No extremo da propriedade dos Panazzolo havia uma casa e um caseiro - o Muller. Tinha um problema físico que o deixava sem poder ficar ereto. A melhor posição para ele era sentado. Tinha três filhos, o Walter, o Naldo e o Pubi. A família tinha um cachorro pastor alemão, que um dia mordeu minha perna. Tinha também um macaco. O lugar era aprazível, pois as muitas árvores, frutíferas ou não, proporcionavam muita sombra. Dalí tinha-se uma visão de toda aquela parte da propriedade dos Panazzolo e podíamos desfrutar dos campinhos de futebol. Também era bem próximo de um mato onde íamos caçar passarinhos, comer frutas silvestres e colher pinhão, e não raras vezes sapecá-los por lá mesmo. Também não estávamos nada distantes de dois açudes onde íamos tomar banho. Nas terras dos Fachin o açude era mais fundo e portanto era para os maiores e aquela ao lado, mas já nas terras da família Longhi, era apropriada para os menores, que era o meu caso. Particularmente eu sempre gostei mais desta última por causa do lageado onde podíamos permanecer tomando um banho de sol. Mas voltando ao velho Muller, ele era muito rigoroso e não poucas vezes o vi ameaçando os filhos com uma espécie de relho. Isto acontecia quando tomava umas biritas a mais. Por outro lado, o que nos levava àquela residência era a fabricação artesanal de mandolates. Uma vez por semana eles preparavam aquela massa enorme de amendoim e mel e depois, na mesa da sala, iam passando o rolo na mesma até ficar com a espessura de um centímetro ou até menos. Ficava com uma forma arredondada. Com uma faca bem afiada e uma grande régua servindo de guia, o velho cortava os filetes e depois os cortava em pedaços todos iguais. A etapa seguinte era embalar os mandolates em papel manteiga e deixá-los prontos para serem levados aos consumidores. Os garotos mais velhos que tinha trabalhado no acabamento final recebiam uma pequena cesta com uma certa quantidade daquelas delícias e saiam pela cidade para vendê-los. Cada um tinha a sua freguesia mais ou menos fiel e era uma forma de faturar uns trocados toda a semana. Nós, os menores, não tínhamos condições de sair vendendo o produto. Em compensação nos deliciávamos com as sobras, aquelas tiras cortadas junto às bordas arredondadas da grande massa. Nunca vou esquecer daquelas tardes "deliciosas" na casa do velho Muller.

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