um pontaço do mais velho dos Romano, o César Romano, na altura das costela. Ferimento muito feio que Nosso Senhor curou tomando vinagre na sexta-feira da paixão. Mas aí, Nosso Senhor se desiludiu-se dos home, subiu na Cruz, disse adeus pros amigo e se mandou-se de volta pro céu. Mas deixou os dez mandamentos, que são cinco e que se pode muito bem acolherá em dois: não se mata home pelas costa, nem se cobiça mulher dos outros pela frente.
* Este conto foi publicado pela primeira vez na antologia Assim Escrevem os Gaúchos, organizada por Janer Cristaldo, em 1976.
Fonte: cristaldo.blogspot.com.br
sábado, 3 de dezembro de 2022
SEM ABDICAR DA ESPERANÇA

Everardo Maciel*
No Brasil, a reflexão nunca foi razoavelmente prestigiada. Preferimos, sempre, reagir percorrendo o circuito das emoções.
Ocorre que a revolução digital, com a força descomunal das redes sociais, enfraqueceu a mediação reflexiva da informação, acentuando a prevalência, quase absoluta, da emoção sobre a reflexão, em um processo de auto amputação da razão.
Sem juízo de valor, basta ver a capacidade de convencimento dos influenciadores digitais, profissionais ou eventuais, vis-à-vis a mídia tradicional. Seu poder de convencimento é avassalador.
Não é, contudo, um fenômeno local, mas, em menor ou maior intensidade, mundial. Aparentemente é, também, irreversível, o que imporá uma rediscussão da natureza do Estado e dos institutos que o integram.
Como já ocorreu tantas vezes, talvez estejamos vivendo uma transição entre duas realidades históricas, o que remete à conhecida reflexão do pensador italiano Antônio Gramsci: “O velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno surgem os sintomas mórbidos mais variados”.
Um desses sintomas, hoje, são os movimentos oportunistas que buscam, por meio da manipulação da linguagem, viabilizar interesses próprios, nem sempre legítimos, gerando uma peculiar guerra de palavras.
Grandes dicionários costumam eleger a palavra do ano. O Merriam-Webster, que nos dois últimos anos destacou as palavras pandemia e vacina, elegeu, para este ano, “gaslighting”. Segundo ele, essa palavra corresponde ao ato ou prática de enganar grosseiramente alguém especialmente para vantagem própria, de forma mais elaborada que a mentira improvisada, porque decorre de um planejamento com propósitos iníquos. O Brasil é um terreno fértil para esses atos ou práticas, em virtude de nossa acanhada capacidade de reflexão.
Nesse delicado contexto, que se soma ao imprevisível curso das mudanças climáticas, à guerra da Ucrânia e outros focos de tensão bélica, ao desabastecimento alimentar, à inflação em escala internacional e à crise da democracia, teremos a instalação de um novo governo no Brasil, em circunstâncias em que se constatam visíveis e irresolutas instabilidades institucionais.
É previsível que surjam muitos projetos governamentais para enfrentar os problemas atuais e um futuro desafiador. Ainda que possa parecer uma platitude, é recomendável que a ação política seja pautada pelo comedimento de linguagem, desarmamento dos espíritos, planejamento centrado em diagnósticos e em escolha de soluções qualificadas, e negociação sem apelo a meios pouco virtuosos.
*Consultor Tributário, ex-Secretário da Receita Federal (1995-2002)
Fonte: https://www.chumbogordo.com.br
AS RAZÕES DO AMOR

Rubem Alves
Os místicos e apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: “A rosa não tem ‘porquês’. Ela floresce porque floresce.”
Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema “as sem-razões do amor”. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento. “Eu te amo porque te amo…” – sem razões… “Não precisas ser amante, e nem sempre saber sê-lo”.
Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fossem assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.
“Amor é estado de graça e com amor não se paga.” Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que “amor com amor se paga”. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa floresce, eu te amo porque te amo.
“Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários… Amor não se troca… Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo…”
Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena…), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento e se perguntava: “Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.” O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?
Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor – frágil bolha de sabão -, não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkergaard comentava o absurdo de se pedir dos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor – sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar…
Mas – eu já disse – não estou apaixonado. Olho o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário de Drummond, as cem razões do amor…
Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escritas. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: “Que é que eu amo quando amo o meu Deus?” Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: “Que é que eu amo quando te amo?” Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, “o que amamos é sempre um símbolo”. Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.
Variações sobre a impossível pergunta: Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no teu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios…Como Narciso, fico diante dele… “No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura…” (Cecília Meireles). Por isto te amo, pelos peixes encantados…
Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos. Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo…
Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. “O amor começa por uma metáfora”, diz Milan Kundera. “Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”
Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder – delicado – da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada…
– Rubem Alves, no livro “O retorno e Terno” (Crônicas). 27ª ed., Campinas|SP: Editora Papirus, 2008.
Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com
sexta-feira, 2 de dezembro de 2022
MAL DA AMÉRICA LATINA É A RETÓRICA
Dois problemas atrapalham os cronistas: muito assunto e nenhum assunto. Este dá mais liberdade, mas nem sempre agrada o leitor. Muito assunto provoca um tipo de concorrência, porque todos falam mais ou menos a mesma coisa. Cabe ao leitor escolher o texto que mais lhe agrada.
A política está fervendo. Cada um escolhe o seu vilão preferencial e quase todos preferem e brigam por seus varões de Plutarco. As escolhas são livres e mais ou menos previsíveis. Na Venezuela, o ditador Chávez juntava uma multidão para ouvir seus ataques ao imperialismo americano.
Mas não ficava nisso. No início de seus discursos, fazia um "pelo sinal da santa cruz, livrai-nos Deus dos nossos inimigos, assim na terra como no céu, e dai-nos o pão de cada dia". O povo benzia-se e votava nele apesar da truculência de seu governo. Durante a ditadura dos militares brasileiros, tive de me autoexilar em Cuba, onde eu ouvi centenas de discursos de Fidel Castro.
Na ocasião, escrevi uma crônica no "Correio da Manhã" dizendo que o mal da América Latina não era o subdesenvolvimento nem o imperialismo norte-americano, mas a retórica.
Felizmente, a crise brasileira que estamos atravessando não é ideológica nem pode ser definida como uma crise moral. Ninguém está brigando por causa da Síria, de Israel ou da Palestina. A crise de hoje é para saber quem roubou mais, quem mandou mais dinheiro para o exterior. Bem verdade que a mídia tem a sua retórica, que se torna redundante, com os mesmos nomes e mais ou menos com o mesmo dinheiro que nos foi roubado.
Em 1964, o grande assunto era o Vietnã e as chacretes do Chacrinha. Correndo por fora, os gols de Pelé, o repertório de Roberto Carlos e o cinema novo. Hoje, com Temer, Lula e Sergio Moro, consideramos aquele período como o mais feliz de nossa história.
Fonte: Folha de S. Paulo - 06/08/2017
LUGARES
GARMISCH-PARTENKIRCHEN - ALEMANHA
Garmisch-Partenkirchen é um município da Alemanha, capital do distrito homônimo, localizado na região administrativa de Alta Baviera, estado de Baviera. Garmisch-Partenkirchen é uma estância de desportos de inverno e foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1936. Wikipédia
MR. MILES
Um novo caminho que se abre
Nosso solerte viajante retornou da temporada nas ilhas Canárias e, ao lado de sua mascote ligeiramente mais aloiradada, retomou a correspondência.
Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem para Londres e fiquei um tanto decepcionada. Choveu muito e acabei passeando pouco. Mas minha pergunta é outra: nunca vejo dicas objetivas em seus artigos. Por que isso acontece?
Mayra Gonçalves Brunatti, por email
Well, my dear, temo dizer que essa pergunta é recorrente e, de vez em quando, preciso respondê-la para que os leitores entendam o espírito de minha coluna. Tenho, of course, milhares de dicas para oferecer. E, claro, eu o faço para amigos próximos. O problema — que, however, não é problema nenhum — é que, thank God, tenho milhares de amigos ao redor do mundo. Essa tem sido a minha grande recompensa nessa vida viajora. Eu os conheci em vários lugares, mas sobretudo em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, lugares, enfim, que todo turista frequenta. Assim, sempre que viajo (agora que a fortuna que herdei décadas atrás já foi toda consumida), hospedo-me, como e bebo em seus estabelecimentos. Recomendá-los seria, portanto, antiético, embora, pelo que leio, a questão da ética não significa nada para muitos brasileiros.
