Em viagem a serviço pelas Missões, passei pelo estabelecimento de um revendedor para combinar alguns acertos. Para otimizar o tempo, decidi ir antes a Campo Novo resolver uma pendência financeira. Era minha estreia por aquelas bandas. A pavimentação asfáltica, nova, brilhava impecável. Perto de Boa Vista do Buricá, contudo, o tapete preto foi interrompido. A sinalização indicava um pequeno desvio e, logo adiante, retomei a estrada principal — ainda em obras — que cortava o município de Três de Maio. Novamente precisei abandonar o asfalto, dobrando à esquerda rumo ao meu destino final, que já estava próximo.
Resolvida a questão com o cliente, despedi-me para retornar a Santo Ângelo. Ele me aconselhou a posar por lá, vista a tempestade que desabava na região. Na falta de hotéis, a alternativa seria dormir no pequeno hospital da cidade. Sem comunicação com o revendedor que me esperava, preferi encarar o barro. Com o cair da noite, a atenção mudou para o nível máximo: a terra vermelha sob chuva vira um sabão. Com a visibilidade quase nula, passei do ponto de retorno ao asfalto. Manobrando com cautela entre a marcha a ré e a frente, consegui voltar.
Ufa, asfalto de novo. Mas a chuva só engrossava. De repente, a pista bloqueada: um tronco de árvore cruzava dois cavaletes. Dei meia-volta e identifiquei o desvio que havia usado na vinda. Conhecendo o caminho, aventurei-me. O problema é que, logo antes de retomar o asfalto, havia uma subida íngreme. Mesmo esgoelando o motor, não ganhei impulso para vencer o topo. Escorreguei de ré e, numa manobra cega, tentei entrar em um pequeno acesso lateral para voltar ao início. Atolei. Não havia um galho, uma pedra, nada sólido para calçar as rodas da Brasília. E o céu desabava.
Por sorte, havia uma luz nas proximidades. De uma casa simples, saíram uma senhora e uma moça. Sob o temporal, catamos juntos alguns pés de mandioca para forrar os pneus. Com a força delas empurrando, a Brasília finalmente arrancou do lodaçal direto para o asfalto. Mas o tronco ainda barrava o caminho adiante. Desci, arrastei o obstáculo e segui.
Pouco depois, o rendimento do carro despencou, acompanhado por um sopro estranho vindo de baixo. Parei. O barro havia entrado no cano de escape e o calor do motor o transformou em tijolo. Na base do alicate e da chave de fenda, desentupi o escapamento, liberando a força do motor para finalmente alcançar Santo Ângelo.
O compromisso daquela noite já era. Minha urgência agora era um teto. Missão quase impossível para alguém naquele estado, coberto de lama da cabeça aos pés. Alguém me indicou a hospedaria ao lado da rodoviária. Lugar simples ao extremo. O atendente avisou que só restava um quarto com três camas. Recusei dividir o espaço com estranhos. O homem, compreensivo, propôs um trato: removeria duas camas e o quarto seria só meu. Aceitei na hora.
Instalado, foi a primeira vez na vida em que dormi com um revólver municiado na cabeceira. O café da manhã, na manhã seguinte, foi servido no balcão da cozinha, mas estava honesto. Aquela Brasília nunca mais se livrou do resíduo vermelho do Alto Uruguai. E eu nunca mais consegui tirar as manchas de barro do meu casaco preto de couro.
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