segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

LUGARES

DOL-DE-BRETAGNE - FRANÇA

O Menhir de Champ-Dolent é um menir, ou pedra ereta, localizado em um campo fora da cidade de Dol-de-Bretagne. É a maior pedra em pé da Bretanha e tem mais de 9 metros de altura. Wikipedia (inglês)

VOE SOLO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Cheguei faz pouco de uma escapada: passei uma semana sozinha em Nova York. Cruzei por lá com outros viajantes desacompanhados, gente do mundo todo, dos 18 aos 80, mas parece que essa realidade ainda causa desconforto para aqueles que não se imaginam fazendo o mesmo. Na volta, ao entrar no táxi que me trouxe do aeroporto pra casa, o motorista puxou assunto e me questionou se eu gostava de viajar desse modo. Prefiro viajar com namorado, respondi, mas, se estou num período de entressafra, vou igual e gosto muito. Ele sentenciou: Você pensa que gosta.

Do alto de seu desconhecimento a meu respeito, ele decretou que eu mentia para mim mesma. Petulância facilmente explicável: é mais fácil duvidar do desprendimento dos outros do que assumir a própria incapacidade de se satisfazer consigo próprio.

Vivemos num mundo em que a independência, a liberdade e a autonomia são hiperconsideradas. É o que queremos para o país que a gente vive, é o que desejamos de uma profissão, é o que pretendemos para nossos filhos ao se tornarem adultos. Valores que dignificam o caráter e que tornam as relações mais íntegras e verdadeiras. No entanto, as pessoas ainda se sentem intimamente aterrorizadas com a perspectiva da solidão, mesmo que momentânea.

Em Nova York, conversando com uma jornalista inglesa, viajando sozinha também, falamos sobre a delícia de caminhar pelas ruas sem pressa, entrando e saindo de galerias de arte, de lojas, de parques, no total controle do nosso tempo e da nossa vontade. De se permitir, em um museu, ficar 10 minutos em frente a cada quadro, ou passar por todos dando uma rápida conferida e tchau.

De ir a shows, de pegar o metrô e de alugar uma bicicleta sem precisar submeter-se às concessões habituais de quem viaja em dupla ou com um grupo. Discordamos apenas sobre as refeições: almoçar sozinha num bistrô, com mesa na calçada a fim de testemunhar o passeio dos outros, me diverte, mas troco o jantar por um piquenique no quarto do hotel, acompanhada de um bom livro. Já a inglesa disse que era a parte que mais gostava – à noite, escolhia um restaurante estrelado e proporcionava a si mesma um banquete de rainha sem o menor constrangimento.

Por que a maioria das pessoas não consegue nem cogitar uma jornada a sós? Os que se sentem atraídos pela ideia dizem que é por falta de coragem, mas o mais provável é que seja por vergonha. Nem pensar em dar a impressão de ser um abandonado por Deus, de não ter um mísero amigo com quem se aventurar pelo mundo, de ter que enfrentar o olhar piedoso dos casais. Ninguém acreditará que foi uma escolha, e sim a única alternativa de um rejeitado.

Enquanto se dá trela para a opinião dos outros, melhor seria aceitar que você, o tempo inteiro, está na melhor companhia que se pode desejar.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 11 de dezembro de 2022

CRETINICE

José Horta Manzano

Em matéria de futebol, a catástrofe está sempre à espreita. Ontem foi o dia da Suíça, que perdeu para Portugal com placar caudaloso: 6 x 1. O choque equivale ao ‘mineiraço’ brasileiro de 2014. Vou aproveitar para publicar um artigo que escrevi alguns anos atrás. Traz curiosidades do país alpino.

Você sabia?

Todo país, por menor que seja, sempre dá uma contribuiçãozinha à humanidade. É natural que países maiores e mais populosos sejam responsáveis pela criação de maior número de palavras internacionais, produtos, conceitos, invenções. Mas os pequenos também têm vez.