Por vários motivos: eles são meus amigos — o que pode comprometer minha isenção —, não tenho a intenção de ofender aqueles que não forem mencionados e, como não vou a muitos outros lugares, eu tampouco seria justo com eles. Besides, my dear, dicas têm ser frescas como peixes tirados no mar no próprio dia. Unfortunately, elas tendem a envelhecer muito rapidamente. Basta uma tempestadade para destruir o mais belo dos jardins; basta um gerente descuidado para obnubilar o mais gentil e amoroso dos serviços; basta um descuido para que o melhor dos restaurantes transforme-se em perigosa arapuca. On the other hand, qualquer lugar desinteressante pode virar a melhor das dicas a partir de uma decisão brilhante ou do aporte de algum capital que faltava.
Eis porque, darling, prefiro manter-me afastado de dicas pontuais, embora jamais deixe de mencionar cidades, vilas, montanhas e praias encantadoras, que assim são porque a natureza e, sometimes, a intervenção humana assim as fizeram.
Espero que você, como outros leitores, compreendam essa minha pequena idiossincrasia. Prefiro, como sempre, ater-me a questões de outra magnitude (Secundárias? Fundamentais? Who knows?) como a do mau tempo em Londres a que você mesmo se refere em sua indagação. Sim: a capital de meu reino é um lugar chuvoso além da média. O encontro do ar frio com correntes maríimas mais quentes produz esse fenômeno. Mas o que seria de Londres sem o seu jeito úmido, seus transeuntes com guardas-chuva ou o cinza de seus infinitos mistérios. Há cidades solares como o Rio ou Miami, que não combinam com dias plúmbeos. Há países onde nunca chove — e é isso que deles se espera.
Nossas ilhas, however, têm essa alternância climática permanente, que lhes empresta o delicioso brilho de surpreender. E porque são assim, estão prontas para oferecer as melhores alternativas em qualquer clima. Durante a chuva, há uma imensidão de museus, galerias, pubs, teatros e castelos a explorar. Quando faz sol, é hora de explorar nossos infinitos parques e jardins. Quando faz frio, é o momento de exibir a elegância de seus sobretudos ingleses e dos bowler hats que sempre tenho comigo. And so on. É a possibilidade de mudar a cada instante que faz de qualquer lugar um destino a ser revisitado muitas vezes. Na primavera, no verão, no outono ou no inverno. Cada estação com seus aromas, sua paleta de cores e os sabores a ela ligados. Cada dia um novo lugar, uma nova experiência, um novo caminho que se abre. Don't you agree?
Fonte: Facebook
Nosso solerte viajante retornou da temporada nas ilhas Canárias e, ao lado de sua mascote ligeiramente mais aloiradada, retomou a correspondência.
Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem para Londres e fiquei um tanto decepcionada. Choveu muito e acabei passeando pouco. Mas minha pergunta é outra: nunca vejo dicas objetivas em seus artigos. Por que isso acontece?
Mayra Gonçalves Brunatti, por email
Well, my dear, temo dizer que essa pergunta é recorrente e, de vez em quando, preciso respondê-la para que os leitores entendam o espírito de minha coluna. Tenho, of course, milhares de dicas para oferecer. E, claro, eu o faço para amigos próximos. O problema — que, however, não é problema nenhum — é que, thank God, tenho milhares de amigos ao redor do mundo. Essa tem sido a minha grande recompensa nessa vida viajora. Eu os conheci em vários lugares, mas sobretudo em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, lugares, enfim, que todo turista frequenta. Assim, sempre que viajo (agora que a fortuna que herdei décadas atrás já foi toda consumida), hospedo-me, como e bebo em seus estabelecimentos. Recomendá-los seria, portanto, antiético, embora, pelo que leio, a questão da ética não significa nada para muitos brasileiros.
