O Caso de Linha Sul Brasil
A Linha Sul Brasil pertencia ao município de Modelo que, por sua vez, integrava a Comarca de Pinhalzinho. Dizia-se que, por aquelas bandas, a autoridade policial não se fazia presente. Aos domingos, a rua principal do vilarejo transformava-se em uma autêntica "cancha reta" — espaço destinado a corridas de cavalo, disputadas sempre entre dois concorrentes.
Outra lenda local envolvia as partidas de bocha: comentava-se que, após a bola parar, o jogador podia sacar seu revólver (sempre um calibre .38) e atirar nela para empurrá-la ainda mais para perto do bochim, garantindo a pontuação.
O poder na região era disputado por duas famílias tradicionais. Dessa rivalidade, entre vários outros conflitos, resultou um processo por tentativa de homicídio. O réu era um sujeito conhecido como Pedro que, conhecedor das leis da fronteira, havia se mandado para os lados do Paraguai.
O Incidente na Rodoviária
Constava no inquérito que Pedro, ao chegar ao local onde hoje funciona a rodoviária, avistou um desafeto da família adversária. Pedro estava do lado de fora da lanchonete e a vítima, do lado de dentro. Ao notar que o rival esboçara um movimento interpretado como o de sacar uma arma, Pedro antecipou-se: puxou a sua e disparou duas vezes.
A vítima foi atingida por dois projéteis. Curiosamente, o vidro da lanchonete que separava os dois apresentava apenas um único furo. Diante do fato inusitado, o povo da cidade justificava a façanha dizendo que aquilo só fora possível graças à mira milimétrica que Pedro adquirira nos treinos de bocha.
O Interrogatório
Mesmo estando, por assim dizer, foragido, Pedro compareceu espontaneamente para o interrogatório. Era um homem alto, magro, de cabelos loiros que puxavam para o ruivo. O vasto bigode seguia o mesmo tom.
Após a qualificação feita pelo escrivão, comecei com as perguntas de praxe antes de entrar no mérito do crime. Eu tinha o hábito de conversar amistosamente com réus e testemunhas; no interior, o simples fato de prestar declarações em juízo costuma deixar as pessoas mais simples extremamente nervosas.
Assim, antes mesmo de indagar o réu sobre os disparos, fiz uma provocação informal:
— Seu Pedro, dizem que lá na Sul Brasil todo mundo anda ferrado. É verdade? — perguntei, usando a gíria local para "armado".
— E não ande pra ver! — respondeu ele, com uma ponta de indignação.
Embora minha cadeira fosse um pouco mais alta, inclinei-me para a frente, fixei o olhar deliberadamente na cintura do réu e voltei à carga:
— E cadê o berro?
— Pois não é que me tomaram?! — exclamou, ainda mais indignado.
— Mas nem mesmo um daqueles "paraguaios"? — insinuei, sugerindo que ele pudesse ter trazido algo de sua temporada no país vizinho.
Nesse exato momento, o réu jogou o corpo para trás na cadeira, virou-se na direção de seu advogado e, com os dedos polegar e indicador da mão direita, alisou o imenso bigode. Meneou a cabeça e, apontando para mim discretamente com os olhos, comentou com o defensor:
— ... Tá querendo me pegá...
Nenhum comentário:
Postar um comentário