sábado, 19 de agosto de 2017

MR. MILES


A praga bíblica que se espalha

Alguns leitores já nos escreveram pedindo o número do celular de nosso grande viajante. Pois na resposta da correspondência desta semana, mr. Miles deixa bem claro o que pensa a respeito.

Mr. Miles, o senhor aderiu aos telefones celulares para facilitar sua comunicação em viagens?
Otávio Conucci, por email

Well, my friend: há alguns anos atrás, essa pergunta não faria o menor sentido. Eu não tinha esse aparelhinho diabólico, porque tenho horror a traquitanas deselegantes, que — mais que isso — comprometem a comunicação pessoal, substituem amizades ao vivo e, of course, são um incômodo em bares, restaurantes, cinemas, teatros ou óperas. O pior de tudo, dear Oswald, é que os celulares ditos "inteligentes", mas, de fato, nada cultos, entraram no dia-a-dia das pessoas, atropelando, como máquinas do apocalipse, a civilidade humana. Hoje, my friend, as pessoas vão à lanchonetes com amigos e não trocam palavras com seus pares. Eles estão muito ocupados em caçar desenhos japoneses, acompanhar suas redes sociais — que não socializam e sequer aproximam e, claro, banalizar a arte da fotografia a níveis de baixa qualidade jamais alcançados. Meu amigo Melquiades, que é jornalista, comemora — como se fosse seu sucesso — o número de curtidas em sua revista. Não informa, however, que ele tem uma assessoria de imprensa para fazer o trabalho ou que ele paga centenas de dólares por mês para obter curtidas de qualquer um, incluindo indios inuit do norte do Canadá.

Ou seja: ele já não se importa mais com o que faz, mas apenas com o que repercute.

However, voltando à sua questão, fui obrigado a aderir à maldita maquininha porque muitos de meus amigos simplesmente desapareceram dentro delas e já nem sabem o que é a vida real. Até a minha querida rainha têm assessores que comunicam-se por mobiles — e é claro que eu não perderia um chá com a soberana só por não ter o diabinho. Estou preocupado demais em viajar e viver ao invés de dedicar qualquer tempo que seja a essa coisa de aplicativos, que existem para substitui-lo nas atividades que deveriam ser feitas com a cabeça. Sei que, muitos de vocês, meus caros leitores, vão achar que esse texto é um rabugice. Eu os compreendo por não compreenderem o que eu digo. Mas eu adoraria poder influenciá-los e fazê-los pensar na demência dessa doutrina inesperada. Ter influência criam amizades que não existem.

Esses gadgets são — perdoem-me a franqueza — algo como uma praga bíblica. Tenho visto esses besourinhos prateados, cromeados ou coloridos pendurados como adornos nos pescoços de zulus, maoris, berbéres, gregos e, oh, my God, até de cavalheiros britânicos. Não contesto sua funcionalidade — se é que existem coisas tão importantes que não possam deixar de ser comunicadas instantaneamente. 

Ainda nesta semana, convidei uma velha amiga romancista para um chá no Dorchester, de Londres e, para minha desagradável surpresa, ela veio acompanhada de um desses aparelhinhos. A engenhoca era quase tão pequena quanto um tubo de batom, de modo que, para que sua voz alcançasse o bocal, esta senhora (já entrada em anos), tinha de entortar a face, produzindo um ésgar disgusting. Mas muito pior que isso, foram as constantes interrupções na nossa conversação. Por uma estranha inversão de valores, in this strange new world, pessoas que chamam de longe sempre têm preferência sobre interlocutores presentes.

Só não abandonei o recinto porque sou um gentleman, mas, decididamente, da próxima vez, farei um chá by myself e, quando resolver conversar sem ser interrompido, ligarei para seu celular.

De minha parte, my friend, seguirei viajando pelo mundo sem a horrível sensação de estar permanentemente conectado. Que estranhos marionetes estamos nos tornando? Lembram-se quando, após o tsunami de 2004, refugiei-me em Botswana, nos alagados do delta do Okavango? Pois certa manhã, partimos numa canoa para fotografar pássaros. Havia, a bordo, um remador, um guia, um turista americano e myself. De repente, avistei um cormorão de peito branco que jamais havia conseguido fotografar. Ele estava tranqüilo e indiferente quando ajeitei minha câmera. Eis que soa uma metálica versão da Cavalgada das Valquírias no inesperado celular do americano e o cormorão assustado some no arvoredo. Sabem o que era? Uma empresa de telecomunicações propondo vantagens na troca do serviço. Vou lhes fazer uma confissão: só não joguei o americano na água, porque, unfortunately, ali não haviam crocodilos.

Fonte: Facebook

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