Por vários motivos: eles são meus amigos — o que pode comprometer minha isenção —, não tenho a intenção de ofender aqueles que não forem mencionados e, como não vou a muitos outros lugares, eu tampouco seria justo com eles. Besides, my dear, dicas têm ser frescas como peixes tirados no mar no próprio dia. Unfortunately, elas tendem a envelhecer muito rapidamente. Basta uma tempestadade para destruir o mais belo dos jardins; basta um gerente descuidado para obnubilar o mais gentil e amoroso dos serviços; basta um descuido para que o melhor dos restaurantes transforme-se em perigosa arapuca. On the other hand, qualquer lugar desinteressante pode virar a melhor das dicas a partir de uma decisão brilhante ou do aporte de algum capital que faltava.
Eis porque, darling, prefiro manter-me afastado de dicas pontuais, embora jamais deixe de mencionar cidades, vilas, montanhas e praias encantadoras, que assim são porque a natureza e, sometimes, a intervenção humana assim as fizeram.
Espero que você, como outros leitores, compreendam essa minha pequena idiossincrasia. Prefiro, como sempre, ater-me a questões de outra magnitude (Secundárias? Fundamentais? Who knows?) como a do mau tempo em Londres a que você mesmo se refere em sua indagação. Sim: a capital de meu reino é um lugar chuvoso além da média. O encontro do ar frio com correntes maríimas mais quentes produz esse fenômeno. Mas o que seria de Londres sem o seu jeito úmido, seus transeuntes com guardas-chuva ou o cinza de seus infinitos mistérios. Há cidades solares como o Rio ou Miami, que não combinam com dias plúmbeos. Há países onde nunca chove — e é isso que deles se espera.
Nossas ilhas, however, têm essa alternância climática permanente, que lhes empresta o delicioso brilho de surpreender. E porque são assim, estão prontas para oferecer as melhores alternativas em qualquer clima. Durante a chuva, há uma imensidão de museus, galerias, pubs, teatros e castelos a explorar. Quando faz sol, é hora de explorar nossos infinitos parques e jardins. Quando faz frio, é o momento de exibir a elegância de seus sobretudos ingleses e dos bowler hats que sempre tenho comigo. And so on. É a possibilidade de mudar a cada instante que faz de qualquer lugar um destino a ser revisitado muitas vezes. Na primavera, no verão, no outono ou no inverno. Cada estação com seus aromas, sua paleta de cores e os sabores a ela ligados. Cada dia um novo lugar, uma nova experiência, um novo caminho que se abre. Don't you agree?
Fonte: Facebook
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
A NOVA PEDAGOGIA É UM ERRO

Cristina Galindo, El País Brasil*
“O novo desafio é controlar o acesso ao celular. As escolas fazem bem em proibi-lo e os pais devem vigiar seu uso em casa. Devem saber dizer ‘não’”
Pedagoga sueca, com mais de quatro décadas de experiência na educação, critica método que dá mais iniciativa aos alunos na sala de aula e defende um ensino mais tradicional
O silêncio reina na rua de pedras onde mora Inger Enkvist, em Lund, uma das cidades mais antigas da Suécia, com uma das universidades mais importantes deste país nórdico. Ninguém diria que a poucos minutos a pé fica o centro urbano. Esta calma chega ao interior de seu apartamento, uma sobreloja com grandes janelas e um jardim traseiro comunitário. Seu escritório, luminoso e cheio de livros, é um reflexo de sua ideia de como é preciso se entregar a qualquer tarefa intelectual: com ordem, concentração, seguindo regras…, lendo.
Enquanto a maioria dos pedagogos questiona a utilidade de decorar informações na era do Google e prega o fim das carteiras enfileiradas e das disciplinas estanques, com mais liberdade para os alunos, Enkvist (Värmland, Suécia, 1947) defende a necessidade de voltar a uma escola mais tradicional, onde se destaquem a disciplina, o esforço e a autoridade do professor. Seu ponto de vista contraria os postulados dessa nova pedagogia, mas também se distancia daqueles que acreditam que a escola é uma fábrica de alunos em série e que deve centrar seus esforços em competir com outros colégios para subir nos rankings mundiais.
