quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

UM COMUNISTA EM CADA ESQUINA?

Gaudêncio Torquato*

O comunismo é uma quimera. Não há de sobreviver em um país com a dimensão continental como o nosso

Não vai aqui nenhum gesto de desprezo, muito menos de desrespeito, a quem ousa discordar do governo a se instalar em 1º de janeiro de 2023, por enxergar nele uma porta para a chegada do comunismo ao país. O que se ouve hoje da turba que se posta na frente de alguns quartéis não tem nexo. Ou, em outras palavras, trata-se de ignorância sobre o que se passa aqui e alhures. É enxergar o horizonte com muito cisco no olho. Pior é constatar que há quadros das Forças Armadas que ainda apostam nessa maluquice.

Para tentar explicar minha análise, peço ao leitor um pouco de paciência para pinçar velhos, porém nem sempre lembrados, conselhos.

A democracia é o sistema dos contrários, o que pressupõe divergência entre divisões da sociedade sobre suas metas. Alimenta-se da seiva dos partidos, que constituem parte, parcela, pedaço da sociedade. Dessa forma, a democracia se assenta na concorrência entre siglas, no debate de ideias, na livre expressão de cada parte para ilustrar, orientar e convencer as massas.

O Brasil tem um sistema democrático, fixado em normas constitucionais, ancorado em Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), com claras normas sobre direitos individuais e coletivos, e extensa descrição dos papéis dos órgãos de Estado, como as agências de controle e de segurança, a par do capítulo sobre deveres dos cidadãos. Há de se admitir que não temos ainda uma democracia consolidada, podendo até ser considerada um projeto em formação, ante as democracias mais antigas.

Nos tempos de Platão e Aristóteles, o cidadão carregava uma missão. Honrar e defender a polis. Passou o tempo e a democracia direta da Ágora, a praça central de Atenas, ganhou novos contornos. O Estado passou por extraordinária evolução, ao substituir o espaço feudal do absolutismo pelo espaço da República. O poder absoluto – de inspiração divina dos Reis – cedeu lugar ao poder do povo. Um poder corporificado no Estado moderno pelo ideário da Revolução Francesa, com seu escopo do governo representativo, das liberdades, dos direitos e deveres dos cidadãos – expressão, produção, comércio – incorporando os avanços civilizatórios que plasmaram a mais forte democracia do mundo ocidental, a norte-americana, plasmada sob o lema do primeiro presidente da nova ordem, Abraham Lincoln: “a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”.

Temos de admitir que a frase virou slogan de palanque. O governo do povo virou, em muitos países, o governo de minorias, o governo pelo povo se transformou em um governo para profissionais e um governo para o povo acabou cedendo lugar a uma administração para amigos e seus grupos. Tais desvirtuamentos ocorreram ao sabor dos jogos tramados para conquistar o poder. Que deixou de ter em mira um ideário, com um caudaloso veio de causas, e ter como alvo a construção de cidadelas de Tio Patinhas.

Ora, a esses vieses, adicionamos, por aqui, uma fileira de mazelas. O Brasil urbano revela-se parecido com o Brasil rural em toda a sua trajetória. O império coronelista do princípio do século retrasado fincou raízes em outros roça­dos. O novo coronelismo arranjou um habitat. O voto de cabresto, prática fraudulenta dos tempos da oligarquia rural, transfe­riu-se ao domínio dos “novos donos do poder”.

Os traços do passado colonial impregnam nossa identidade, banhando-a com a lama dos velhos tempos: a pobreza educacional das massas; a pe­versa disparidade de renda entre classes; o sistema político resistente às mudanças; o sistema de governo ortodoxo (hiper-presidencialismo); e a continuidade de mazelas históricas, entre as quais reinam, absolutas, o patrimonialismo e o assistencialismo de caráter populista-paternalista. Sob essa teia esburacada, a concentração de for­ças permanece sob a égide do Estado todo-poderoso, bem visível na função de cobrador de impostos, eixo repressor (policialesco), distri­buidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade.

Conclusão: o Brasil tenta construir, lenta e gradualmente, desde o século XIX, o altar da Cidadania. Em 1881, tinha 12 milhões de habitantes, dos quais poucos eram imunes à ma­nipulação dos governos. Hoje, são 215 milhões de habitantes. E mais de 30 milhões de famintos. Milhares sujeitos à influência dos governantes. O que temos, hoje, em vez de Cidadania, é Estadania, a dependência do Estado, o favor, migalhas, esmola.