A Suíça, por exemplo, apesar do território exíguo e da população diminuta, está por trás de ideias, objetos e conceitos que se espalharam pelo mundo. Vamos fazer um teste pra ver se você sabe.

Gruyère
É queijo tipicamente suíço conhecido por ser cheio de buracos. Ingrediente indispensável em qualquer fondue. Certo?

Depende. Produzido na região de Gruyère, é tipicamente suíço, sem dúvida. É o ingrediente chave de toda boa fundue. No entanto, diferentemente do que muitos acham, o queijo Gruyère não tem furos. É lisinho, lisinho. Quem tem furos é o emental, produzido no Emmenthal (Vale do Rio Emmen).

Swatch
É criação suíça. Certo?
Certo. Foi bolado pelo grupo relojoeiro que hoje leva o nome do modelo: Swatch.

Velcro
É invenção suíça. Certo?
Certo. Foi inventado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990).

Albert Einstein
Era cidadão suíço. Certo?
Certo. Nasceu no Império Alemão, mas naturalizou-se suíço aos 22 anos. Adquiriu outras nacionalidades ao longo da vida, mas conservou a suíça até o fim.

Cuco
O relógio de pêndulo conhecido como cuco é antiga invenção suíça. Certo?
Errado. O cuco foi criado na Alemanha ‒ mais especificamente na Floresta Negra ‒ no século 18.

Polilinguismo
Todos os suíços são poliglotas ou, pelo menos, bilíngues. Certo?
Errado. O país é composto de cantões. Cada um deles tem sua língua oficial. Alguns têm até duas. A maioria dos suíços, no entanto, fala uma única língua. Mais curioso ainda é o fato de a língua inglesa estar-se impondo, cada vez mais nitidamente, como segunda língua. Hoje em dia, é comum ver dois suíços de língua materna diferente se comunicarem em inglês.

Cretinismo
A palavra cretino é de origem suíça. Certo?
Certo. O distúrbio conhecido como cretinismo, que perturba fortemente o desenvolvimento físico e mental, é causado principalmente por carência de iodo. Nos tempos de antigamente, os habitantes de aldeias de montanha salgavam os alimentos com sal gema (não marinho), pobre em iodo. A incidência de distúrbios ligados ao cretinismo era elevada.

No Valais, cantão montanhoso e então pouco desenvolvido, a patologia ocorria com frequência. O povo chamava os infelizes doentes de “pauv’ crétin” ‒ pobre cristão, no dialeto local. Descoberta a origem da doença, iodo passou a ser adicionado ao sal. O distúrbio desapareceu, mas o nome ficou. Não só ficou, como se instalou em grande número de línguas. Assim:

Português: cretino
Russo: кретин (kretin)
Inglês: cretin
Sueco: kretin
Polonês: kretyn
Lituano: kretinas
Húngaro: kretén
Francês: crétin
Finlandês: kretiini

Curiosidade final
Corrupção, corrupto & derivados não são de origem suíça. Nem brasileira, diga-se logo. Corrupção é mais velha que o rascunho da Bíblia. A raiz rup vem de longe. Encontrada já no sânscrito, passou às línguas europeias. Traduz qualidade violenta, súbita ou negativa, como romper, despedaçar, irromper, roubar.

Publicado originalmente em 23 jun° 2016.

Fonte: brasildelonge.com

SALVADOS DO INCÊNDIO

Fernando Albrecht

Quando o governo de Portugal devolveu ao Brasil os restos mortais do Imperador D. Pedro I, aqui se resolveu fazer uma peregrinação sentimental para que o povo pudesse reverenciar a figura tão ilustre da nossa história. E as cinzas de D. Pedro I, transportadas em um avião da FAB, devidamente acondicionadas numa bela urna funerária, passaram pelas principais capitais do país, onde o povo respeitosamente fazia fila para vê-las.