Começou sua carreira educativa como professora do ensino secundário, e agora é catedrática emérita de espanhol na Universidade de Lund. Centrou sua pesquisa na obra de Mario Vargas Llosa e Juan Goytisolo, e escreveu ensaios sobre José Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno e María Zambrano. Publicou vários livros sobre pedagogia – como Repensar a Educação (Bunker Editorial, 2006, digital) – e centenas de artigos, além de ter assessorado o Governo sueco no assunto. Sentada na sala de sua casa, Enkvist conversa em espanhol sobre como acredita que as escolas deveriam ser, enquanto bebe um suco de frutas vermelhas servido num jarrinho de barro comprado em Segóvia. Falando com ela, não é nada difícil imaginá-la no seu colégio, ainda menina, tirando ótimas notas.
Eis a entrevista:
Como recorda sua escola?
Era pública e tradicional. Não tenho más recordações. Talvez houvesse algumas aulas chatas, mas às vezes a vida é assim. Os alunos chegavam na hora e não havia conflitos com os professores. A Suécia me deu uma educação gratuita e de qualidade.
Os tempos mudaram. Continua valendo a disciplina daquela época?
A relação entre pais e filhos se baseia mais do que nunca nas emoções. Temos uma vida mais fácil, e queremos que nossos filhos também a tenham. Mas a escola deve estar consciente de que sua tarefa principal continua sendo formar os jovens intelectualmente. A escola não pode ser uma creche, nem o professor um psicólogo ou um assistente social.
Qual deve ser a finalidade do ensino infantil?
Deve ser muitas coisas, mas sua tarefa principal é dar uma base intelectual. Dar conhecimentos aos jovens, prepará-los para o mercado de trabalho, transmitir-lhes uma cultura e proporcionar-lhes uma ideia da ordem social, porque a escola é a primeira instituição com a qual as crianças se deparam, e é importante que vejam que há algumas regras, que o professor é a autoridade e que é preciso respeitar tanto ele como os colegas.
Mas a tecnologia torna mais difícil controlar crianças hiperestimuladas.
Sempre houve dificuldades na aprendizagem. Há 50 anos, era o fato de precisar andar uma hora para chegar ao colégio, ou oferecer refeições nutritivas. Hoje se trata da enorme quantidade de estímulos. O novo desafio é controlar o acesso ao celular e ao computador para que se concentrem. As escolas que proíbem o celular fazem bem. Em casa, os pais devem vigiar o tempo de uso da tecnologia. Proibir é muito difícil, porque se criam conflitos, mas um pai moderno deve saber dizer “não”. Deve resistir.
Há pedagogos que afirmam que a escola tradicional é chata e educa crianças submissas, e que é preciso aprender a aprender.
A escola é um lugar para aprender a pensar sobre a base dos dados. Isso de insistir em aprender a aprender sem falar antes de aprendizagem é uma falsidade, porque não podemos pensar sem pensar em algo. Sem dados não há com o que começar a pensar.
A escola não deveria ser um lugar onde se divertir?
A satisfação na escola deve estar vinculada ao conteúdo: entrar numa aula e que lhe contem algo que você não sabia. Mas é preciso saber que, para entender algo novo, é necessário fazer um esforço. Além disso, é fundamental que o professor nos ensine a ler e também como nos comportar. É impossível aprender bem sem que haja ordem na sala de aula. Essa é a base principal: comportamento, leitura e avaliação pelo conhecimento.
O que opina da tendência de pôr almofadas na sala de aula para que os alunos se deitem?
Isso é enganar os jovens. Para aprender a escrever, uma criança precisa sentar-se bem, olhar para frente, ter lápis e papel, concentrar-se… Aprender pode ser um prazer, mas, insisto, exige um esforço e um trabalho. É preciso dizer isso às crianças. Se não, estamos enganando-as. Tocar violino, por exemplo, não é fácil. Exige muita prática. Os estudos do psicólogo sueco Anders Ericsson mostraram que é necessário um esforço prolongado para melhorar em algo. Para ser bom em algo você tem que se dedicar 10.000 horas. E precisa fazê-lo de forma consciente e trabalhar com um professor. Sua pesquisa avaliza a ideia tradicional de uma escola baseada no esforço do aluno, sob a orientação de um professor.
