sábado, 26 de agosto de 2017

MR. MILES


Noticias de Mr. Miles!

Editores de lugar e de tempo

Nosso surpreendente viajante informa ter encerrado uma caminhada de 60 quilometros pelos Cárpatos, que estava especialmente dificil em funçao da neve e das geleiras. Além de um pequeno e tradicional incomodo nos joelhos, Mr. Miles só sentiu prazer e ficou decepcionado porque levou vinte minutos a mais do que no ano anterior, o que poderia ser uma mostra de envelhecimento. “ Well, não foi tão mal assim, porque perdi pelo menos uma hora ajudando a fazer talas e curativos em jovens que ficaram pelo caminho.” O bravo viajante britânico continua nos surpreendendo. Interpelado por que razão decidiu fazer essa caminhada em pleno inverno, Mr. Miles foi objetivo: “Eu precisava do prazer da endorfina para contrabalancear a repulsa que esse novo presidente Americano me causou.” A seguir a correspondência da semana.

Querido Mr. Miles: fiz uma viagem de vinte dias pela Itália e adorei. Há problemas por lá? Sim, mas menos do que aqui. Só me imcomodou a sensação de que poderia ter escolhido melhor. Em muitos lugares fiquei pouco tempo; em outros, tempo demais. E houve tanto que eu sentir ter perdido… Como devo fazer da próxima vez?
Adelina Batista Novelli, por email

Well, my dear: eis a questão que aflige a todo viajante de estirpe. Unfortunately, não me parece que desenvolveremos o dom da onipresença. Somos todos, therefore, editores de lugar e de tempo. Assim como os editores de jornal e revista, estamos o tempo todo confrontados com a Escolha de Sofia, que minha querida Merryl (N.da R.:Merryl Streep, grande atriz de Hollywood) transformou na mais insuportável das dores ao atuar no filme do mesmo nome. Editar é possuir um poder exageradamente grande. Cabe a esses profissionais escolher o que entra e o que não entra em uma história que vai tornar-se pública. Se mostra vitimas espancadas em uma manifestação ou se muda a opinião do leitor exibindo policiais feridos no chamado “cumprimento do dever”. Ao viajarmos, dear, somos os editores de nosso destino. Escolhemos o que pensamos ser o melhor para nós e muitas vezes nos decepcionamos. O que, besides, não é nenhuma surpresa. Como não nos engana o fato de que escolhemos bem, mas escolhemos pouco. Eis outro dilema do editor: que espaco dar para cada história, a que foto atribuir maior destaque and so on. 

É necessário deixar claro, however, que a certeza desse poder de escolha nos deixa mais fortes, criteriosos e bem-intencionados. Ao planejar sua giornata pela belíssima peninsula, você fez seus estudos: anteviu o que esperava ver, sentiu o aroma de pratos que iria comer, escolheu os passeios e enfrentou suas dúvidas: foi o rascunho de sua edição. Sometimes it works; sometimes not. Meu amigo Thedor Barnes – companheiro de pub em longas discussões – não quis me ouvir e foi para o Egito sem guia ou companhia. O resultado foi desastroso. Permantemente enganado, Barnes comprou papiros feitos de papel couché, pedaços “autênticos” da pirâmide de Queops, tapetes orientais que atestei terem sido produzidos em uma industria belga e um apavorante cruzeiro até Luxor, durante o qual sua mala foi saqueada duas vezes e, by the way, ninguém levou os produtos que havia adquirido. Típico caso de edição equivocada, daqueles que leva um leitor a cancelar sua assinatura. As for you, darling, fique feliz: o mundo todo e o resto da Itália seguem esperando sua visita. Você vai ver que, nesse caso, o que parece ruim é muito bom. Eu, como é de conhecimento geral, viajo pelo menos 250 dias a cada ano – e tantos anos tenho que não vale a pena sequer contar. Sempre que retorno, however, sinto que ainda há muito mundo para eu editar e mostrar a vocês. Melhor ainda: essa perseguição pelos lugares jamais haverá de acabar.

Fonte: Facebook

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