sexta-feira, 6 de outubro de 2023

O PARADOXO DA VELHICE

Mirian Goldenberg

Envelhecer pode provocar medos e vergonhas, mas ser também uma fase de libertação e coragem

Recentemente, uma jornalista me perguntou se, após mais de três décadas de pesquisas, eu perdi o medo e a vergonha de envelhecer.

Respondi que, para mim, a velhice é paradoxal. Ao mesmo tempo em que a "velhofobia" mora dentro de mim, também tenho momentos de "velheuforia" e de "velhautonomia".

Como ela não entendeu a brincadeira que fiz com a palavra "velho", expliquei que, muitas vezes, tenho pânico de envelhecer e só enxergo feiura, doença, decadência e perda na minha velhice. Coloco uma lente de aumento nas minhas faltas, defeitos e imperfeições. Parece que, quanto mais eu envelheço, mais o medo e a vergonha têm aumentado, especialmente por estar envelhecendo no Brasil, onde a juventude é um verdadeiro capital. É a "velhofobia".

No entanto, em outros momentos, ligo o famoso "botão do foda-se" e faço loucuras que nunca tive coragem de fazer na juventude. É a "velheuforia".

Por fim, tenho a sensação de que, pela primeira vez na vida, sou realmente livre para ser eu mesma, sem me preocupar tanto com a opinião dos outros. É a "velhautonomia".

Ela me pediu, então, um exemplo concreto do paradoxo da minha velhice. Lembrei-me de que, no ano passado, participei do programa Linhas Cruzadas da TV Cultura, com Luiz Felipe Pondé, para responder à pergunta: "As pessoas melhoram ou pioram com o tempo?".

Respondi que, em 30 anos de pesquisas, com mais de 5.000 homens e mulheres de diferentes gerações, passei a ter a certeza de que não existe velhice no singular. Velhice é sempre no plural: velhices!

Alguns homens e mulheres florescem quando envelhecem e se tornam a sua melhor versão; outros murcham e acabam sendo a sua pior versão.

Florescer ou murchar não é só uma questão de opção pessoal nem de personalidade. Depende muito mais das circunstâncias familiares, sociais, econômicas, da saúde e de toda a história de vida.

Mas o que eu percebo em comum nas pessoas mais velhas que eu venho pesquisando é que todas valorizam extremamente a autonomia, a capacidade de dizer não e o uso do tempo.

Muitas mulheres de mais de 60 anos me disseram: "É a primeira vez que eu posso ser eu mesma. É o melhor momento de toda a minha vida. Nunca fui tão livre, nunca fui tão feliz. É uma verdadeira revolução".

Para muitas mulheres, a velhice pode ser um momento de libertação, uma fase de desabrochar e florescer. Por quê? Porque, com a maturidade, elas aprendem a ter a coragem de dizer não.

Quando terminei a resposta, Pondé me elogiou bastante, o que, segundo amigas que sempre assistem ao programa, é muito raro acontecer.

"Muito bom o que a Mirian falou, essa coisa de dizer não, a importância da autonomia e essa ideia de que você pode ser você mesmo depois de uma certa idade, que você pode ser mais livre, aproveitar melhor o tempo. Acho que a questão plural que ela aponta é perfeita, as pessoas tendem a viver o processo da vida de forma diferente, e essa diferença não é fruto só da vontade pessoal, é fruto das condições materiais e contingenciais nas quais você nasceu e viveu."

Quando o programa foi ao ar, quando me vi na tela da televisão, fiquei obcecada com uma pinta no meu rosto. Por que não usei uma base para cobrir a pinta? Seria tão fácil disfarçar a minha velhice, ou melhor, a feiura da minha velhice. Todo mundo deve ter pensado: "Nossa como a Mirian está velha e feia. Que pinta horrorosa".

Fiquei um tempão sentindo vergonha da minha pinta, até que um dia li a resposta de Sabrina Sato, de 42 anos, a uma fã que a questionou: "Por que você não tira a verruga?".

"Porque ela é minha. Minha verruga é um sinal de sorte e minha filha fala que me acha em qualquer lugar com essa marca, isso é ótimo. Vinte anos que vocês me assistem e ainda não se acostumaram com a minha verruguinha na testa? Ainda estão incomodados com isso? Eu não vou tirar porque eu amo ela, não me incomoda. Ela me torna única. É uma característica física que só eu tenho e não quero me parecer com ninguém. Sou feliz do jeito que eu sou, está ótimo."

Apesar de ter escrito o "Manifesto das Velhas Sem Vergonhas" e de defender a "Revolução da Bela Velhice", preciso urgentemente começar a rir das minhas vergonhas e aprender a enxergar alguma beleza na minha velhice.

Fonte: Folha de S.Paulo

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