Há quem diga que não é preciso decorar porque tudo está no Google.
Essa é outra falsidade. O Google é uma ferramenta genial. É de grande ajuda para os adultos, porque sabemos o que procuramos. Mas, para quem não sabe nada, o Google não serve de nada. Há intelectuais que andam por aí dizendo que estudar geografia não foi útil. Acredito que se esqueceram de como e quanto aprenderam na escola. Afirmar essas coisas é uma falta de honradez com os jovens. E menosprezar a importância em si da vida intelectual do aluno.
Em que consiste a nova pedagogia que você critica?
A nova pedagogia é um pensamento que se vê por toda parte no Ocidente. A Suécia a adotou nos anos sessenta. Consiste, por exemplo, na pouca gradação das notas, por isso muitos pensam que não há razão para estudar muito se isso não for se refletir no histórico escolar. Dá-se muita importância à iniciativa do aluno, trabalha-se em equipe e, ao mesmo tempo em que as provas desaparecem, aparecem os projetos e o uso das novas tecnologias. Em geral, parece que se vai à escola para fazer atividades, não para trabalhar e estudar. Dá-se mais ênfase ao social que ao intelectual. Acho que é um erro. Por um lado, os alunos com mais capacidade não desenvolvem todo o seu potencial e, por outro, os que têm uma menor curiosidade natural por aprender não avançam. Além disso, muitos gostos são adquiridos, como a história, a leitura e a música clássica. No começo podem parecer chatos, mas, se alguém insistir para que tenhamos um primeiro contato, é possível que acabemos gostando. Atualmente, muitos jovens escolhem sem terem conhecido e, claro, escolhem o fácil.
A Espanha é um dos países da OCDE que dedica mais horas à lição de casa. Isso tem alguma utilidade?
Quando a jornada é muito longa, como na Espanha, não faz sentido. Se um aluno está cansado, a lição de casa não melhora o seu rendimento. É preciso buscar um número ideal de aulas pela manhã, quando a criança está mais acordada, dar-lhe um tempo de descanso e, à tarde, talvez uma tarefa de revisão do que fez durante aquele dia. Um bom exemplo é a Finlândia, onde os alunos entram às oito da manhã e saem às duas da tarde, incluindo o almoço; exceto às quintas-feiras, quando saem às quatro da tarde.
Quando criança, você era um grande leitora. Como despertar esse prazer se uma criança não está interessada?
Era uma leitora compulsiva. Ninguém teve de insistir para que eu pegasse um livro. Mas há crianças que precisam disso. Talvez no começo seja necessário forçá-las um pouco, encorajá-las para que se tornem leitoras de lazer. Como se faz isso da escola? Comprar bons livros para a biblioteca e recomendar um a cada sexta-feira. Um aluno pode contar o que leu naquela semana. Fazer pequenas competições para ver quem leu mais. Medir como o seu vocabulário aumenta. E explicar que a leitura lhes permitirá, quando adultos, um melhor desenvolvimento. Se os alunos começam a ler, quase todos descobrirão que é um prazer. Mas eles precisam de horas. Calcula-se que na maioria dos países se dedicam 400 horas à aprendizagem da leitura na escola primária. Para ser um bom leitor, são necessárias 4.000 horas. É impossível ter tanto tempo na aula. Eles têm de fazer isso em casa. O que os pais podem e devem fazer é ler com os filhos: apoiar a leitura e servir de modelo.
Mas as humanidades estão perdendo peso.
Dizem que o amanhã será dominado pela tecnologia e pelas ciências naturais, e que o que é histórico não é importante. Além disso, as provas do PISA [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], um conjunto de exames organizados pela OCDE para avaliar as competências de alunos de 15 anos em ciências, matemática e leitura] não levam em conta as humanidades porque é difícil comparar esses conhecimentos entre países, então a vontade de competição os leva a dar mais ênfase às matérias que fazem parte do PISA e negligenciar as outras. Tanto a escola quanto a família devem dar mais ênfase às humanidades.
A visão do PISA é a de uma escola que deveria funcionar como uma empresa?