E o mundo? Algumas democracias evoluíram na linha dos direitos e deveres, como a norte-americana. Mas as margens da pirâmide cresceram em quase todos os lugares, com exceção de alguns países, como os escandinavos. E os regimes comunistas? Ora, trabalham com o capital. Caso da China, um capitalismo de Estado. Na Rússia, grupos empresariais se multiplicam. O capital é a mola do crescimento. Quem insiste em velhas teses está de farol baixo, casos da Venezuela e Cuba. A Coréia do Norte é uma redoma. O porto seguro é a social-democracia. Que inspira países europeus.

O comunismo é, portanto, uma quimera. Não há de sobreviver em um país com a dimensão continental como o nosso, com tantas riquezas, com a índole de um povo de sangue negro, indígena e português, e uma tradição que preza a criatividade, a liberdade, as livres manifestações e de uma alegria contagiante. Podemos compreender rompantes à direita e à esquerda como sinais de um tempo tempestuoso. Temos em nossa frente, a caminhada para o centro, saída eficaz para acomodar as placas tectônicas.

Em suma, quem vê comunista em cada esquina precisa correr urgente ao oculista.

*Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

Fonte: 

https://www.metropoles.com

O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar. (Clarice Lispector)

LUGARES

FORTALEZA - CEARÁ

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


O FATO DE O PORTUGUÊS SER ASSIM
--- Outra dúvida e que está caindo direto em concursos é quanto à contração da preposição com o artigo antes de um substantivo: Corrente de peso tem defendido a possibilidade de a União conceder isenções de quaisquer tributos no âmbito do Direito Internacional.  E. J. S., Cascavel/PR
--- Há um erro que volta e meia encontro em jornais e revistas: Apesar dos políticos serem corruptos, o Brasil progride. Como “os políticos” é o sujeito do verbo ser, não pode contrair-se com a preposição “de”. E a frase correta é: Apesar de os políticos serem corruptos... Francisco Leoncio Cerqueira, São Paulo/SP
Devemos começar observando a presença imprescindível do verbo no infinitivo [conceder, ser] nesse tipo de estrutura frasal. A contração pode ocorrer na seguinte sequência: preposição DE + artigo o, a + substantivo + INFINITIVO. Ou então DE + ele/ela + INFINITIVO.  Isso porque na fala há uma natural fusão do DE com a vogal seguinte, ficando DA, DO, DELE, DELA. Entretanto, pela gramática normativa, não se deve fazer isso na escrita porquanto “não existe sujeito preposicionado”. 
Assim, quando se diz, por exemplo, Está na hora da onça beber água, a onça, sujeito do infinitivo beber, fica precedida por uma preposição em desacordo com as normas gramaticais. Só que em alguns casos realmente não soa bem a separação da preposição, especialmente quando se tem uma frase feita. Dizer “Está na hora de a onça beber água” descaracterizaria a expressão. Por isso mantém-se a fusão [da]. Mas num texto formal (e nos concursos!) se trocaria a construção “Está na hora do governo intervir no câmbio” por “Está na hora de o governo intervir no câmbio”.
O Acordo Ortográfico que entrou em vigor no mês de janeiro/2009 reforça o uso gramatical: “Quando a preposição de se combina com as formas articulares ou pronominais o, a, os, as, ou com quaisquer pronomes ou advérbios começados por vogal, mas acontece estarem essas palavras integradas em construções de infinitivo, não se emprega o apóstrofo, nem se funde a preposição com a forma imediata, escrevendo-se estas duas separadamente: a fim de ele compreender; apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos pais serem bondosos; o facto de o conhecer; por causa de aqui estares (Base XVIII, 2º, b, Obs.)”.
O bom redator deve conhecer a matéria e ter critério no seu uso. Convém perceber que a maior parte dessas construções acontece com as expressões o/pelo fato de, apesar de, antes ou depois de, a possibilidade ou o direito de. A confirmar:
  • A participação dos alunos é obrigatória, apesar de eles poderem escolher a atividade.
  • Apesar de a Sars se mostrar altamente contagiosa, não se sabe ainda a velocidade de expansão da epidemia.
  • Outro ponto delicado é o fato de a droga ser injetável, gerando discussão sobre o manuseio e descarte das seringas infectadas.
  • Há rumores sobre a possibilidade de o grupo negociar sua rendição.
  • Mágoas, ele tem algumas, especialmente depois de a Justiça não ter levado em conta sua vida antes do crime.
  • Essa ação não elide o direito de o credor ver cumprida a liminar.
Nas frases em que está presente um substantivo tal como possibilidade ou direito é possível deixar a contração, porém repetindo a preposição: Essa ação não elide o direito do credor de ver cumprida a liminar. 
Embora malvista em situação formal, devo dizer que essa fusão se encontra até em bons textos, e no correr da leitura poucos reparam na sua “impropriedade”:  
  • Apesar do artigo 10 vedar...
  • Apesar da ação ter transcorrido há muitos anos...
  • Pelo fato do filho do autor ser menor de idade...
  • Antes da chuva cair, saímos.
Também se pode evitar essa situação trazendo o infinitivo para a frente do substantivo: o fato de ser a droga injetável; apesar de ter a ação transcorrido; antes de cair a chuva... 
Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