Quando chegou a vez de Porto Alegre, uma emissora de rádio resolveu transmitir o acontecimento. E o locutor designado para narrar a chegada da urna na Base Aérea de Gravataí, repetia constantemente:

– Os restos mortais de Dom Pedro I…

Mais um pouquinho de conversa e lá vinha de novo ele.

– Os restos mortais de Dom Pedro I…

Lá pelas tantas, o produtor do programa chamou a atenção do locutor.

– Olha, estás repetindo muito estes restos mortais. Vê se usa um sinônimo.

Ele achou.

– Transmitindo aqui da Base Aérea a chegada dos destroços de Dom Pedro I…

(Extraído do livro “Histórias do Rádio Heroico”, de Rubens Wagner, gentileza de Antônio Goulart) 

Fonte: https://fernandoalbrecht.blog.br
Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. (Eduardo Galeano)

LUGARES

FÉNIS - ITÁLIA
O Castelo de Fénis é uma antiga fortificação localizada na comuna de Fénis, na região italiana do Vale de Aosta. Wikipédia

PROVOCAÇÃO E PROVA

Ruy Castro

Se Roda Viva não for de Chico Buarque, de quem seria?

Eduardo 03 Bolsonaro usou numa postagem uma canção de Chico Buarque, "Roda Viva", sem pedir autorização ao autor. 03 detesta Chico Buarque por tudo que ele representa na cultura e deve odiar "Roda Viva", um hino contra a ditadura que 03 defende. Donde seu uso de "Roda Viva" foi uma provocação. Fez isto para afrontar Chico Buarque e obrigá-lo a um processo. O processo aconteceu. E, surpreendentemente, uma juíza está dando ganho de causa a 03 por Chico Buarque "não poder provar sua autoria de ‘Roda Viva’".

"Roda Viva" foi título e tema de uma peça de teatro de Chico Buarque que estreou no dia 15 de janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, no Rio. Eu morava então no Solar da Fossa, vizinho do teatro. Minha colega do Correio da Manhã, Germana de Lamare, era amiga de José Celso Martinez Correa, diretor do espetáculo. Todo fim de tarde, naquele verão de 1967/68, ele me apanhava no Solar e íamos ver os ensaios de "Roda Viva".

Lembro-me da noite em que o elenco, com Marieta Severo, aprendeu a canção. Era impossível ficar indiferente à letra e ao seu ritmo de ciranda –uma ciranda adulta, inexorável, sinistra. Ao escutá-la ainda crua, ninguém ali se preocupou em pedir provas a Chico Buarque de que a canção era dele.

Mesmo porque, se não fosse, de quem seria? Todos os outros grandes nomes estavam ocupados naquele incrível 1968: Tom Jobim compondo (com o próprio Chico Buarque) "Sabiá"; Caetano Veloso, "Baby"; Geraldo Vandré, "Caminhando"; Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, "Sei Lá, Mangueira"; Cartola, "Tive, sim"; Antonio Adolfo e Tiberio Gaspar, "Sá Marina"; Gilberto Gil e Capinam, "Soy Loco por Ti, América"; muitos mais. Donde "Roda Viva" só podia ser dele.

Ninguém teve mais canções perseguidas pela ditadura do que Chico Buarque. Ao proibi-las, os censores não lhe exigiam provas de que ele era o autor delas.

Fonte: Folha de S. Paulo

WHAT A WONDERFUL WORLD

PLAYING FOR CHANGE IS MOVEMENT

FRASES ILUSTRADAS

 

sábado, 10 de dezembro de 2022

MAIS FALSAS BOAS IDEIAS

Ruy Castro

O ser humano é infalível: sempre erra pensando estar fazendo a coisa certa

Ganhe quem ganhar esta Copa do Mundo, recomenda-se ao vitorioso trancar o troféu no cofre e só deixar uma cópia em exposição. Em 1970, quando o Brasil ganhou no México a posse definitiva da Taça Jules Rimet, a CBD, hoje CBF, fez o contrário. Anos depois, gatunos adentraram sua sede no Rio e levaram a taça autêntica, enquanto a cópia ficou a salvo no cofre. Ali os cartolas descobriram que tinham adotado a falsa boa ideia.