A OCDE é uma organização econômica e analisa a educação a partir dessa perspectiva. O que o PISA não revela é se existe uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são inculcados, se as ciências humanas, as ciências sociais, as matérias estéticas como arte e música, que são essenciais, são bem ensinadas. O PISA é uma prova muito específica que analisa algumas coisas. As escolas e os países deveriam defender que eles ofereçam muito mais do que isso.
Em seus livros, você aponta a Finlândia como um dos grandes modelos.
A educação na Finlândia foi tradicional, embora há dois anos o Governo tenha lançado um programa mais parecido com o da Suécia, porque meu país tem um desempenho escolar inferior, mas tem um comportamento econômico superior e criou empresas de tecnologia como Spotify e Skype. O Governo finlandês parece pensar que com um pouco de desordem suas escolas serão mais criativas. Não acredito nisso.
A Finlândia era tradicional? Não há exames no ensino obrigatório nem os havia antes dessa reforma que você menciona.
É preciso repensar a fobia aos exames. O exame ajuda a se concentrar em um objetivo. Que em tal dia você tem de saber esses conhecimentos. Um bom professor ensina coisas aos alunos, revisa com eles e faz algumas provas. E constroem outros ensinamentos sobre o que já foi aprendido, então esses conhecimentos voltam a aparecer mais tarde. Não faz um exame sobre algo sem importância. Com a prova final acontece a mesma coisa. É um objetivo claro. Ajuda a ter uma visão global.
Na Finlândia não se compara tanto as escolas, o que é comum na Espanha. É assim?
Na Finlândia continuam com a tradição de confiar nos professores. Quando existe um controle estatal do desempenho e se fazem comparações entre as escolas, o ambiente se deteriora. Para os professores, gera estresse e rancor em relação a quem te controla.
Como deve ser um bom professor?
Responsável e bem formado. Deve acreditar no poder do conhecimento. Não se é bom professor apenas pelo que se sabe sobre a matéria, nem só porque sabe conquistar os alunos. É preciso combinar ambos os elementos: atrair os alunos para a matéria para ensiná-la adequadamente. É preciso recrutar professores excelentes em que alunos, pais e autoridades possam confiar. E a menos que haja uma situação grave, devemos deixá-los trabalhar.
Como foi sua experiência na sala de aula?
O aluno tem de respeitar as instruções do professor, fazer as lições de casa e, por exemplo, não mentir. Antes, mentir era muito grave. Agora parece que não acontece nada. Vi jovens que inventam motivos para justificar por que não fizeram um trabalho, que escrevem de forma pouco legível para gerar dúvidas ou discutem o tempo todo com os professores. Sei o quão desagradável é que um aluno tente mentir para você. Vi isso no ensino médio e na universidade. Quando um professor sente que não é respeitado, que tentam enganá-lo, todas as relações de ensino se rompem.
O que fazer com as crianças que incomodam e não deixam os outros trabalharem?
Isso é um tabu. É considerado pouco democrático. Diz-se que devemos dar uma oportunidade a todos. Mas o que acontece quando uma criança problemática não deixa os outros trabalharem, quando se fala com ela e com os pais, mas não se corrige? É preciso colocá-lo em um grupo separado para ver se percebe e muda.
E as crianças que se esforçam, mas não atingem o nível?
Elas podem ter aulas de reforço. E podemos oferecer itinerários diferentes, como no caso de Cingapura.
E repetir de ano?
Fazer repetir uma criança às vezes serve e às vezes não, porque cada um é diferente. Gosto do sistema de Cingapura, onde o lema é que cada criança pode atingir seu nível ótimo. Existem diferentes maneiras de conseguir isso: uma maneira, digamos, normal e outra, expressa. A segunda inclui mais conteúdos em menos tempo. Há quem diga que é menos democrático, mas creio que, pelo contrário, é mais democrático porque convém à criança, à família e ao Estado. E há menos evasão escolar, um problema muito mais grave.
Não está aprendendo também por imitação? Ou seja, os alunos adiantados podem puxar aqueles que ficam para trás?
Funciona quando o grupo tem um bom nível e um bom professor. E se aqueles que têm de se integrar são poucos e querem fazê-lo. Se não, o que geralmente acontece é que aqueles que não querem trabalhar arrastam os outros.
