Não compares tua vida com a dos outros. Não tens nem ideia de como será seu caminho. (Regina Brett)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2022
LUGARES
OBERNAI - FRANÇA
Obernai é uma comuna francesa na região administrativa de Grande Leste, no departamento Baixo Reno. Estende-se por uma área de 25,76 km². Em 2010 a comuna tinha 11 799 habitantes. Aqui terá nascido Odília da Alsácia, em 660, e que é venerada como sendo a Padroeira da Alsácia pela Igreja Católica. Wikipédia
DIAS NULOS

Fabrício Carpinejar
Há dias em que você não existirá. Empate sem gols, público
vaiando; céu nublado sem sol e estrelas, abafado.
Dias em que não fará nenhuma diferença acordar. Nada dará
certo. Nada vai funcionar. Nenhuma palavra trará descanso. Nenhuma atitude será
compreendida.
Dias de exorcismo e penitência. Só rezará para que termine
logo. Não contará depois em seu calendário, não aparecerá em sua trajetória
como tempo de serviço.
Serão dias descontados por Deus no final.
Há dias em que desaparecerá, que passará o tempo inteiro
resolvendo um problema que não criou e que é mera vítima. Não há como combater
o mal silencioso. É a esposa que decidiu que você não é amoroso, é um colega
que colocou a culpa em você por uma tarefa malfeita, é um amigo que ficou
ofendido com uma piada, é um familiar que coloca para fora um trauma antigo.
Discutirá horas a fio no telefone, suspenderá reuniões, queimará a agenda,
almoço e jantar desaparecerão do cardápio. Restaurar a paz dependerá de uma
longa guerra de nervos. Ou seja, sofrerá o maior estresse para reconquistar o
que já tinha antes.
A luz vem torta e não se endireita por mais que demonstre paciência
e generosidade. A educação é um amortecedor da queda, não impede o tombo,
apenas suaviza os ferimentos.
É o dia fatídico em que não cumprirá aquilo que determinou
na noite anterior. Viverá se explicando e justificando o seu valor.
A pedra enfileirada do dominó escapou da fila indiana
levando todas as pedras organizadas da mesa. Se o liquidificador quebra, a
máquina de lavar e de secar estragam juntas.
Aceite que dói menos. É um excesso de azar que se assemelha
a maldição. Alguém bate em seu carro por bobagem, arranha na verdade, você não
é culpado, mas sacrifica o trabalho, corre atrás de três orçamentos em
diferentes oficinas e ainda precisa torcer para que o causador do acidente
assuma a responsabilidade.
Ou esquece simplesmente de pagar a conta da luz – esquecer
não, caiu do débito em conta – e é premiado com o escuro por 48 horas,
precisando tirar segunda via e aplacar o olhar interrogador e desconfiado dos
filhos jurando que você faliu.
Prepare-se para não existir alguns dias. Nem sempre a vida é
nossa.
Fonte: Facebook
domingo, 4 de dezembro de 2022
ESPELHO, ESPELHO MEU
Entre as descobertas mais importantes da história está o espelho de vidro. Parece exagero, mas não é.
Desde a antiguidade o Homem buscou seu retrato, primeiro na água parada. Depois, em materiais polidos.
A primeira vez com uma visão razoável, mas ainda insuficiente, foi quando poliram os metais. Os primeiros surgiram na antiga Suméria, hoje Iraque, placas de bronze polidas com areia.
O de vidro foi invenção do químico alemão Justus von Liebig, que usou nitrato de prata no vidro, em 1830.
Se alguém pensa que espelho é só para dar a real ou servir para narcisos em ataques de vaidade está enganado. A medicina precisa deles, os telescópios também, entre outros milhares de exemplos que, sem eles, o mundo não seria como é hoje.
São incontáveis os filmes e livros que tratam dele. Por enquanto, deixo a parte útil de lado, mas sempre achei fascinante como dele se fazem piadinhas. Como a crença para distinguir o sexo das moscas. Se forem fêmeas, pousam no espelho; se forem machos, pousam em escrivaninhas.
Rembrandt e outros pintores dos Países Baixos usavam espelhos para pintar autorretratos e cenas mais complexas. Do ponto de vista prático, a qualidade de um espelho pode ser medida colocando-se a ponta da unha do polegar nele. Quanto menor a distância da imagem, melhor ele é. Colocados um de frente para outro, teremos a imagem reproduzida ao infinito. É o que mais espelha – sem trocadilho – o infinito. A imagem é cada vez menor, mas até que ponto?