HINO RECUPERADO

José Horta Manzano

Estava lembrando da primeira vez que, num jogo do Brasil de Campeonato Mundial, percebi que nosso hino tinha sido truncado. Aconteceu faz umas três ou quatro Copas. A execução parou no “salve, salve”. Foi esquisito. Cioso do respeito aos símbolos da nação, cheguei a pensar que a vitrola tivesse enguiçado, como ocorria nos discos de antigamente. Depois me informaram que o problema não era de toca-discos, o encolhimento era decisão da Fifa. Como assim?

Pois é, a imensa (e bilionária) empresa que regula o futebol no planeta um dia decidiu que nenhum hino poderia mais passar de 90 segundos (um minuto e meio). O nosso, incluindo a introdução, excedia o prazo estipulado. Portanto, guilhotina nele!

Achei revoltante. A meu ver, a Fifa não é a instância adequada para determinar o tempo de execução de hinos nacionais. Podem decidir, por exemplo, que hinos não sejam mais tocados. Mas não faz sentido alocarem um tempo “tamanho único” para todos.

Essa é minha visão. O Brasil de 2014, ansioso por hospedar a Copa, passou por cima dessas miudezas. Não se avexaram e engoliram o hino truncado. Cutucado, o público deu o troco. Uma vez desligado o som nos estádios na altura do “salve, salve”, o povo continuou cantando a cappella, sem orquestra, num espetáculo de dar arrepio.

Este ano, talvez o leitor já tenha reparado, nosso hino voltou a ser cantado até o fim. Talvez alguém tenha feito uma reclamação à Fifa, argumentando que do “Ouviram do Ipiranga” até o “Pátria amada, Brasil” correm 95 segundos, ou seja, somente 5 a mais que o permitido. Não era pedir muito. Foi concedido.

Bom, graças à Fifa, já recuperamos o hino. Falta que nos devolvam a bandeira, que anda por aí, coitada, tomando chuva e envolvendo ombros zumbis.

Fonte: https://brasildelonge.com/

É preciso sentir a necessidade da experiência, da observação, ou seja, a necessidade de sair de nós próprios para aceder à escola das coisas, se as queremos conhecer e compreender. (Émile Durkheim)

LUGARES

GRINDELWALD - SUÍÇA

Grindelwald, comuna nos Alpes Berneses da Suíça, é muito usada como acesso à região de Jungfrau, com esqui no inverno e caminhadas no verão. É também frequentada como base para escalar a emblemática face norte do Monte Eiger. Gletscherschlucht, um desfiladeiro glacial nos arredores de Grindelwald, tem caminhos com sinalização, cachoeiras e paredes estriadas de pedra calcária. ― Google

DOCE VINGANÇA

Ruy Castro

Charles Aznavour, o cantor e compositor francês, volta a se apresentar no Brasil. Está para completar 93 anos e inacreditáveis 84 de carreira –porque, nascido em 1924, filho de artistas de palco, aos nove, em 1933, já era ator e cantor. Por muitos anos, lutou sem conseguir nada –ele próprio se achava feio, baixinho, sem voz, sem instrução, sem cultura e sem personalidade. Enquanto isso, a grande canção francesa do século 20 explodia ao seu redor.

