quarta-feira, 23 de novembro de 2022

PERDEU, MANÉ

Eduardo Affonso (*)

Preocupado com a saúde mental do país, O GLOBO levou o Brasil a quatro renomados psicanalistas. Os diagnósticos estão lá, na página 29 da edição de domingo passado (13 de novembro): psicose, luto, autossabotagem, idealização, desilusão.

O Brasil ouviu, elaborou, racionalizou, introjetou, fechou uma gestalt, teve um insight e resolveu ouvir uma quinta opinião. Procurou Pai Dudu da Gamboa, que incorpora Freud, Jung, Reich e Lacan em seu terreiro – e volta e meia faz previsões imprevisíveis aqui, nesta coluna.

Acomodado no divã depois de um rápido banho de descarrego (não por falta do que descarregar, mas premido pelo tempo lógico), o Brasil desandou a falar de seu maior complexo: a irrefreável vocação para matar o pai, Portugal (começando pela língua) e se amasiar com a mãe África (uma relação ambígua de orgulho e preconceito). E, claro, do trauma recente:

– Tenho medo do desamparo, de passar o resto da vida como um sem-teto.

– Sem teto de gastos… – interpreta Freud.

– Sim. Foram quatro anos ao relento, e tudo indica que os próximos quatro também serão a céu aberto.

Reich sugere que o Brasil se solte mais, deixe de lado essa obsessão com censura e controle da mídia, invista no desbloqueio das armaduras psíquicas e das estradas.

– É que eu estou numa fase de transição. Não de gênero, mas de um mito para outro.

Jung lembra que foi para o Brasil que ele desenvolveu, postumamente, o conceito de “inconsequente coletivo”. Algo que se manifesta nas camadas mais epidérmicas da psique – quando milhões de pessoas se enrolam na bandeira para pedir que uma ditadura venha salvar a democracia. Ou outras tantas concordam em dar um cheque em branco a um notório perdulário para que ele as proteja da bancarrota.

– Impulsos sadomasoquistas – pontifica Freud. Vamos fazer associações livres…

– Ok. Faz o L, alea jacta est, jactância, Lava-Jato, Vaza-Jato, compra de jatos suecos, jato da FAB com cocaína, jet ski, viagem em jatinho de empresário condenado…

Freud faz anotações. Lacan faz um trocadilho. Darwin baixa, do nada, sente o clima e avisa que volta quando a situação tiver evoluído.

– Tenho tido pesadelos, doutor: eu sou um navio, e vem um iceberg desgovernado na minha direção. Ou uma Ponte Rio-Niterói, não sei bem. Os filhos do capitão brincam com o leme, achando que aquilo é um manete de videogame.

– Esse pesadelo vai acabar, já já…

– Sei que vai, mas já comecei a ter outro: agora eu sou um avião, e a mulher do piloto quer um lugar na cabine de comando. Sem contar que vivo me debatendo em falsos dilemas. Dividir o bolo ou esperar o bolo crescer? Economia ou saúde? Responsabilidade fiscal ou social?

– Você precisa fortalecer seu Ego liberal, equilibrando as demandas do Id de esquerda e as imposições do Superego de direita.

– É que metade de mim está em negação, se recusando a aceitar a mudança. A outra metade quer mudar, mas para voltar a ser o que já foi. Doutores, será que eu perdi o rumo, o bonde, o juízo?

Reich e Jung se entreolham, desolados. Lacan murmura algo incompreensível. Freud explica:

– Perdeu, mané.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Fonte: brasildelonge.com
Todo o homem que encontro me é superior em alguma coisa. E, nesse particular, aprendo com ele. (Ralph Waldo Emerson)

LUGARES

ALBEROBELLO - ITÁLIA

Alberobello é uma comuna italiana da região da Puglia, província de Bari, com cerca de 10.855 habitantes. Estende-se por uma área de 40 km², tendo uma densidade populacional de 271 hab/km². Faz fronteira com Castellana Grotte, Fasano, Locorotondo, Martina Franca, Monopoli, Mottola, Noci. Wikipédia

IGNORÂNCIA E BEATITUDE

Ruy Castro

Não sei o que são tethers, scammers, NFT, metaverso e a geração Tang Ping

"Perdi as economias de uma vida", disse Aline, infeliz vítima de um criptorom —golpe amoroso pela internet—, à repórter Paula Soprana, na Folha do dia 5 último. Em março, recém-descasada, Aline entrou num aplicativo de namoro e se deixou atrair por um homem sensível e romântico. O qual, dizendo-se inglês e em Londres, convenceu-a de que era um investidor financeiro e a induziu a fazer uma aplicação em criptomoeda numa corretora internacional. Naturalmente, fictícia, o que ela só descobriu R$ 605 mil depois.