Volta e meia registro aqui novas ocorrências desta infalível condição humana: a de errar pensando estar fazendo a coisa certa. Nos anos 1930, por exemplo, o governo adotou 25 de novembro como o Dia do Rádio. E como comemorá-lo? Com uma superprogramação especial? Não. Fazendo com que todas as estações do país passassem o dia fora do ar.

Já na inauguração da TV Tupi, em São Paulo, em 1950, Assis Chateaubriand pensou estar lançando um navio e deu com uma garrafa de champanhe na câmera. Infelizmente, a câmera não era um navio e se despedaçou. E eles só tinham duas.

Em 1940, o Rio decidiu construir um estádio gigante de futebol e pediu projetos aos arquitetos. O jovem Oscar Niemeyer apresentou o seu. Para ele, o lugar ideal seria a praça da Bandeira. A parte superior do estádio estaria no nível da rua, de modo que o gramado ficaria abaixo do nível do mar. Por sorte, rejeitaram-no: a praça da Bandeira sempre foi palco de tremendas inundações, por causa dos vários rios em seu subsolo. Tivéssemos ali um estádio e o Brasil seria campeão de waterpolo, não de futebol.

E, em 1961, o presidente Jânio Quadros, incapaz de governar com o Congresso, renunciou ao cargo. Era um blefe, porque ele esperava ser reconduzido ao trono "nos braços do povo". Mas o povo, estupefato, não se mexeu. O Congresso aceitou a renúncia e ele ficou chupando o dedo.

Neste caso, os presidentes aprenderam. É só comprar o Congresso e está resolvida a questão.

Fonte: Folha de S. Paulo
Seja gentil, pois todos que encontrar estão enfrentando uma dura batalha. (atribuído a Platão, c. IV a.C.)

LUGARES

ETTAL - ALEMANHA

Ettal é uma pequena cidade da belíssima Rota dos Alpes, no distrito de Garmisch-Partenkirchen, com menos de 1.000 habitantes. Mesmo tão pequena, encanta com tanta beleza natural e duas atrações incríveis desta rota: o magnífico Palácio Linderhof e a Abadia de Ettal.

UMA NOVA MODALIDADE ESPORTIVA?

Aldo Bizzocchi

Em tempos de Copa do Mundo, meu leitor Paulo Gilberto sugere uma nova modalidade esportiva, tipicamente brasileira. Vejamos o que ele diz:

Bom dia, Mestre,

O Brasil é um país cheio de excentricidades.
Deve ser, por exemplo, a única nação em que se “corre atrás do prejuízo”, modalidade esportiva não inserida, ainda, nos jogos olímpicos mundiais.
Caso veja alguma importância nisso, gostaria de conhecer sua opinião, preferentemente em comentário a postar no DIÁRIO DE UM LINGUISTA.

Fraterno abraço do admirador do seu trabalho.

Paulo Gilberto Morais dos Santos

Pois é, não é só o Paulo que reclama dessa modalidade esportiva esquisita, “correr atrás do prejuízo”: o famoso Prof. Pasquale Cipro Neto já havia apontado para essa suposta incoerência, argumentando que o que tem lógica fazer em caso de prejuízo é “correr atrás do lucro”.

Na verdade, quem está no “preju” precisa primeiro saldar o rombo em sua contabilidade, zerar o saldo negativo para só depois pensar em lucrar. E é aí que se pode intuir a origem dessa expressão. O indivíduo devedor precisa “correr atrás”, isto é, trabalhar, batalhar, se esforçar para quitar a dívida e assim livrar-se do prejuízo. Nesse sentido, até é plausível compreender a motivação de quem cunhou essa expressão.