O bilinguismo que combina inglês e espanhol prolifera nas escolas espanholas. Você matricularia seus filhos em uma dessas escolas?
Primeiramente, eu analisaria outras opções. Aprender inglês é bom, mas é preciso perguntar o que deixamos de aprender de outras matérias. Tenho dúvidas. Acredito que se pode aprender bem inglês com algumas horas de aula sem sacrificar outros conhecimentos, como por exemplo, as ciências. Na Suécia, as aulas de inglês só começam aos 9 ou 10 anos.
*Originalmente publicado no jornal El País Brasil
Fonte: Revista Prosa e Verso
NÃO TROPECE NA LÍNGUA
UM DOS QUE SOFREM OU SOFRE?
--- É um dos lugares que mais sofreram ou é um dos lugares que mais sofreu com as chuvas. Construções como estas ouve-se com frequência em jornais de TV; ontem, por exemplo, a Sra. Prefeita mencionou a primeira.” G. G., São Paulo/S
--- É uma das obras que o lançou... Pergunto se aqui também pode ser aceito o plural? Quando tiver a expressão uma das e também quando tiver o sentido de obra literária. É o mesmo critério de um dos que?” Paulo, Rio de Janeiro/RJ
São comuns na língua portuguesa as duas construções. A escolha pelo verbo no plural (que é tida como a sintaxe mais recomendável) ou no singular reside primordialmente na ênfase que se quer dar ou ao conjunto ou a um só elemento, isto é, à ação feita por um só indivíduo ou por muitos/alguns, como se observa nos exemplos abaixo:
- Sanga do Leste é um dos lugares que mais sofreram com as chuvas.
- Recomendo a leitura de “Intimidades”, uma das obras que lançaram Dorothy.
- Pita foi um dos [políticos] que mais falaram na reunião.
- O linho é um dos tecidos que estão em alta nesta estação.
- Sanga do Leste é um dos lugares que mais sofreu com as chuvas.
- Recomendo a leitura de “Intimidades”, uma das obras que a lançou.
- O linho é um dos tecidos que está em alta nesta estação.
- Foi desativada uma das maiores quadrilhas que atuava em Divinópolis.
O linguista e gramático Celso Luft explicou o uso do singular como “uma regra elementar de sintaxe que manda suprimir termos repetidos (persistem na mente, mas podam-se na frase)”. Isso significa que, por exemplo, em vez de dizer “o linho é um tecido que está em alta entre os tecidos que estão em alta nesta estação”, dizemos simplesmente “o linho é um dos tecidos que está em alta nesta estação”.
Há, contudo, uns poucos gramáticos e professores que receitam o uso do plural apenas, desqualificando uma prática secular de emprego do predicado no singular. Rui Barbosa, entre outros estudiosos da língua, defendeu a construção com verbo no singular, já que ele exprime “o fenômeno da atração do verbo de uma sentença pelo sujeito de outra” (1986, nota 192, v.I, p.334), e apresenta inúmeros exemplos clássicos, dos quais extraio três:
- “Ele foi um dos que muito contradisse a el-rei.” (Fern. Lopes)
- “Uma das cousas que derrubou a Galba do império foi tardar...” (M. Bernardes)
- “Na Ásia foi um dos governadores que mais impulsionou a queda do império índico.” (Camilo Castelo Branco)
Aponta ainda Rui Barbosa que em quase todos os trechos transcritos por ele “a ação é exercida por muitas entidades, e, não obstante, o verbo está no singular” (ibid.).
E Said Ali (apud Luft, Mundo das Palavras n. 2.313, s/d) fez ver que esse fenômeno se observa em grego, latim, francês, espanhol, inglês e alemão. Celso Luft aproveitou a deixa para ironizar: “Os clássicos e todas essas línguas deveriam ter esperado pelos dois filólogos* portugueses para acertarem a sintaxe?” [*referia-se a Epifânio Dias e Vasco B. de Amaral, que só admitiam o plural] Como em português o caso não é novidade nem ilógico, aceitemos as duas maneiras de expressão!
Fonte: www.linguabrasil.com.br
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