O caminho para depenar Aline passou por uma exchange inexistente que dizia trabalhar com bitcoins e ainda lhe aplicou o golpe das taxas falsas a serem pagas em USTD, sigla para tether, moeda digital atrelada ao dólar. O golpe foi confirmado pelo site Scamosafe, que detecta a veracidade de sites de investimentos, e por uma cientista de blockchain da empresa de tecnologia Avanade, especializada em criptoativos. Vários leitores solidarizaram-se com ela, alertando-nos para esses financial traders e falando em scammers e catfish. O mundo não está para monoglotas.

Exceto pelo fato de que não frequento aplicativos de namoro, eu também poderia ter caído nessa história. Até ler a pungente reportagem de Paula, nunca tinha ouvido falar em criptorom, tethers, blockchain, scammers e catfish. Na verdade, até hoje não sei nem o que é uma bitcoin. Meu inglês, suficiente para ler Chaucer, leva zero diante desse novo léxico. Meu português também.

Minha alienação não se limita a transações virtuais, sejam amorosas ou financeiras. Cobre toda uma gama de novidades. Não sei, por exemplo, o que é NFT —abreviatura de nonfungible token, ou token não fungível, como acabam, em vão, de me soprar. E não faço ideia do que sejam TikTok, metaverso e a geração Tang Ping.

Pensando bem, é maravilhoso. Minha ignorância beira a beatitude. Nem tem graça me tapearem.

Fonte: Folha de S. Paulo - 12/06/2022

FRASES ILUSTRADAS

 

terça-feira, 22 de novembro de 2022

VIVER É CONVERSAR COM ALGUÉM

Jorge Alberto Salton
Há, creio, uns dez anos, fui procurado por uma mulher de mais de noventa anos; quase cem, na verdade. Ela desejava uma medicação que a fizesse, quando assim decidisse, dormir e não acordar mais. Não estava com depressão. Temia perder a autonomia que ainda tinha, veio sozinha até mim. Mais do que isso: as pessoas com as quais tinha assuntos em comum não estavam mais aqui.

Por mais que estivesse rodeada de familiares, sentia-se só, a não ser quando, em imaginação, conversava com o marido, com um irmão, uma amiga, um filho – todos já falecidos.

Dias depois, lembro-me dela ao sentar-me em um banco da Praça Tamandaré e ver, dali de onde estava, um velho a caminhar lentamente. Parecia-se com o doutor J. Tive a impressão de que falava sozinho.

De imediato, me veio à mente uma crônica de Rubem Braga sobre um velho que falava sozinho… Devia estar conversando com algum amigo morto. A certa altura ficou quieto, com o ar contrariado de quem está ouvindo alguma coisa de que não gosta. Quem sabe o morto estava lhe dizendo poucas, porém boas?

Imagino que o doutor J. continuará a cruzar a calçada da Praça Tamandaré a conversar com seus amigos mortos. Provavelmente, sente-se mais próximo deles do que dos jovens vivos que encontra em suas caminhadas. Quem vai lhe escutar quando contar que foi trabalhar logo que se formou numa pequena cidade e encontrou lá uma epidemia de tifo? Dos dez doentes, salvaram-se cinco, e, destes, dois tornaram-se amigos para sempre. Quem vai lhe ouvir com prazer? Seu neto adolescente ou os amigos da sua geração, que já se foram?

E se as vozes com os as quais o doutor J. conversa forem se apagando? Como vai ele continuar a viver se viver é sempre o diálogo com alguém?

Quando estamos de mal com uma pessoa, por questões políticas, por exemplo, a “conversa mantida em pensamento” se faz em tom áspero. Mas a gente pode perder nas urnas e, mesmo assim, pessoalmente ter a vitória mental de parar de “conversar” interiormente com a pessoa ou as pessoas nossas adversárias. Sem conversa não há vida, no caso, entre nós e elas.