Expressões idiomáticas e gírias nem sempre têm muita lógica, mas o fato é que “pegam”, ou seja, caem no gosto dos falantes, que passam a replicá-los como vírus sem muito critério: ninguém pára para pensar se essa ou aquela expressão tem lógica; o que importa é que ela dá conta do recado, vale dizer, expressa bem o que se quer dizer.

Muitos sabichões tentam “corrigir” certos provérbios e expressões idiomáticas, alegando que eles não têm lógica. Alguns casos, de tanto serem reproduzidos na mídia, acabaram famosos. Como exemplos temos “Quem tem boca vai a Roma”, que os sabichões corrigem para “Quem tem boca vaia Roma”. Ora, qual o sentido de vaiar Roma? Talvez os judeus dos tempos em que a Palestina estava ocupada pelos romanos tivessem algum motivo para vaiar as tropas romanas que desfilavam por seu território, mas qual ensinamento tiraríamos desse provérbio hoje?

Ao contrário, “Quem tem boca vai a Roma” nos ensina que, se estamos perdidos, basta usar a boca para pedir informações e assim chegar sem erro ao nosso destino.

Outro caso de correção de provérbio é “Quem não tem cão caça com gato”, “corrigido” para “Quem não tem cão caça como gato”, isto é, sozinho (supostamente, os gatos caçam sozinhos, mas, que se saiba, a maioria dos animais faz o mesmo). Só que a expressividade – e o efeito humorístico – do dito popular está justamente na substituição do cão pelo gato, que não é o animal mais indicado para levar numa caçada. Em resumo, o que o ditado quer dizer é: se você não tem os recursos mais adequados para realizar uma ação, utilize qualquer outro disponível.

Outro dia, minha esposa me repreendeu quando proferi o adágio “A raposa perde o pelo, mas não perde o vício”, dizendo que o correto é A raposa perde o pelo, mas não perde o viço”. Ora, nessa versão “corrigida”, o que se tem é um elogio à estética da raposa: mesmo pelada, ela continua viçosa. Só que o sentido do provérbio é outro: por mais que seja punido, o indivíduo de mau caráter sempre reincide em seus malfeitos. Trata-se da constatação desalentada de que o instinto maléfico ou criminoso é incorrigível.

O Prof. Pasquale também questionou a expressão “risco de vida”, alegando que o mais sensato é dizer “risco de morte”, já que se trata de um alerta para situação perigosa em que o indivíduo descuidado corre o risco de morrer. Ok, nada contra “risco de morte”, mas a expressão “risco de vida” foi cunhada pensando-se no risco que a vida corre em situação de perigo; trata-se, pois, do risco de perder a vida. Portanto, a meu ver, ambas as formas fazem sentido.

Há ainda aquela polêmica sobre se “cuspido e escarrado” não seria, na verdade, uma corruptela de “esculpido em carrara”: “Fulano é seu pai esculpido em carrara” (subentendido que carrara é o mármore proveniente da cidade italiana de Carrara). O problema é que essa expressão existe também em diversas outras línguas, inclusive em italiano, idioma do país onde fica Carrara. E em todas essas línguas, o que há são palavras equivalentes a “cuspido” ou “escarrado” e nenhuma menção ao mármore ou a escultura.

Enfim, a sabichonice por vezes é mais realista do que o rei e quer ensinar o padre-nosso ao vigário. Nuns poucos casos ela acerta, como na expressão “ter bicho carpinteiro”, que, muito provavelmente, é corruptela de “ter bicho no corpo inteiro”.

Quanto a “correr atrás do prejuízo”, nada impede que os inconformados com essa nova modalidade olímpica usem em seu lugar “correr atrás do lucro”. Mas o fato é que, lógicas ou não, as expressões idiomáticas se consolidam e sobrevivem por mais que se as combata. Ou seja, cada um corre atrás do que quiser.

