sábado, 16 de setembro de 2017

MR. MILES


Sobre o ato de projetar slides de viagem

Ainda em Londres, à espera de que tia Henriette termine de cerzir suas meias e um ou dois casacos dos quais não abre mão, nosso correspondente britânico aproveita para queimar achas de madeira em sua lareira e para degustar, junto com Trashie, boas marcas de single malt.
A seguir, a correspondência da semana:

G'day, Mr Miles! 

Gostaria de saber sua opinião sobre como compartilhar viagens com amigos sem impor as temidas noites de queijo e vinho seguidas de slides (ou slideshow), e sem querer passar a impressão de que somos os únicos a viajar, enquanto os menos afortunados seguem trabalhando?
Cheers for now!
Ari Roizenblit

It's a tough decision, my friend. Baseado na minha experiência, sobretudo como participante da plateia de viagem de meus amigos, eu diria que, por principio, nenhuma exibição de feitos viajores — nem amadora, nem profissional ou, pior, carregada de ensinamentos sociais — é agradável. Usually, começo a ter vontade de suicidar-me entre o oitavo e o décimo quinto dispositivo. As imagens são quase sempre aceitáveis, mas os comentários são um convite à cicuta. "Olha, bem, é aquele sujeito simpático que tomou conta de nossas coisas enquanto fomos nadar. Como tem gente decente nesse mundo." É agora. Desse comentário primoroso escapo apenas com um fio de respiração. O coração dispara, vem um ataque de sudorese e, my God: ou escapo de fininho ou nunca mais vou poder viajar...

Não entendem, os exibidores, que uma demonstração com slides ou filmes (lembram dos VH8?) é tão fria quanto um bloco de gelo. Vêem-se coisas, pessoas, mas é impossível que as emoções decorrentes daquele momento atinjam a platéia que, for sure, nos dias da tal viagem, estava ocupada com as banalidades de seu próprio dia-a-dia.

E as falhas da exibição? O que dizer delas? Seja num antigo carrossel de slides, seja num moderno power-point, alguma coisa sempre sai errada, fora de ordem ou simplesmente trava. É nesse momento que o bem intencionado exibidor acende a luz, conta uma piadinha sem gosto e amaldiçoa ter gasto trinta dólares a menos no seu equipamento.

Chega, assim, a hora do queijo e do vinho. Enfim alguma coisa que possa dar prazer de per si. A conversa readquire um tom normal e, ok, você está livre da viagem que não fez e, se fizer, não vai querer jogar para cima dos outros.

Sem contar os momentos vexatórios em que o tom do apresentador (ou da apresentadora) insinua com clareza que, yes, rolou sexo naquela noite — basta ver os olhares que eles trocaram, quase libidinoso.

É diferente, however, com os slides do passado. Até você ver as versões infantis dos marmanjos que o rodeiam, fica engraçado. Depois, cansa.

Digo tudo isso sem rancor, Ari. É dificil viajar muito e estar sempre pronto para contar como é um país, seu povo e tudo o mais. Sem querer, você se descobre um esnobe a pontificar no deserto. O grupo inteiro está discutindo um filme, o erro de um juiz de futebol ou a última novidade da política. O que vai adiantar você contar que em Ketchikan chove todo dia de quarenta em quarenta minutos, com a precisão de um relógio suiço?

Tive de ver muitos amigos enjoados ou entorpecidos pelos meus relatos antes de perceber que eles preferem o livre-arbitrio de ler ou não a minha coluna. E, claro, minhas dicas sobre ótimos whiskies de doze anos, que embriagam mas não torram a paciência dos circunstantes.

Fonte: Facebook

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