O badalo dos sinos da igreja e os gritos festivos das crianças que, com entusiasmo desenfreado correm pela praça, sempre conversando – as crianças estão sempre conversando -, me fazem exclamar: “É bom viver!”.

O fato é que é mesmo bom viver. Dou-me conta de que estou a falar sozinho. Sozinho não! Sempre falamos com alguém. Mesmo que nem sempre saibamos com quem estamos a falar. Viver é conversar. Com alguém. Alguém que está aqui ou que já se foi.

Fonte: https://www.neipies.com
Tenho o hábito de não falar daquilo que ignoro. (Sófocles)

LUGARES

ENGELBERG - SUÍÇA

Engelberg é uma comuna da Suíça, no Cantão Obwalden, com cerca de 3.510 habitantes, dos quais aprox. 600 são estrangeiros. A comuna é um enclave nos cantões de Nidwalden, Uri e Berna. Estende-se por uma área de 74,8 km², de densidade populacional de 47 hab/km². Wikipédia

FRASES ILUSTRADAS

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

CABELO TEM A VER COM PELO?

 Aldo Bizzocchi

A pergunta do título admite duas respostas. Do ponto de vista biológico, a resposta evidentemente é sim: cabelos nada mais são do que os pelos que recobrem a cabeça, mais precisamente o couro cabeludo. Já do ponto de vista etimológico, há controvérsias. Há quem defenda que o latim capillus, “cabelo”, é o resultado da composição (com truncamento) de caput, “cabeça”, e pilus, “pelo”. Ou seja, cabelos nada mais seriam do que os pelos da cabeça. Mas estudos etimológicos mais rigorosos parecem desmentir essa hipótese tão intuitiva.

Em primeiro lugar, é difícil explicar porque capillus tem dois ll enquanto pilus tem um só. É bem verdade que o latim também tinha a palavra pilleus (com dois ll), que designava um barrete (espécie de boina) feito de lã de ovelha não tosquiada (portanto peluda) e que é da mesma origem de pilus. Ocorre que pilus provém da raiz indo-europeia primitiva *pil-, ao passo que pilleus vem da raiz derivada *pils- (com sufixo ‑s – o encontro consonantal ls passava a ll em latim). Então capillus teria a ver com pilleus em vez de pilus? Não parece ser o caso. Além disso, a composição entre caput e pilus daria algo como *capitipilus e não capillus.

Em segundo lugar, a raiz indo-europeia que originou caput em latim, a saber, *kap-ut, admitia também formas com l: *kap-(e)lo-. Desta segunda provêm, dentre outros, o sânscrito kapála, “tigela, panela, crânio”, e o antigo inglês hafola, “cabeça”.

Em face disso, muitos etimólogos e indo-europeístas acreditam que capillus é uma derivação da raiz *kap-(e)lo-, representando um antigo adjetivo referente a “cabeça” que depois passou a ser usado como substantivo. Então capillus significaria originalmente apenas “capilar” (subentendido “pelo”), nada tendo a ver com pilus.

Curiosamente, o espanhol até hoje denomina “cabelo” mais frequentemente por pelo, embora também disponha da palavra cabello. E nas línguas germânicas, o mesmo vocábulo denomina “pelo” e “cabelo”, como vemos, por exemplo, no inglês hair.

Em resumo, a semelhança entre pilus e capillus em latim pode ser apenas fortuita, uma dessas coincidências que dão pano para a manga em matéria de pesquisa linguística e, portanto, mais uma peça que a evolução cega das línguas nos prega.

Fonte: https://diariodeumlinguista.com

A bravura provém do sangue, a coragem provém do pensamento. (Napoleão I)

LUGARES

SOCHAUX - FRANÇA

O Musée de l'Aventure Peugeot é um museu histórico dedicado ao negócio automóvel Peugeot. O museu foi fundado por membros da família Peugeot, inaugurado em 1988, do outro lado da rua do enorme parque industrial da empresa em Sochaux. Os primeiros automóveis Peugeot surgiram em 1891. Wikipedia (inglês)

CABIDE PARA DOIS

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Os objetos mais banais revelam a grandeza da fidelidade: quando você passa a ser guardião de algo do outro e precisa cuidá-lo das permanentes tentações do extravio.

Lembrar de trazer de volta um pertence que não é seu significa uma autêntica demonstração de amor.