Fonte: https://diariodeumlinguista.com

FRASES ILUSTRADAS

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

PROTESTO PALERMA

José Horta Manzano

A ilustração mostra a entrada do célebre Teatro alla Scala, de Milão. Essa porcariada que aparece no chão não é resultado de acidente em que o andaime bambeou e o balde do pintor se espatifou junto ao meio-fio. Antes fosse. Vamos voltar o filme e contar a história.

Ontem na Scala, teatro italiano de maior prestígio, era dia da abertura da temporada lírica. No programa, a ópera Boris Godunov, do compositor russo Modest Mussorgski. Personalidades importantes tinham confirmado presença: o presidente e a primeira-ministra da Itália, assim como Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia.

O ambiente já estava meio tenso porque, dias antes, o governo da Ucrânia havia protestado contra o espetáculo. Visto que o autor da obra era russo, o governo de Kiev se arrepiou e disse que apresentar ópera russa era propaganda para a guerra de Putin. O argumento é fraco e distorcido, mas assim mesmo uns 30 ucranianos estavam postados diante do prédio no horário da ópera, prontos para se manifestar.

A direção do teatro explicou que uma apresentação de ópera não se monta da noite para o dia. A construção dos cenários, a preparação da orquestra, a contratação dos coristas e dos figurantes, o quebra-cabeça de conciliar a disponibilidade dos solistas – tudo isso tem de ser pensado com anos de antecedência. Quando a guerra começou, a montagem de Boris Godunov já estava contratada havia anos.

Um grupelho de “ativistas climáticos” resolveu bagunçar ainda mais o coreto. Meia dúzia de turbulentos defensores da ecologia, desses que invadem museus e grudam a mão em quadros preciosos, decidiu agir. O objetivo, segundo eles, é chamar a atenção das autoridades para as prioridades climáticas. Mas suas ações desmentem a alegada pureza de intenções.

Na inconsciência de seus jovens anos, os ativistas não se deram conta de que, ao despejar baldes de tinta na frente do prédio, estavam agredindo a natureza que juram defender. Não aprenderam que toda ação traz consequências. Aqui estão algumas delas.

Funcionários do teatro ou da prefeitura tiveram de passar horas esfregando as marcas a fim de deixar o local tinindo para o espetáculo da noite. Para limpar tinta, costuma-se usar aguarrás (essência de terebentina), produto químico tóxico e altamente inflamável.

Uma vez esfregada a fachada, a aguarrás entra pelo bueiro que só está ali para recolher água de chuva. Não sei como funcionam os esgotos de Milão, mas fato é que, mais cedo ou mais tarde, essa água poluída vai acabar despejada em algum lugar, provavelmente um curso d’água. Cursos d’água costumam ter peixes e outras criaturas vivas. Águas pluviais não trazem problemas para a vida animal, mas terebentina, sim.

O resumo da história é que os figurões vieram e a ópera pôde ser apresentada. Os protestos ucranianos não afetaram a noitada. A aguarrás não matou nenhum humano mas, quanto aos peixes, não se tem notícia.

Fonte: brasildelonge.com
Uma biblioteca é uma das mais belas paisagens do mundo. (Jacques Sternberg, jornalista belga)

LUGARES

STRESA - ITÁLIA

Stresa é uma comuna italiana da região do Piemonte, província do Verbano Cusio Ossola, com cerca de 4.820 habitantes. Estende-se por uma área de 33 km², tendo uma densidade populacional de 146 hab/km². Wikipédia

MR. MILES


10 situações que podem atrapalhar uma viagem
De sua escrivaninha no Condado de Essex, nosso bravo viajante enviou sua correspondência em uma carta escrita com tinta azul real lavável. "Não se preocupem, my friends — disse ele a esse caderno — Está tudo muito consolidado porque usei um mata-borrão novinho em folha".

A seguir, a pergunta da semana:
Mr.Miles: gostaria de saber o que pode estragar uma viagem?
Tânia Ferrarezi, por email

Well, my dear, vou tentar dar respostas que sirvam a todos, aproveitando sua ótima pergunta. However, prefiro o verbo "atrapalhar" a estragar.