O espelho serve tanto para elevar a autoestima como para piorá-la.
Da primeira vez que vemos nossa imagem refletida, reagimos com curiosidade na medida que vamos crescendo, nos olhamos para ver se estamos bonitos. Quando envelhecemos, queremos distância dele
Fonte: https://fernandoalbrecht.blog.br
LUGARES
GRAMADO - RS
A Igreja do Relógio em Gramado foi inaugurada em 1961. Ela fica no alto de um morro e seu relógio faz parte de um cenário lindo, principalmente quando as hortênsias florescem. Você pode ir até o local para garantir fotos incríveis com ângulos surpreendentes do centro de Gramado.
O CAUSO DAS ESCRITURA
Por Sérgio Jockymann
Pois não sei se já les contei os causo das Escritura Sagrada. Se não les contei, les conto agora. A história essa é meio comprida, mas vale a pena contá por causa dos revertério. De Adão e Eva acho que não é perciso contá os causo, porque todo mundo sabe que os dois foram corrido do Paraíso por tomá banho pelado numa sanga.
Naqueles tempo, esse mundaréu todo era um pasto só sem dono, onde não tinha nem dele nem meu. O primeiro índio a botá cerca de arame foi um tal de Abel. Mas nem chegou a estendê o primeiro fio porque levou um pontaço no peito do irmão dele, um tal de Caim, que tava meio desconforme com a divisão. O Caim, entonces, ameaçado de processo feio, se bandeou pro Uruguay. Deixou o filho dele, um tal de Noé, tomando contada estância.
A estância essa ficava nas barranca de uma corredera e o Noé, uns ano despois, pegou uma enchente muito feia pela frente. Cosa munto séria. Caiu uma barbaridade de água. Caiu tanta água que tinha até índio pescando jundiá em cima de cerro. O Noé entonces botou as criação em cima de uma balsa e se largou nas correnteza, o índio velho. A enchente era tão braba que quando o Noé se deu conta a balsa tava atolada num banhado chamado Dilúlvio.
Foi aí que um tal de Moisés varou aquela água toda com vinte junta de boi e tirou a balsa do atoleiro. Bueno, aí com aquele desporpósito, as família ficaram amiga. A filha mais velha do Noé se casou-se com o filho mais novo do Moisés e os dois foram morá numa estância muito linda, chamada estância da Babilônica. Bueno, tavam as família ali, tomando mate no galpão, quando se chegou um correntino chamado Golias, com mais uns trinta castelhano do lado dele. Abriram a cordeona e quiseram obrigá as prenda a dançá uma milonga.
Foi quando os velho, que eram de muito respeito, se queimaram e deu-se o entrevero. Peleia braba, seu. O correntino Golias, na voz de vamos, já se foi e degolou de um talho só o Noé e o velho Moisés. E já tava largando planchaço em cima do mulherio quando um piazito carretero, de seus dez ano e pico, chamado Davi, largou um bodocaço nomeio da testa do infeliz que não teve nem graça. Foi me acudam e tou morto. Aí a indiada toda se animou e degolaram os castelhano. Dois que tinham desrespeitado as prenda foram degolado com o lado cego do facão. Foi uma sanguera danada. Tanto que até hoje aquele capão se chama capão do MarVermelho.
Mas entonces foi nomeado delegado um tal de major Salomão. Homem de cabelo nas venta, o major Salomão. Nem les conto! Um dia o índio tava sesteando quando duas velha se bateram em cima dum guri de seus seis ano que tava vendendo pastel. O major Salomão, muito chegado ao piazito, passou a mão no facão e de um talho só cortou as velha em dois. Esse é o muito falado causo do Perjuízo de Salomão que contam por aí.
Mas, por essas estimativas, o major Salomão, o que tinha de brabo tinha de mulherengo.
Eta índio bueno, seu. Onde boleava a perna, já deixava filho feito. E como vivia boleando a perna, teve filho que Deus nos livre. E tudo com a cara dele, que era pra não havê discordância. Só que quando Deus nosso Senhor quer, até égua véia nega estribo. Logo a filha das predileção do major Salomão, a tal de Maria Madalena, fugiu da estância e foi sê china de bolicho. Uma vergonhera pra família. Mas ela puxou à mãe, que era uma paraguaia meio gaudéria que nunca tomo jeito na vida. O pobre do major Salomão se matou-se de sentimento, com uma pistola Eclesiaste de dois cano.