Pois é fácil esquecer um guarda-chuva quando para de chover. É fácil esquecer um blusão quando esquenta. E ainda é mais fácil quando você não é o dono.

Minha mulher pediu que recuperasse o seu casaco de couro que ficou no espaldar da cadeira do restaurante que costumamos almoçar.

Só que eu estava em trânsito - ainda viajaria a longínqua Petrolina (PE) para talk show, sem nenhuma mala para guardá-lo. Eu me encontrava realmente avulso, com a roupa do corpo, destinado a um aloprado bate-volta.

Não têm ideia de como foi complicado me lembrar de que ele existia. Ainda mais que Petrolina é um calorão e não faz nenhum sentido andar com um casaco.

Quase deixei no bagageiro do avião - voltei quando já me encontrava na porta da saída. Quase deixei no carro do evento - estiquei a mão no banco de trás na última hora. Quase esqueci no armário do hotel - afinal, não tinha bagagem, como iria me recordar?

De quase em quase, fui me afeiçoando ao objeto, comemorando cada resgate, embalando entre os braços o embrulho como um bebê adotivo.

Não era mais uma peça feminina, mas a minha responsabilidade com o relacionamento, o meu compromisso com a palavra, o meu pacto em proteger um pertence predileto daquela que dividia a vida comigo.

Estar casado é combater diariamente o egoísmo da vida solteira. E também não se importar mais com o que os demais pensam a nosso respeito.

A minha esposa deve ter sentido o mesmo quando preparei uma surpresa em seu trabalho e lhe entreguei um balão a gás de ursinho. Ela não podia abandoná-lo sob o risco da ingratidão.

Além da vergonha que engoliu a seco diante dos colegas engravatados, ela circulou com a cordinha vermelha pelo escritório de sua empresa, entrou no táxi com a alegoria, e atravessou as ruas de Porto Alegre equilibrando a bolsa no lado esquerdo e o balão no direito.

Quando ela chegou em casa empinando o meu presente como um menina adestra os ventos de uma tempestade no corpo de uma pipa, não nego o céu limpo de meus olhos: ela realmente me valorizava mais do que o seu receio do vexame. Jamais o medo seria maior do que o nosso amor.

A covardia se esconde nos fingidos esquecimentos. A mentira nasce dos pequenos lapsos. Lembrar de si e de quem nos acompanha é sempre uma manifestação  corajosa de honestidade.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

 

domingo, 20 de novembro de 2022

O FILÓSOFO EXCÊNTRICO QUE INSPIROU O ABOLICIONISMO

Leandro Narloch

Professor de filosofia moral sugeriu no século 18 um arranjo social revolucionário

Um dilema que acompanhou a humanidade foi como dividir tarefas –definir quem fará o quê. Como designar obrigações aos outros, determinar os que vão caçar, buscarão lenha para o fogo, coletarão frutos ou se especializarão na composição química de ligas metálicas de sondas espaciais?

Em diversas sociedades da história, essa pergunta foi respondida pela força. Faraós ordenavam a construção das pirâmides, imperadores romanos importavam escravos para construírem o Coliseu, senhores da América obrigavam seus escravos africanos a trabalhar em lavouras e comércios.

Outra forma de atribuir tarefas foi a tradição da estratificação social. Na Índia, no Sri Lanka, no Oeste da África e muitos outros lugares as pessoas se dividiam em castas. Dependendo da família em que nasceu, o indivíduo ganhava um estigma que determinava direitos e oportunidades de toda a vida.

Em 1776, um professor de filosofia moral da Universidade de Glasgow sugeriu um novo arranjo social. Era um típico filósofo excêntrico e distraído, que saía de casa gesticulando e falando sozinho sem saber para onde ir. Certa vez caminhou por 15 quilômetros até perceber que tinha esquecido de se trocar e vestia a camisola que se usava como pijama.

A sugestão dele parece óbvia hoje, mas na época foi considerada revolucionária e subversiva. Consistia simplesmente em "deixem cada um fazer o que quiser. Parem de se intrometer na vida dos outros, obrigá-los a isso ou proibi-los daquilo".

Ou, nas palavras dele, "deixa-se a cada qual, enquanto não violar as leis da Justiça, perfeita liberdade de ir em busca de seu próprio interesse, a seu próprio modo, e faça com que tanto seu trabalho como seu capital concorram com os de qualquer outra pessoa ou categoria de pessoas".