1- Falta de informação prévia: as you know, sem lição de casa, pode dar tudo errado. Você pode viajar para uma praia na época de furacões, pode querer ver montanhas quando a névoa as encobre, pode cometer toda a sorte de enganos. E, quando no destino, desinformado, o viajante pode passar ao lado de um marco histórico de relevância sem sequer observá-lo. Pode escolher um restaurante turístico com comida esquentada em microondas que fica ao lado de outro estabelecimento que mereceria ser visitado. And so on.

2- Não praticar o desapego: quem não consegue deixar para trás a sua casa, a sua cidade e seus amigos costuma sofrer de um mal, sometimes strong, que vocês chamam de saudade. É preciso viajar aproveitando cada minuto. E lembrar-se que, ao voltar, você terá muito a dizer à quem ama.

3 - Falta de humildade: quem viaja convencido de que sabe muito e tem pouco a aprender, está jogando seu dinheiro fora. O mundo existe para quem está disposto a ganhar novos conhecimentos e novos ângulos de visão a cada momento de sua vida. Mesmo que ela seja tão longa quanto a minha.

4- Medo excessivo: qualquer jornada é melhor para quem não se assusta com tudo. Quem não teme o idioma estanho, o tempero diferente, as ruas com mão invertida, o modo como os locais vivem, pensam e, eventually, rezam. Cautela, of course, é parte do que se deve levar na bagagem. Mas se ela for excessiva, eu tomaria antes um Rivotril — ou o remédio que seu médico prescrever.

5- Jogo de cintura: unfortunately, acontece de você chegar a um destino e ter de enfrentar uma greve, uma chuva prolongada ou muitas obras de restauração (Roma é campeão nesse quesito, by the way). Os assim chamados cinturas-dura tenderão a reclamar do lugar, a crer que ele sempre será desagradável. Muitos vão jurar que não voltam. Quem tem, as you say, "molejo", saberá tirar proveito desses pequenos dissabores e inverter a perspectiva.

6- Problemas de relacionamento: não viaje com pessoas que você não conheça muito bem. Em situações de emoção e tensão, como as que ocorrem, thank God, durante um roteiro qualquer, as pessoas podem tornar-se irritadiças, podem deixar de compartilhar os mesmos gostos, podem, mesmo, chegar a um rompimento definitivo. E isso inclui, I'm sorry to say, casais e velhos amigos que nunca antes viajaram juntos.

7- O acaso: um acidente, um assalto ou uma doença inesperada podem, lamentavelmente, comprometer suas férias. Lembre-se, however, que são obras exclusiva do acaso. Os mesmos problemas poderiam ocorrer se você ficasse em seu próprio bairro.

8- Sentimentos nacionais exacerbados: não é agradável para quem recebe sentir que o viajante está, durante todo o tempo, comparando e exaltando seu país. "Nossa comida é muito melhor", "nosso frio é mais tolerável" e outros comentários do mesmo quilate não são, no mínimo, elegantes. We say polite.

9- As idiossincrasias: also known as "frescuras". Não querer provar algo novo, não querer ver um museu por considerá-lo, antecipadamente, uma chatice, não querer entrar em um mercado com medo de ser assaltado; não aceitar frequentar banheiros orientais (que usualmente só tem um espaço para os pés ou que, em lugar de papel, oferecem um balde d'água), não entrar em um barco por temer enjoar ou em uma caverna por temer a claustrofobia. Em outras palavras: deixar que suas frescuras pessoais ultrapassem o seu desejo de conhecer, pode atrapalhar bem uma viagem.

10- Incidentes no transporte: filas excessivas nos aeroportos, guardas desagradáveis procedendo a revistas humilhantes, voos mal-servidos ou com turbulência exagerada. Você vai superar tudo isso. Mas que atrapalha, ah, atrapalha mesmo.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS