quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O HOMEM TROCADO

O HOMEM TROCADO

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo. 

– Eu estava com medo desta operação…

– Por quê? Não havia risco nenhum.

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…

E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. 

Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano. 

– Seu nome não é Lírio?

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… 

Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista. 

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

– O senhor não faz chamadas interurbanas? 

– Eu não tenho telefone! 

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?

– Ela me enganava. 

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. 

Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. 

– Se você diz que a operação foi bem… A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.

– É. A operação era para tirar o apêndice.

– Não era para trocar de sexo?

Luís Fernando Veríssimo, crônica “O Homem Trocado”, do livro “Comédias para se ler na Escola”. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2014

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 3 de novembro de 2020

IMAGEM INVERTIDA

IMAGEM INVERTIDA
José Horta Manzano

Este é um país em que decisões oficiais costumam ter prazo de validade curto. Em outras terras, leis e resoluções que permanecem em cartaz por décadas são a regra; entre nós, são exceção. Não se sabe se seguirá na ribalta o comovente espetáculo com que doutor Bolsonaro nos brindou faz alguns dias, quando açoitou em público seu ministro da Saúde, no sombrio episódio da compra da vacina. Terá sido encenação orquestrada, de caso pensado? Ou passageira explosão de mau humor de um presidente insônico?

Seja como for, quer saia de cena na ponta dos pés, quer termine, barulhento, no palco iluminado do STF, o caso terá sido emblemático desta presidência. Daqui a um século, quando historiadores se debruçarem sobre o ano de 2020, a devastação da pandemia será acareada com o berro do doutor. Berro, sim, pois os códigos da internet estipulam que quem escreve em letras maiúsculas está gritando. Foi o que fez o presidente quando afirmou a seus devotos que não compraria a vacina do Instituto Butantã – que ele chama, com desdém, de «vacina chinesa», por ter sido desenvolvida por laboratório chinês.

Em novembro de 1904, está fazendo 116 anos estes dias, a população do Rio de Janeiro se amotinou contra as autoridades. Fazia tempo que a insatisfação inchava. A causa maior eram as obras gigantescas de modernização, que estavam perturbando a vida de muita gente. Na remodelagem da cidade, muitos tinham perdido a moradia. Os péssimos serviços públicos também alimentavam a zanga da população. Mas a gota d’água foi mesmo a imposição da obrigatoriedade da vacina antivariólica.

Naquela época, a situação sanitária calamitosa da capital dava imagem infeliz da jovem República. Até imigrantes europeus, assustados, zapeavam o Rio e preferiam recomeçar a vida em Montevidéu ou Buenos Aires – fato que contrariava o empenho do governo. Outras doenças castigavam o povo, só que, contra a varíola, já fazia um século que havia vacina. Eis por que, na impossibilidade de resolver todos os problemas de uma vez, decidiu-se atacar por esse lado.

O pote, já então quase cheio, entornou. A revolta acabou por envolver militares e gente que nada tinha a ver com a vacina. Até tentativa (frustrada) de golpe de Estado houve. As desordens deixaram mortos e feridos. Tão violento foi o movimento, que obrigou o governo a voltar atrás na imposição da vacina. Não se sabe se há relação de causa e consequência, mas o fato é que, quatro anos mais tarde, uma epidemia de varíola deixaria mais de 6 mil mortos.

Agora, cem anos depois, não é o povo, mas o presidente que se insurge, até com violência verbal, contra um reclamo legítimo e urgente da população. A ordem natural das coisas está invertida. O cidadão comum não está montado em cima de uma ideologia, seja ela qual for. Para esse cidadão, convencido de que só a vacinação lhe dará proteção contra o coronavírus, o importante é vacinar-se logo, pouco importando a cor do passaporte dos cientistas por trás da descoberta. Que se pergunte aos 57 milhões que deram seu voto ao presidente atual o que lhes parece mais urgente: estender o braço pra receber a vacinação liberadora, venha ela de que laboratório vier, ou espichar uma tromba, bater o pé e recusar a «vacina chinesa do Dória». Não precisa nem gastar dinheiro com pesquisa.