Mas, vejam como é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casou-se três ano despois com um tal de coronel Ponciano Pilatos. Foi ele que tirou ela da vida. Eu conheço uns três caso do mesmo feitio e nem um deles deu certo. Como dizia muito bem o finado meu pai, mulher quando toma mate em muita bomba, nunca mais se acostuma com uma só. Mas nesses contraproducente, até que houve uma contrapartida. O coronel Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tiveram doze filho, os tal de aposto, que são muito conhecido pelas caridade que fizeram. Foi até na casa deles que Jesus Cristo churrasqueou com a cunhada de Maria Madalena, que despois foi santa muito afamada. A tal de Santa Ceia.
Pois era uns tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinham perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no potrero, chamada Samaritana. Um rico animal, criado em casa, que só faltava falá. Pois tiveram que se desfazê do pobre. E como as desgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí que estouraram as revolução.
Os maragato, chefiado por um tal de coronel Jordão, acamparam na entrada da Vila. Só não entraram porque tava lá um destacamento comandado pelo tenente Lazo aquele mesmo que por duas vez foi dado por morto. Mas aí um cabo dos provisório, um tal de cabo Judas, se passou-se pros maragato e já se veio uns tal de Romano, que tavam numas várzeas, e ocuparam a Vila.
Nosso Senhor foi preso pra ser degolado por um preto muito forte e muito feio chamado Calvário. Pois vejam como é a vida. Esse mesmo preto Calvário, degolador muito mal afamado, era filho da velha Palestina, que tinha sido cozinheira da Virge Maria. Degolador é como cobra, desde pequeno já nasce ingrato. Mas entonces botaram Nosso Senhor na cadeia, junto com dois abigeatário, um tal de João Batista e o primo dele, Heródio dos Reis. Os dois tinham peleado por causo de uma baiana chamada Salomé e no entrevero balearam dois padre, monsenhor Caifás e o cônego Atanásio.
Mas aí veio uma força da Brigada, comandada pelo coronel Jesus Além, que era meio parente do homem por parte de mãe e com ele veio mais três corpo de provisório e se pegaram com os maragatos. Foi a peleia mais feia que se tem conhecimento. Foi quarenta dia e quarenta noite de bala e bala.
Morreu três santo na luta: São Lucas, São João e São Marco. São Mateus ficou três mês morre não morre, mas teve umas atenuante a favor e salvou-se o índio. Nosso Senhor pegou três balaço, um em cada mão e um que varou os pé de lado a lado. Ainda levou mais um pontaço do mais velho dos Romano, o César Romano, na altura das costela. Ferimento muito feio que Nosso Senhor curou tomando vinagre na sexta-feira da paixão. Mas aí, Nosso Senhor se desiludiu-se dos home, subiu na Cruz, disse adeus pros amigo e se mandou-se de volta pro céu. Mas deixou os dez mandamentos, que são cinco e que se pode muito bem acolherá em dois: não se mata home pelas costa, nem se cobiça mulher dos outros pela frente.
* Este conto foi publicado pela primeira vez na antologia Assim Escrevem os Gaúchos, organizada por Janer Cristaldo, em 1976.
Fonte: cristaldo.blogspot.com.br
sábado, 3 de dezembro de 2022
SEM ABDICAR DA ESPERANÇA

Everardo Maciel*
No Brasil, a reflexão nunca foi razoavelmente prestigiada. Preferimos, sempre, reagir percorrendo o circuito das emoções.
Ocorre que a revolução digital, com a força descomunal das redes sociais, enfraqueceu a mediação reflexiva da informação, acentuando a prevalência, quase absoluta, da emoção sobre a reflexão, em um processo de auto amputação da razão.
Sem juízo de valor, basta ver a capacidade de convencimento dos influenciadores digitais, profissionais ou eventuais, vis-à-vis a mídia tradicional. Seu poder de convencimento é avassalador.
Não é, contudo, um fenômeno local, mas, em menor ou maior intensidade, mundial. Aparentemente é, também, irreversível, o que imporá uma rediscussão da natureza do Estado e dos institutos que o integram.
Como já ocorreu tantas vezes, talvez estejamos vivendo uma transição entre duas realidades históricas, o que remete à conhecida reflexão do pensador italiano Antônio Gramsci: “O velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno surgem os sintomas mórbidos mais variados”.