Quando ele começou, Mistinguett já gravara "Mon Homme", mas não ainda "Je Cherche un Millionnaire". Lucienne Boyer, idem, já gravara "Parlez-Moi d'Amour", mas não "Chez Moi". Jean Sablon ainda iria gravar "Vous Qui Passez Sans me Voir" e "Insensiblement". E Charles Trenet, "Que Reste-t-il de Nos Amours", "La Mer" e "L'âme des Poètes". Tino Rossi nem sequer sonhava com "J'attendrai". Nem Edith Piaf com "La Vie en Rose", "Hymne à l'Amour" e "Non, Je Ne Regrette Rien".

Enquanto o jovem Charles continuava se esforçando para aparecer, estouraram Yves Montand com "Les Feuilles Mortes", Jacqueline François com "Sous Le Ciel de Paris", Patachou com "C'est Si Bon", Juliette Greco com "Rue des Blancs-Manteaux", Mouloudji com "Un Jour Tu Verras", Henri Salvador com "Dans Mon Île" e muitos outros. E, na linha dos grandes autores-cantores, surgiram Georges Brassens com "Le Gorille", Gilbert Bécaud com "Et Maintenant", Léo Ferré com "Avec Le Temps" e Jacques Brel com "Ne Me Quittes Pas". Era como se não houvesse espaço para ele.

Quando já estava quase desistindo, em 1960, aos 36 anos, algo o despertou. Começou com "Tu T'laisses Aller", seguiu com "Que Ce Triste Venise" e "La Bohème", e nunca mais parou. Tornou-se, definitivamente, Charles Aznavour.

E está até hoje no palco, talvez para se vingar da eternidade em que não foi ninguém.

Fonte: Folha de S. Paulo - 11/03/2017

FRASES ILUSTRADAS

 

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

GANHAMOS NO FUTEBOL, MAS A COREIA DO SUL TEM GOLEADO NO 'SOFT POWER'

Tony Goes

Influência cultural do Brasil no mundo hoje é menor que a do país asiático

Foi um belo jogo, não foi? Um primeiro tempo impecável, com tantos gols brasileiros que quase ficou monótono. No segundo tempo, a Coreia do Sul marcou seu gol de honra, mas nossa seleção dominou a bola quase o tempo todo e garantiu uma classificação tranquila para as quarta de final da Copa.

Estranho seria se fosse o contrário. Afinal, o Brasil ainda é o único pentacampeão do mundo, capaz de seduzir torcidas daqui a Bangladesh. Os coreanos são adversários de respeito, sem dúvida, e melhoram a cada ano que passa. Só que ainda não fazem parte da elite do futebol.

Mas existe outro clube onde a Coreia do Sul chegou há pouco tempo e já entrou para a área VIP: o do "soft power". Esse tal de "poder suave" nada mais é do que a influência cultural que um país exerce sobre os demais. Pode estar atrelado ao poder militar e ao poder econômico, como é o caso dos Estados Unidos. Ou não, como é o caso da pequena nação asiática.

Nos últimos cinco anos, os sul-coreanos emplacaram, entre outras façanhas, o primeiro longa em língua não inglesa a vencer o Oscar de melhor filme ("Parasita"), a banda de maior sucesso do mundo (BTS), a série mais assistida do streaming ("Round 6") e o reality show com mais versões internacionais ("The Masked Singer"). Enquanto isso, a culinária deles também se populariza. Hoje é fácil encontrar kimchi, a tradicional conserva apimentada coreana, em qualquer grande cidade do planeta.

Tudo isto não aconteceu por acaso. Essas conquistas todas são fruto de uma parceria sólida entre o Estado e a iniciativa privada. Os sul-coreanos investiram pesado em sua indústria cultural e agora colhem os resultados.

O curioso é que, até pouco tempo atrás, a grande potência emergente do "soft power" era o Brasil. Éramos tidos por muita gente como o país mais legal do mundo, com praias lindas, gente alegre, música irresistível e comida deliciosa. Só que não soubemos aproveitar essa boa vontade toda e perdemos espaço.

Há muitas causas para isso, mas uma delas é evidente: o governo que ora finda fez o que pôde para prejudicar nossa imagem internacional. Criminalizou a atividade cultural e chegou a vender o país unicamente como uma meca sexual –contanto que o turista seja homem e hétero, veja bem.

Nosso cinema minguou e parou de ganhar prêmios importantes. Nossas telenovelas perderam audiência para produções turcas e "doramas" coreanos. Anitta precisou cantar em espanhol para penetrar no mercado americano.

Mas a partida desta segunda-feira (5), por incrível que pareça, me encheu de esperança. Porque foi mais do que só um jogo de futebol. A criatividade e a ginga brasileiras explodiram nas dancinhas de comemoração dos nossos jogadores. Nosso humor irreverente varreu as redes sociais, com juras de amor eterno a Neymar –mesmo ele tendo pintado o cabelo da cor de um bife folheado a ouro. A estilosa máscara negra do atacante coreano Son não é páreo para a nossa malemolência.

Somos maiores que a Coreia do Sul em área, em população e, por enquanto, no PIB. Falamos uma língua que não é tão isolada quanto a deles. Inventamos a caipirinha, hoje saboreada em todos os continentes. Ah, sim, e de vez em quando ainda jogamos futebol.

Ganhemos o hexa ou não, o Brasil está de volta. Assim como a Copa, o "soft power" também está ao nosso alcance. Te cuida, Coreia.

Fonte: Folha de S. Paulo
Somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. (Rubem Alves)

LUGARES

BUENOS AIRES - ARGENTINA
(Plaza Lavalle)

Tribunales é uma região com vários destaques, dentre deles a Plaza Lavalle, uma das 240 praças espalhadas por Buenos Aires. 

FRASES ILUSTRADAS

 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

Gustavo Krause

Mais do que prática lúdica, o futebol é uma metáfora da vida

Eduardo Galeano (1940-2015), no livro Futebol – Ao sol e à sombra, reproduz o diálogo de uma jornalista com a teóloga alemã Dorothee Solle: – Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade; – Não explicaria – respondeu – daria uma bola para que jogasse.

Os terraplanistas que me perdoem, mas o futebol, o maior espetáculo da terra, corre atrás de uma esfera, a bola que encanta e emociona o mundo inteiro. Com mais de 200 países associados, a FIFA é a maior multinacional do globo e um negócio que emprega direta ou indiretamente mais de meio bilhão de trabalhadores.

O que explica esta gigantesca dimensão do futebol? Na origem, o incipiente processo de industrialização alicerçado nos valores da produtividade e da legalidade. Assim, o futebol penetrou na sociedade capitalista e a economia abraçou o futebol.

Outro fator relevante: regras limitadas (17), estáveis e universais estabeleceram o arcabouço institucional para o esporte que já nasceu global.

Mais dois fatores se somam: esporte de acesso democrático com margem de imprevisibilidade e surpresa suficiente para mobilizar massas e despertar fortes emoções. Mais do que prática lúdica, o futebol é uma metáfora da vida

O genial Nelson Rodrigues ensinou: “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

Embora tenha nascido branco, eurocêntrico, elitista, o futebol tornou-se mestiço, global, popular, criou identidades e personagens para além dos jogadores, entre elas, o torcedor, o juiz, o treinador e o “cartola”.

Com efeito, os personagens têm um complexo papel a ser exercido e, no seu conjunto, existe um permanente esforço para utilizar a diversão e o encantamento do jogo como instrumento de propaganda, em especial, nos regimes autoritários: Itália (1938), Brasil (1970), Argentina (1978) Rússia (2018). No Qatar, o desrespeito aos direitos fundamentais da pessoa revela ao mundo a face cruel do poder ilimitado e, em contrapartida, o ativismo político em favor das democracias.

Quanto ao futebol jogado, ficam algumas lições: a força, a velocidade, o sistema de marcação, a obediência tática demostram, de um lado, o nivelamento dos padrões coletivos e, de outro, confirmam a necessidade dos talentos individuais que fazem a diferença.

O contágio do ambiente planetário parece dar razão a Bill Shankly (ex-técnico do Liverpool): “Algumas pessoas pensam que o futebol é tão importante quanto vida e a morte. Elas estão muito enganadas. Eu asseguro que ele é muito mais sério do que isso”.

Fonte: https://www.metropoles.com
Não compares tua vida com a dos outros. Não tens nem ideia de como será seu caminho. (Regina Brett)

LUGARES

OBERNAI - FRANÇA
Obernai é uma comuna francesa na região administrativa de Grande Leste, no departamento Baixo Reno. Estende-se por uma área de 25,76 km². Em 2010 a comuna tinha 11 799 habitantes. Aqui terá nascido Odília da Alsácia, em 660, e que é venerada como sendo a Padroeira da Alsácia pela Igreja Católica. Wikipédia

DIAS NULOS

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Há dias em que você não existirá. Empate sem gols, público vaiando; céu nublado sem sol e estrelas, abafado.