É significativa a assimetria entre a desavença de um século atrás e a quizila atual. Em 1904, a população se insurgiu contra uma medida imposta de cima para baixo – o que entra na ordem natural das coisas. Motins, sublevações, revoltas e revoluções costumam ocorrer como reação de insatisfação popular diante de medidas vindas de cima e percebidas como opressivas.

Em 2020, o quadro está invertido. Embora importantes, não são o incentivo de governos estaduais, nem a autorização da Anvisa, nem a pontificação do STF que ficarão na história. O que será lembrado é o descaso para com a saúde dos brasileiros patenteado pelo presidente em pessoa. O governo do Brasil de 2020 é a delirante imagem invertida daquilo que um governo teria de fazer por seu povo. Como dizia minha avó, isto aqui está de pernas pro ar.

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 novembro 2020

A SEGUNDA ONDA DA COVID

A SEGUNDA ONDA DA COVID
Hélio Schwartsman

Várias questões voltam a nos assombrar, mas a situação mudou bastante

A consolidação de uma segunda onda de Covid-19 na Europa e o anúncio de novos "lockdowns" nacionais trazem uma exasperante sensação de eterno retorno do mesmo, se é lícito usar a expressão celebrizada por Nietzsche.

Várias questões associadas à pandemia de fato voltaram a nos assombrar, mas eu hesitaria em classificá-las como retorno do mesmo. A situação mudou bastante em aspectos significativos.

O mais notável é que a segunda onda parece menos mortífera do que a primeira. Parte desse efeito se deve ao fato de os países avançados estarem testando mais e de a idade média dos pacientes da segunda leva ser menor que a da primeira, mas um bom pedaço é resultado do aprendizado dos médicos, que agora lidam melhor com as complicações da doença.

Um trabalho recém-publicado no "Journal of Hospital Medicine", com resultados ajustados para demografia, comorbidades e gravidade na admissão, mostrou que a mortalidade de pacientes internados em três hospitais de Nova York caiu de 25,6% em março para 7,6% em agosto.

Outra diferença importante é que vacinas, que eram apenas uma esperança no início do ano, agora existem e várias se encontram em fase final de testes. É razoável acreditar que, nos próximos meses, populações prioritárias começarão a ser imunizadas.

As primeiras vacinas talvez não propiciem níveis muito bons de imunidade, mas ajudarão a prevenir uma terceira e uma quarta ondas e devem contribuir para reduzir a gravidade no quadro dos que adoecerem.
A psicologia também é decisiva. Ainda que com falhas, as pessoas introjetaram mudanças de comportamento, como usar máscara e evitar aglomerações. Até revisaram a etiqueta de cumprimento. Não podemos relaxar muito nisso.

Tudo isso somado permite vislumbrar um futuro não muito distante em que a Covid-19, sem desaparecer, irá ocupar um espaço cada vez menor em nossos hospitais e em nossas mentes.

Fonte: Folha de S. Paulo

A FUGA PELO ASSOBIO

A FUGA PELO ASSOBIO
Ruy Castro

O mundo se divide entre os que sabem assobiar e os que não sabem

Tenho sido acordado todo dia por um passarinho cujo assobio entra pela janela e faz fiu-firiu fiu-firiu, fiu-fiu, fiu-fiu, fiu-fiu. Indagado, o porteiro João me informou que se trata do curió de seu colega do prédio ao lado. O bichinho, preto e de peito marrom, não tem um repertório muito variado. Acho até que só sabe assobiar aquela frase. Mesmo assim, ganha de mim por 1 a 0.

O mundo se divide entre os que sabem assobiar e os que não sabem, estes a grande maioria. Os que dominam a arte têm consciência de que são uma elite e tendem ao exibicionismo. Um cantor de ópera não interrompe um amigo numa conversa informal e dispara uma ária do "Rigoletto". Um trompetista não tira seu trompete do estojo e ataca de "O Voo do Besouro". Mas um assobiador, com falsa casualidade, começa a assobiar baixinho na nossa presença e, de repente, dá um show de vibratos, trêmolos e glissandos. Se isso já basta para nos esmagar, alguns ainda nos humilham com staccatos.

Imagine então os assobiadores profissionais, que gravavam discos. Os EUA tinham o impressionante Fred Lowery; o Brasil, o paulista William Fourneaut, o gaúcho Getúlio, o Assoviador, e o mineiro Silvio Silva, o Garoto Assobiador. Mas não se entusiasme --os dois verbos dizem a mesma coisa, e quem não sabe assobiar não sabe também assoviar.

Em "Sweeney Todd", grande musical de Stephen Sondheim, de 1979, em que um barbeiro degola seus clientes e estes se tornam o recheio das empadinhas vendidas por sua mulher, a heroína é uma jovem mantida presa pelo padrasto, que quer se casar com ela. Do lado de fora de sua janela gradeada, há uma gaiola com um passarinho que assobia o dia todo. Ela canta para ele: "Passarinho, ensina-me a cantar".

Farto de ver o mundo pela janela nesses intermináveis meses de quarentena, vou fazer como a personagem de Sondheim e pedir ao curió do vizinho que me ensine a assobiar.

Fonte: Folha de S. Paulo
O maior orador do mundo é o triunfo. (Napoleão Bonaparte, imperador francês, 1769-1821)

LUGARES

BRUGES - BÉLGICA

ROMANCE FORENSE

Charge de Gerson Kauer
MULHER TEMPERADA COM CEBOLA!

O dono da média revenda de automóveis gostava de mostrar erudição e religiosidade. Seguidamente falava aos subordinados sobre as parábolas - sustentando que "as que vêm de Jesus são narrativas breves, dotadas de um conteúdo alegórico, utilizadas nas pregações e sermões do Senhor com a finalidade de transmitirem ensinamento".

E por aí se ia na verborragia. 

Ele gostava de tentar impressionar a todos, deixando à vista, sobre sua mesa de trabalho, livros de filosofia, compêndios de interpretação constitucional, a biografia de Napoleão Bonaparte etc. Mas os mais esclarecidos da equipe de vendas desconfiavam que, nesses livros, o empresário não se aprofundava, limitando-se a anotar e decorar frases de efeito.

Também praticava alguns deslizes sobre a forma de assédio sexual contra as vendedoras mais "interessantes" que - na medida do possível - dele se esquivavam.

Nesse contexto, um dia ele desfechou um torpedo constrangedor à colaboradora Ângela, a quem não economizou na inusitada proposta de tempero: "Minha pornôzinha, tu me excitas muito quando estou perto de ti. Eu te quero, te quero até com umas rodelas de cebolas pra temperar um sabor melhor. Tu gostaria de transar comigo?" .

Era o deslize dele que faltava para comprovar o assédio moral e sexual. A vendedora assediada foi a um advogado; a ação trabalhista foi ajuizada; o celular foi periciado; e, enfim, o processo trabalhista teve a sua habitual via crúcis. 

Até que, poucas semanas atrás, o caso teve desfecho no tribunal regional. O relator lembrou "a sucessão de fatos caracterizadores do dano moral, como a dor resultante da lesão de um bem juridicamente tutelado sem repercussão patrimonial". E cravou a condenação: R$ 23 mil.

Se o preço médio nacional da cebola está a R$ 2,30 - como dizem indicadores nacionais - essa grana toda que vai parar na conta de Ângela teria dado para comprar sugestivos 10.000 quilos de cebola.

Que baita tempero!... 

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

IMUNIDADE DE REBANHO

IMUNIDADE DE REBANHO
José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.

Fonte: brasildelonge.com
O segredo do sucesso, nos negócios como no amor, é a dissimulação. (René Girard)

LUGARES

VENEZA - ITÁLIA

SEUS OLHOS

SEUS OLHOS
Por Ebeerth Vêncio

Os seus olhos dizem-me exatamente quem você é

Os olhos dizem muito de uma pessoa. Há, inclusive, quem estude a composição estrutural da íris, propalando que seja possível revelar traços da personalidade de um indivíduo — além de diagnosticar morbidades físicas ou psíquicas — por meio da análise minuciosa deste minúsculo e colorido compartimento da anatomia ocular. Ciência ou charlatanismo? Polêmica à parte, eu não iria a fundo nas lucubrações premonitórias, perpetrando inquéritos, pesquisando segredos, perseguindo pistas nas nuanças e nas circunvoluções de uma íris. Expressão do olhar. Eu me detenho à superfície, à mímica e ao brilho orbitários, estações suficientes para que eu chegue às conclusões quase sempre certeiras.

Singra no mundo uma pandemia viral assombrosa que está nos forçando ao uso compulsório e fatigante de máscaras para mitigar o contágio viral que se dá por meio do vapor ou do cuspe. A recomendação geral é coibir as tentativas absurdas, desenfreadas e egoístas dos micróbios na perpetuação da própria espécie, ainda que às custas do sofrimento e da aniquilação do ser humano, até que a morte os separe.

Vivo num processo contínuo de aprendizado desde que dei as caras no mundo. Nasci sentado, com o cu virado para a lua, é como se diz. Sorte de uns, azar de outros. A lua, na verdade, nada mais era do que a lâmpada de um foco cirúrgico. O tempo passou, percebi que não tinha nascido milionário e me tornei um marmanjo furibundo que aprendeu praticamente nada sobre o viver. Em matéria de desencanto existencial, portanto, até pareço o poeta lisboeta. É vexatório recordar as mancadas que cometi. “Vida que segue”, alguém diria. De tão simplista e ordinária, acho esta frase verdadeiramente odiosa.

O plano da humanidade é complicar as coisas. Assim foi. Assim é. Assim será. O primeiro aprendizado marcante que tive foi constatar que não me era permitido — muito menos, plausível — engatar a marcha a ré para retornar ao claustro materno, o reduto ideal para me esconder dos males do mundo. “Perdeu, playboy. Para frente é que se anda”, disse o médico, estapeando-me na bunda e piscando para o corpo de enfermagem.

Acometido de uma timidez contraproducente, acabei me tornando um excelente observador. Não chego ao nível dos videntes da íris, contudo, virei uma espécie de expert em linguagem corporal, na avaliação dos gestos, dos jeitos e dos trejeitos, além de um ouvinte pertinaz especializado em timbres e modulações da voz. Vivemos um pesadelo com roteiro insonhável. Nenhuma pessoa, por mais tresloucada que fosse, imaginaria que os beijos estariam proibidos até segunda ordem. Espero que este decreto dos órgãos sanitários competentes termine antes da próxima primavera. Foi a prima Vera quem me ensinou a namorar. “É como andar de bicicleta”, dizia-me, entre safadezas.

Leitura labial virou ofício para os fracos. Por causa da peste galopante que amedronta o planeta, vai levar vantagem quem aprender a fazer a leitura dos olhos, a única parte anatômica da cabeça que tem alguma coisa a comunicar. O estado e a cor dos cabelos podem dar uma pista. As orelhas-de-abano nada traduzem, nem mesmo a burrice incipiente de um sujeito.

Para bom entendedor, uma piscadela basta. Vislumbro os seus olhos bailando por sobre a máscara. Acho que você me ama. Acho que você me odeia. Acho que você me engana. Os olhares assumem protagonismo e revelam muito a respeito de nós, inclusive, nada, o que não deixa de ser uma lástima. A falta de elã é um estado escabroso. Deixo, então, um conselho final aos que me acompanharam até aqui com os seus olhinhos que a terra haverá de comer — espero, sinceramente, que vocês vivam por um século —: fiquem atentos ao que os olhos têm para contar. Sigam os seus instintos, mesmo que vocês não sejam uma mulher. Afinal de contas, em matéria de sexto sentido, elas são imbatíveis.

Fonte: https://www.revistabula.com

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 1 de novembro de 2020

O FUTURO SEM BOLSONARO

O FUTURO SEM BOLSONARO
Ruy Castro

Mas e se o bolsonarismo já não precisar dele para existir?

Um dos pesadelos dos americanos é que, mesmo que Donald Trump seja derrotado na eleição de terça-feira e varrido de volta para a Idade Média, o trumpismo continue a existir nos EUA. Era uma inflamação que só esperava um furúnculo para estourar, e esse furúnculo foi Trump. Já o nosso pesadelo é que o mesmo possa acontecer aqui, quando Jair Bolsonaro for levado a responder por seus crimes contra as instituições, a democracia e a vida —que o bolsonarismo não dependa mais da existência do seu Führer.

Se pensarmos bem, ele já existia antes da candidatura de Bolsonaro à Presidência, da facada em Juiz de Fora e de sua vitória nas urnas. Claro que Lula foi decisivo para essa vitória, ao sabotar outras candidaturas para que Bolsonaro —“fácil de derrotar”— chegasse à final contra o PT. Lula subestimou a aversão ao lulismo, alimentada durante 13 anos pelos desmandos de seu partido. A prova dessa aversão é que, com toda a demência e bestialidade do governo Bolsonaro, o PT está à beira da extinção.

Um indício da sobrevivência do bolsonarismo sem Bolsonaro é que, para seus fanáticos, não importa que Bolsonaro minta, alie-se aos corruptos que fingia combater, proteja genocidas e incendiários ou troque o país por sua miserável reeleição —o que sobrar do país depois de seu primeiro mandato. O Exército, que ele desmoraliza aos olhos da nação, continua a apoiá-lo. Os empresários, cujos negócios são prejudicados pela imagem de pária do Brasil no exterior, não o abandonam. O Congresso, que ele já ameaçou fechar, fecha com ele. E, a depender dos juízes, os zeros não se sentarão no banco dos réus.

Tudo isso é bolsonarismo e, se tantas categorias se sujeitam a ser corrompidas por ele, é porque não é mais Bolsonaro que importa.

Bolsonaro, por incrível que pareça, às vezes nos dá saudade da ditadura. Imagine se, no futuro, o Brasil chegar a ter saudade dele.

Fonte: Folha de S. Paulo

LADY JANE (1966)

ROLLING STONES
Tudo na vida é suportável, à exceção de muitos dias de felicidade contínua. (Johann Wolfgang von Goethe, escritor alemão, 1749-1832)

LUGARES

LAUSANNE - SUÍÇA

INVASÃO RUSSA

INVASÃO RUSSA - 
(pequeno relato de viagem)

12/09/2018 - Rímini/Bolonha
O dia de hoje foi dedicado apenas às providências de retorno à Bolonha, onde chegamos por volta do meio-dia. Tratamos de descansar, não projetando nenhuma atividade-fim. 

De qualquer maneira faço o registro de duas observações que fizemos ao longo dos dias: a primeira é a grande quantidade e pedintes pelas ruas de Bolonha. Em sua esmagadora maioria são pessoas oriundas da África e alguns poucos com traços europeus.

Por outro lado, nos dois dias que permanecemos em Rimini, encontramos uma grande quantidade de afro-descendentes pelas ruas daquela cidade, mas em nenhum momento notamos a presença de algum pedinte.

A outra constatação, diretamente relacionada a Rimini, é a presença de turistas do leste europeu. É algo que se constata, não apenas no visual das pessoas que desfilam pelas ruas adjacentes às praias mas também pelo som próprio da linguagem russa.

A propósito, os restaurantes apresentam os cardápios em italiano e em russo. Nas ruas, anúncios como o da foto abaixo são comuns.


Depois de termos jantado num desses restaurantes, empreendemos uma pequena caminhada por uma pequena feira que havia nas proximidades.


Paramos numa, cujos objetos à venda eram exclusivamente relacionados com aquele país. A moça que nos atendeu conseguia se comunicar em italiano, mas nos disse que era da Russia e estava tentando ganhar a vida vendendo aqueles produtos.




Veja-se que o último painel contém explícito apelo publicitário com a figura do presidente Putim. Sinal dos tempos.

FRASES ILUSTRADAS