Um desses sintomas, hoje, são os movimentos oportunistas que buscam, por meio da manipulação da linguagem, viabilizar interesses próprios, nem sempre legítimos, gerando uma peculiar guerra de palavras.
Grandes dicionários costumam eleger a palavra do ano. O Merriam-Webster, que nos dois últimos anos destacou as palavras pandemia e vacina, elegeu, para este ano, “gaslighting”. Segundo ele, essa palavra corresponde ao ato ou prática de enganar grosseiramente alguém especialmente para vantagem própria, de forma mais elaborada que a mentira improvisada, porque decorre de um planejamento com propósitos iníquos. O Brasil é um terreno fértil para esses atos ou práticas, em virtude de nossa acanhada capacidade de reflexão.
Nesse delicado contexto, que se soma ao imprevisível curso das mudanças climáticas, à guerra da Ucrânia e outros focos de tensão bélica, ao desabastecimento alimentar, à inflação em escala internacional e à crise da democracia, teremos a instalação de um novo governo no Brasil, em circunstâncias em que se constatam visíveis e irresolutas instabilidades institucionais.
É previsível que surjam muitos projetos governamentais para enfrentar os problemas atuais e um futuro desafiador. Ainda que possa parecer uma platitude, é recomendável que a ação política seja pautada pelo comedimento de linguagem, desarmamento dos espíritos, planejamento centrado em diagnósticos e em escolha de soluções qualificadas, e negociação sem apelo a meios pouco virtuosos.
*Consultor Tributário, ex-Secretário da Receita Federal (1995-2002)
Fonte: https://www.chumbogordo.com.br
AS RAZÕES DO AMOR

Rubem Alves
Os místicos e apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: “A rosa não tem ‘porquês’. Ela floresce porque floresce.”
Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema “as sem-razões do amor”. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento. “Eu te amo porque te amo…” – sem razões… “Não precisas ser amante, e nem sempre saber sê-lo”.
Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fossem assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.
“Amor é estado de graça e com amor não se paga.” Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que “amor com amor se paga”. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa floresce, eu te amo porque te amo.
“Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários… Amor não se troca… Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo…”
Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena…), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento e se perguntava: “Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.” O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?
Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor – frágil bolha de sabão -, não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkergaard comentava o absurdo de se pedir dos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor – sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar…
Mas – eu já disse – não estou apaixonado. Olho o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário de Drummond, as cem razões do amor…
Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escritas. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: “Que é que eu amo quando amo o meu Deus?” Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: “Que é que eu amo quando te amo?” Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, “o que amamos é sempre um símbolo”. Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.
Variações sobre a impossível pergunta: Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no teu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios…Como Narciso, fico diante dele… “No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura…” (Cecília Meireles). Por isto te amo, pelos peixes encantados…
Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos. Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo…
Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. “O amor começa por uma metáfora”, diz Milan Kundera. “Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”
Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder – delicado – da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada…
– Rubem Alves, no livro “O retorno e Terno” (Crônicas). 27ª ed., Campinas|SP: Editora Papirus, 2008.
Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com
sexta-feira, 2 de dezembro de 2022
MAL DA AMÉRICA LATINA É A RETÓRICA
Dois problemas atrapalham os cronistas: muito assunto e nenhum assunto. Este dá mais liberdade, mas nem sempre agrada o leitor. Muito assunto provoca um tipo de concorrência, porque todos falam mais ou menos a mesma coisa. Cabe ao leitor escolher o texto que mais lhe agrada.
A política está fervendo. Cada um escolhe o seu vilão preferencial e quase todos preferem e brigam por seus varões de Plutarco. As escolhas são livres e mais ou menos previsíveis. Na Venezuela, o ditador Chávez juntava uma multidão para ouvir seus ataques ao imperialismo americano.
Mas não ficava nisso. No início de seus discursos, fazia um "pelo sinal da santa cruz, livrai-nos Deus dos nossos inimigos, assim na terra como no céu, e dai-nos o pão de cada dia". O povo benzia-se e votava nele apesar da truculência de seu governo. Durante a ditadura dos militares brasileiros, tive de me autoexilar em Cuba, onde eu ouvi centenas de discursos de Fidel Castro.
Na ocasião, escrevi uma crônica no "Correio da Manhã" dizendo que o mal da América Latina não era o subdesenvolvimento nem o imperialismo norte-americano, mas a retórica.