Dias em que não fará nenhuma diferença acordar. Nada dará certo. Nada vai funcionar. Nenhuma palavra trará descanso. Nenhuma atitude será compreendida.

Dias de exorcismo e penitência. Só rezará para que termine logo. Não contará depois em seu calendário, não aparecerá em sua trajetória como tempo de serviço.

Serão dias descontados por Deus no final.

Há dias em que desaparecerá, que passará o tempo inteiro resolvendo um problema que não criou e que é mera vítima. Não há como combater o mal silencioso. É a esposa que decidiu que você não é amoroso, é um colega que colocou a culpa em você por uma tarefa malfeita, é um amigo que ficou ofendido com uma piada, é um familiar que coloca para fora um trauma antigo. Discutirá horas a fio no telefone, suspenderá reuniões, queimará a agenda, almoço e jantar desaparecerão do cardápio. Restaurar a paz dependerá de uma longa guerra de nervos. Ou seja, sofrerá o maior estresse para reconquistar o que já tinha antes.

A luz vem torta e não se endireita por mais que demonstre paciência e generosidade. A educação é um amortecedor da queda, não impede o tombo, apenas suaviza os ferimentos.

É o dia fatídico em que não cumprirá aquilo que determinou na noite anterior. Viverá se explicando e justificando o seu valor.

A pedra enfileirada do dominó escapou da fila indiana levando todas as pedras organizadas da mesa. Se o liquidificador quebra, a máquina de lavar e de secar estragam juntas.

Aceite que dói menos. É um excesso de azar que se assemelha a maldição. Alguém bate em seu carro por bobagem, arranha na verdade, você não é culpado, mas sacrifica o trabalho, corre atrás de três orçamentos em diferentes oficinas e ainda precisa torcer para que o causador do acidente assuma a responsabilidade.

Ou esquece simplesmente de pagar a conta da luz – esquecer não, caiu do débito em conta – e é premiado com o escuro por 48 horas, precisando tirar segunda via e aplacar o olhar interrogador e desconfiado dos filhos jurando que você faliu.

Prepare-se para não existir alguns dias. Nem sempre a vida é nossa.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

 

domingo, 4 de dezembro de 2022

ESPELHO, ESPELHO MEU

Fernando Albrecht

Entre as descobertas mais importantes da história está o espelho de vidro. Parece exagero, mas não é.

Desde a antiguidade o Homem buscou seu retrato, primeiro na água parada. Depois, em materiais polidos.

A primeira vez com uma visão razoável, mas ainda insuficiente, foi quando poliram os metais. Os primeiros surgiram na antiga Suméria, hoje Iraque, placas de bronze polidas com areia.

O de vidro foi invenção do químico alemão Justus von Liebig, que usou nitrato de prata no vidro, em 1830.

Se alguém pensa que espelho é só para dar a real ou servir para narcisos em ataques de vaidade está enganado. A medicina precisa deles, os telescópios também, entre outros milhares de exemplos que, sem eles, o mundo não seria como é hoje.

São incontáveis os filmes e livros que tratam dele. Por enquanto, deixo a parte útil de lado, mas sempre achei fascinante como dele se fazem piadinhas. Como a crença para distinguir o sexo das moscas. Se forem fêmeas, pousam no espelho; se forem machos, pousam em escrivaninhas.

Rembrandt e outros pintores dos Países Baixos usavam espelhos para pintar autorretratos e cenas mais complexas. Do ponto de vista prático, a qualidade de um espelho pode ser medida colocando-se a ponta da unha do polegar nele. Quanto menor a distância da imagem, melhor ele é. Colocados um de frente para outro, teremos a imagem reproduzida ao infinito. É o que mais espelha – sem trocadilho – o infinito. A imagem é cada vez menor, mas até que ponto?

O espelho serve tanto para elevar a autoestima como para piorá-la.

Da primeira vez que vemos nossa imagem refletida, reagimos com curiosidade na medida que vamos crescendo, nos olhamos para ver se estamos bonitos. Quando envelhecemos, queremos distância dele

Fonte: https://fernandoalbrecht.blog.br