O nome daquele professor de filosofia era Adam Smith e a sugestão dele criou a economia moderna.

Ele acreditava que pessoas livres, interessadas em melhorar de vida e conquistar a simpatia dos outros para futuras relações de cooperação, acabavam sem querer resolvendo problemas uma das outras.

Esse "sistema óbvio e simples de liberdade natural" desafiava a fortíssima instituição da escravidão da época. Se o argumento moral em defesa da abolição já circulava no século 18, Adam Smith adicionou uma justificativa econômica. Acreditava que o "trabalho executado por escravos, embora aparentemente custe apenas a própria manutenção deles, no final é o mais caro de todos".

Impedidos de perseguir o próprio interesse, os escravos não se preocupariam em inovar ou lucrar servindo os outros. Para compensar a opressão, se interessariam apenas em "comer o máximo e trabalhar o mínimo possível".

"O patrimônio de um homem pobre repousa sobre a força e destreza de suas mãos; e impedi-lo de empregar sua força e sua destreza da maneira que julga adequada, sem prejudicar seu vizinho, é uma plena violação de sua mais sagrada propriedade", escreveu ele em "A Riqueza das Nações".

Ninguém sensato, nem o próprio Smith, acreditava na época que algum dia a escravidão e a servidão terminariam. Elas predominavam em quase todos os continentes; um escritor estimou em 1772 que havia no mundo 775 milhões de habitantes, dos quais apenas 33 milhões seriam livres. E as colônias inglesas no Caribe davam lucros altíssimos com o cultivo de açúcar feito por escravos.

Para Adam Smith, as fazendas eram tão rentáveis que os proprietários podiam se dar ao luxo de queimar parte do lucro para exercer o velho costume humano de dominar os outros. Insistiu que o fim da escravidão beneficiaria não só escravos, mas senhores e toda a sociedade.

"A dupla tese de Smith se tornou peça central da crença abolicionista, dirigindo e prevendo o triunfo final do trabalho livre", escreveu o historiador Seymour Drescher, um dos principais especialistas na história do abolicionismo, no livro The Mighty Experiment. "Nenhuma formulação subsequente provou ser tão direta ou convincente para os defensores da abolição durante gerações de luta política contra o tráfico atlântico de escravos e a escravidão caribenha."

Apesar de seu enorme legado para o abolicionismo, aquele professor de filosofia moral é hoje desprezado pela maioria dos ativistas e historiadores. Muitos acreditam que ele foi apenas um defensor da ganância, do capitalismo e das grandes empresas.

Caros leitores, a partir desta semana vou interromper as contribuições para a Folha, pois preciso me concentrar no meu próximo livro. (O texto acima, aliás, já é um aperitivo dele.) Agradeço aos leitores pelas críticas e elogios e ao jornal pela liberdade de pensamento de que sempre desfrutei por aqui.

Fonte: Folha de S.Paulo

ESPAGUETES FLUTUANTES

Gregório Duvivier (*)

Tenho muito orgulho dos espaguetes flutuantes que içamos como um toldo sobre algumas vogais

Tenho, ainda hoje, uma tristeza irremediável por termos perdido o trema. Não durmo tranquilo desde que linguistas sequestraram cinquenta tremas sem pensar nas consequências.

A linguiça, por preguiça, passou a soar como que enguiçada. Os pinguins hoje parecem sequelados sem seus pinguinhos. Perceba que coincide: desde 2009 temos delinquido com mais frequência. Perdoem se estou monotremático.

Torço pra que nunca tirem de nós o til – patrimônio imaterial da nossa língua. Sei que os hispânicos põem o til sobre o N, mas podem passar uma vida inteira em terra lusa sem dizer um simples não. Conseguem, no máximo, um “náo”.

Os franceses tentam e sai “non”, os americanos emitem um “nawm”. Me enche de orgulho saber que o mais poliglota dos alemães ou o mais empedernido dos britânicos jamais alcançará o fonema que qualquer criança brasileira de dois anos de idade pronuncia, de boca cheia, 30 vezes por dia em sua palavra predileta: não.

O til, não sei se já perceberam, já foi um N que passou pra outro plano, e hoje está no céu. É sério. O português matou muitos N intravocálicos do espanhol, mas o fantasma continua ali. Antes de “hermano” virar “irmão”, virou “irmano”, com o N grafado acima das outras letras, flutuando entre o A e o O. Com a pressa na grafia, o N foi virando uma minhoca, um topete, uma onda, uma assombração.

Podemos ter esquecido mas ele está lá, levitando, como uma potência na matemática, elevando vogais à potência N. Daí a dificuldade dos gringos em compreendê-lo. Nosso til evoca uma letra que ao mesmo tempo está e não está. É quântico, como o gato (ou o cão) de Schrödinger (esse trema não caiu).

Me orgulho muito desses espaguetes flutuantes que içamos como um toldo sobre algumas vogais, mudando drasticamente o significado das palavras. O estrangeiro que pedir um “páo” com queijo pode ter uma péssima surpresa – da mesma forma que não recomendo que ele peça pra pôr seu “páo” na chapa.

As palavras com til têm a magia das coisas imensas, irresistíveis ou temerárias. Avião, feijão, paixão, revolução, dragão, coração. Basta tirar o “ão” e elas ficam banais. Perdem seus poderes. Ninguém teria medo de andar de “ávio”. Não dá água na boca um caldinho de “feijo”. Não são demais os perigos desta vida pra quem tem “paixa”. Ninguém sai de casa pra fazer uma “revoluça”. Um “drago” não cospe fogo algum. Um “vulco” não cospe lava. Imagina que tristeza ter, no fundo do peito, um “coracinho”.

(*) Gregório Duvivier é ator e escritor.

Fonte: brasildelonge.com
Um país se faz com homens e livros. (Monteiro Lobato, escritor brasileiro, 1882-1948)

LUGARES

SÃO PETERSBURGO - RÚSSIA

A Catedral do Salvador sobre o Sangue Derramado ou Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado é uma igreja ortodoxa russa de São Petersburgo, situada na margem do canal Griboedov próximo ao parque do Museu Russo e da Nevsky Prospekt. Wikipédia

LIVROS E UM JARDIM – O QUE ELES TÊM PRA ENSINAR

Texto autoral: Karine Liz

“O Jardim Secreto”, de Frances H. Burnett, foi publicado a primeira vez em 1911, e se tornou um clássico da literatura. Por que? 

Porque fala de questões humanas que transcendem o tempo no qual elas foram concebidas. 

Outro clássico é o intrigante romance “Ligações Perigosas”, publicado em 1782, que permanece atualíssimo.

O tempo, realmente, é relativo em se tratando de algumas coisas.

Domingo ensolarado, mas friozinho, neste Sul de mundo. Dia de rega e poda mais demoradas no Pequeno Jardim.

Para quem não sabe, o Pequeno Jardim é um “pequeno imenso” espaço de sacada que converti em jardim suspenso.

Mas o que um jardim ensina a quem dele cuida?

Muita coisa...

Por exemplo, aprende-se que se você não tem uma visão sistêmica do ambiente que está, o risco que cair em engano é imenso.

Formigas caminham nos galhos, via de regra, à procura de benefícios secundários que muitas pragas oferecem enquanto estão hospedadas nas plantas que estão a prejudicar.

Assim, formigas são avisos de que algo pode estar errado no jardim. Isso funciona também, e muito, em ambientes humanos.

Outra lição: milagres são da esfera dos milagres.

Flores e plantas bonitas dependem de tempo, persistência, paciência e cuidado (alguns podem substituir a palavra por investimento).

Absolutamente tudo possui um preço. Os financeiros são mais fáceis de se pagar, embora custosos. Já os que empobrecem a ética, a esperança e os valores estruturantes do ser humano são caríssimos e, por vezes, não há dinheiro no mundo que pague.

Essa é uma das lições finais de “Ligações Perigosas” e parte do fio condutor de “O Jardim Secreto”.

Em tempos tão complicados como os que estamos vivendo, com tantas névoas, renascer a cada primavera tem sido difícil, mas nunca foi tão necessário.

Uma boa semana a todos nós.

ORQUESTRA SINFÔNICA JUVENIL DE CARACAS


Overtura Sinfonica "Marcha Slave" de Tchaikovsky
Orquesta Sinfónica Juvenil de Caracas
Director: Cesar Ivan Lara
Sala Simon Bolivar, CASPM