Felizmente, a crise brasileira que estamos atravessando não é ideológica nem pode ser definida como uma crise moral. Ninguém está brigando por causa da Síria, de Israel ou da Palestina. A crise de hoje é para saber quem roubou mais, quem mandou mais dinheiro para o exterior. Bem verdade que a mídia tem a sua retórica, que se torna redundante, com os mesmos nomes e mais ou menos com o mesmo dinheiro que nos foi roubado.
Em 1964, o grande assunto era o Vietnã e as chacretes do Chacrinha. Correndo por fora, os gols de Pelé, o repertório de Roberto Carlos e o cinema novo. Hoje, com Temer, Lula e Sergio Moro, consideramos aquele período como o mais feliz de nossa história.
Fonte: Folha de S. Paulo - 06/08/2017
LUGARES
GARMISCH-PARTENKIRCHEN - ALEMANHA
Garmisch-Partenkirchen é um município da Alemanha, capital do distrito homônimo, localizado na região administrativa de Alta Baviera, estado de Baviera. Garmisch-Partenkirchen é uma estância de desportos de inverno e foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1936. Wikipédia
MR. MILES
Um novo caminho que se abre
Nosso solerte viajante retornou da temporada nas ilhas Canárias e, ao lado de sua mascote ligeiramente mais aloiradada, retomou a correspondência.
Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem para Londres e fiquei um tanto decepcionada. Choveu muito e acabei passeando pouco. Mas minha pergunta é outra: nunca vejo dicas objetivas em seus artigos. Por que isso acontece?
Mayra Gonçalves Brunatti, por email
Well, my dear, temo dizer que essa pergunta é recorrente e, de vez em quando, preciso respondê-la para que os leitores entendam o espírito de minha coluna. Tenho, of course, milhares de dicas para oferecer. E, claro, eu o faço para amigos próximos. O problema — que, however, não é problema nenhum — é que, thank God, tenho milhares de amigos ao redor do mundo. Essa tem sido a minha grande recompensa nessa vida viajora. Eu os conheci em vários lugares, mas sobretudo em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, lugares, enfim, que todo turista frequenta. Assim, sempre que viajo (agora que a fortuna que herdei décadas atrás já foi toda consumida), hospedo-me, como e bebo em seus estabelecimentos. Recomendá-los seria, portanto, antiético, embora, pelo que leio, a questão da ética não significa nada para muitos brasileiros.
Por vários motivos: eles são meus amigos — o que pode comprometer minha isenção —, não tenho a intenção de ofender aqueles que não forem mencionados e, como não vou a muitos outros lugares, eu tampouco seria justo com eles. Besides, my dear, dicas têm ser frescas como peixes tirados no mar no próprio dia. Unfortunately, elas tendem a envelhecer muito rapidamente. Basta uma tempestadade para destruir o mais belo dos jardins; basta um gerente descuidado para obnubilar o mais gentil e amoroso dos serviços; basta um descuido para que o melhor dos restaurantes transforme-se em perigosa arapuca. On the other hand, qualquer lugar desinteressante pode virar a melhor das dicas a partir de uma decisão brilhante ou do aporte de algum capital que faltava.
Eis porque, darling, prefiro manter-me afastado de dicas pontuais, embora jamais deixe de mencionar cidades, vilas, montanhas e praias encantadoras, que assim são porque a natureza e, sometimes, a intervenção humana assim as fizeram.
Espero que você, como outros leitores, compreendam essa minha pequena idiossincrasia. Prefiro, como sempre, ater-me a questões de outra magnitude (Secundárias? Fundamentais? Who knows?) como a do mau tempo em Londres a que você mesmo se refere em sua indagação. Sim: a capital de meu reino é um lugar chuvoso além da média. O encontro do ar frio com correntes maríimas mais quentes produz esse fenômeno. Mas o que seria de Londres sem o seu jeito úmido, seus transeuntes com guardas-chuva ou o cinza de seus infinitos mistérios. Há cidades solares como o Rio ou Miami, que não combinam com dias plúmbeos. Há países onde nunca chove — e é isso que deles se espera.
Nossas ilhas, however, têm essa alternância climática permanente, que lhes empresta o delicioso brilho de surpreender. E porque são assim, estão prontas para oferecer as melhores alternativas em qualquer clima. Durante a chuva, há uma imensidão de museus, galerias, pubs, teatros e castelos a explorar. Quando faz sol, é hora de explorar nossos infinitos parques e jardins. Quando faz frio, é o momento de exibir a elegância de seus sobretudos ingleses e dos bowler hats que sempre tenho comigo. And so on. É a possibilidade de mudar a cada instante que faz de qualquer lugar um destino a ser revisitado muitas vezes. Na primavera, no verão, no outono ou no inverno. Cada estação com seus aromas, sua paleta de cores e os sabores a ela ligados. Cada dia um novo lugar, uma nova experiência, um novo caminho que se abre. Don't you agree?
Fonte: Facebook
Nosso solerte viajante retornou da temporada nas ilhas Canárias e, ao lado de sua mascote ligeiramente mais aloiradada, retomou a correspondência.
Querido Mr. Miles: acabo de voltar de minha primeira viagem para Londres e fiquei um tanto decepcionada. Choveu muito e acabei passeando pouco. Mas minha pergunta é outra: nunca vejo dicas objetivas em seus artigos. Por que isso acontece?
Mayra Gonçalves Brunatti, por email
Well, my dear, temo dizer que essa pergunta é recorrente e, de vez em quando, preciso respondê-la para que os leitores entendam o espírito de minha coluna. Tenho, of course, milhares de dicas para oferecer. E, claro, eu o faço para amigos próximos. O problema — que, however, não é problema nenhum — é que, thank God, tenho milhares de amigos ao redor do mundo. Essa tem sido a minha grande recompensa nessa vida viajora. Eu os conheci em vários lugares, mas sobretudo em hotéis, pousadas, bares, restaurantes, lugares, enfim, que todo turista frequenta. Assim, sempre que viajo (agora que a fortuna que herdei décadas atrás já foi toda consumida), hospedo-me, como e bebo em seus estabelecimentos. Recomendá-los seria, portanto, antiético, embora, pelo que leio, a questão da ética não significa nada para muitos brasileiros.
Por vários motivos: eles são meus amigos — o que pode comprometer minha isenção —, não tenho a intenção de ofender aqueles que não forem mencionados e, como não vou a muitos outros lugares, eu tampouco seria justo com eles. Besides, my dear, dicas têm ser frescas como peixes tirados no mar no próprio dia. Unfortunately, elas tendem a envelhecer muito rapidamente. Basta uma tempestadade para destruir o mais belo dos jardins; basta um gerente descuidado para obnubilar o mais gentil e amoroso dos serviços; basta um descuido para que o melhor dos restaurantes transforme-se em perigosa arapuca. On the other hand, qualquer lugar desinteressante pode virar a melhor das dicas a partir de uma decisão brilhante ou do aporte de algum capital que faltava.
Eis porque, darling, prefiro manter-me afastado de dicas pontuais, embora jamais deixe de mencionar cidades, vilas, montanhas e praias encantadoras, que assim são porque a natureza e, sometimes, a intervenção humana assim as fizeram.
Espero que você, como outros leitores, compreendam essa minha pequena idiossincrasia. Prefiro, como sempre, ater-me a questões de outra magnitude (Secundárias? Fundamentais? Who knows?) como a do mau tempo em Londres a que você mesmo se refere em sua indagação. Sim: a capital de meu reino é um lugar chuvoso além da média. O encontro do ar frio com correntes maríimas mais quentes produz esse fenômeno. Mas o que seria de Londres sem o seu jeito úmido, seus transeuntes com guardas-chuva ou o cinza de seus infinitos mistérios. Há cidades solares como o Rio ou Miami, que não combinam com dias plúmbeos. Há países onde nunca chove — e é isso que deles se espera.
Nossas ilhas, however, têm essa alternância climática permanente, que lhes empresta o delicioso brilho de surpreender. E porque são assim, estão prontas para oferecer as melhores alternativas em qualquer clima. Durante a chuva, há uma imensidão de museus, galerias, pubs, teatros e castelos a explorar. Quando faz sol, é hora de explorar nossos infinitos parques e jardins. Quando faz frio, é o momento de exibir a elegância de seus sobretudos ingleses e dos bowler hats que sempre tenho comigo. And so on. É a possibilidade de mudar a cada instante que faz de qualquer lugar um destino a ser revisitado muitas vezes. Na primavera, no verão, no outono ou no inverno. Cada estação com seus aromas, sua paleta de cores e os sabores a ela ligados. Cada dia um novo lugar, uma nova experiência, um novo caminho que se abre. Don't you agree?
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