Há, verdadeiramente, duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; em crer que se sabe está a ignorância. (Hipócrates, médico grego, 460-377 a.C.)
sábado, 4 de março de 2023
LUGARES
ANGHIARI - ITÁLIA
Anghiari é uma comuna italiana da região da Toscana, província de Arezzo, com cerca de 5.847 habitantes. Estende-se por uma área de 130 km², tendo uma densidade populacional de 45 hab/km². Faz fronteira com Arezzo, Caprese Michelangelo, Citerna, Monterchi, Pieve Santo Stefano, Sansepolcro, Subbiano. Wikipédia
BANDOS RIVAIS
Carlos Heitor Cony
Quem está de fora não entende. Somente um carioca atávico, não apenas da gema mas da clara do ovo, entende o que se passou na Rocinha, semana passada, quando dois bandos de traficantes se engalfinharam contra si e contra polícia, daí resultando mortos e feridos.
Um ditado judeu, adotado genericamente por todos, garante que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Pois sim. No Rio é diferente, cada um por si, o diabo por todos, cada um tem seu inimigo e todos de certa forma são inimigos entre si, dependendo das circunstâncias.
No caso da Rocinha, dois bandos de traficantes jurados de morte invadiram a maior favela do mundo para garantir o que eles chamam de "território". Com armamentos pesados, começaram o tiroteio, até que, como sempre, a polícia chegou com o habitual atraso com que começamos nossas sessões cívicas, as cerimônias oficiais e os compromissos que somos obrigados a cumprir.
Em todas as partes, nas galáxias mais remotas do universo, o natural seria os dois bandos rivais se unirem contra a polícia, ou em caso mais otimista, um deles ficar do lado dos policiais para eliminar o grupo rival.
Deus é brasileiro! Não foi isso o que aconteceu. Presumo que numa guerra há dois lados, evidente que há alianças momentâneas, mas o eixo de um conflito é a existência de duas vontades em confronto, não de três.
Na Rocinha, a guerra saiu do esquadro. Cada bando combatia o outro e a polícia simultaneamente. Todos contra todos. Nos manuais militares, as lições teóricas falam no exército azul e no exército vermelho, explicitando quem é quem, quem deve lutar contra quem. Na Rocinha, além do azul e do vermelho, há o exército branco, que não é o da paz mas o da droga.
Fonte: Folha de S. Paulo - 21/02/2006
sexta-feira, 3 de março de 2023
CASTIGO NÃO RESOLVE

“Castigo não resolve. Se resolvesse, todos os filhos seriam maravilhosos” por Içami Tiba
Içami Tiba em uma participação no programa Papo de Mãe fala sobre sobre o castigo e a correção dos erros na educação dos filhos. Abaixo você confere a transcrição do trecho.
“Castigo não resolve. Se resolvesse, todos os filhos seriam maravilhosos, pois nunca vi uma criança que nunca tenha sido castigada. O que educa é corrigir o erro através da consequência. Dizem que errar é humano e que é errando que se aprende, mas isso é mentira. Deve-se corrigir o erro, e, se o errante não aprender, deverá sofrer consequências; deve-se corrigir para que o mesmo erro não seja cometido.
A população detesta o político que faz desvio de verbas. Onde esse comportamento dele começou? Dentro de sua casa. Por exemplo, suponhamos que esse político, quando criança (cerca de seis anos de idade), certa vez utilizou o dinheiro, lhe dado por seus pais para a compra de um lanche na escola, para comprar figurinhas em uma banca de jornal. Ao chegar em casa, os pais o ajudaram a colar as figurinhas no álbum, endossando esse desvio de verbas. Nesse caso, os pais deveriam, na semana posterior, não dar mais dinheiro ao filho para o lanche, fazendo-o levar, para a escola, lanches caseiros, então, na semana seguinte, eles poderiam voltar a dar-lhe dinheiro para o lanche. Se o filho aprender com essa consequência, ele continua ganhando dinheiro para o lanche, do contrário, a consequência deve ser aplicada novamente.”
Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho do programa: Papo de Mãe: Como impor limites nos filhos com participação de Içami Tiba.
Confira na integra:
Içami Tiba foi um médico psiquiatra, psicodramatista, colunista, escritor de livros sobre Educação, familiar e escolar, e palestrante brasileiro. Professor em diversos cursos no Brasil e no exterior, criou a Teoria da Integração Relacional, que facilita o entendimento e a aplicação da psicologia por pais e educadores.
Como palestrante Tiba também já fez mais de 3.200 participações de eventos do gênero, tanto no Brasil como em outros países.
Fonte: https://provocacoesfilosoficas.com
MR.MILES
Quando a companhia vale mais do
que o destino
Muitos leitores consideraram que
mr. Miles exagerou ao informar que tem mais de 800 passaportes encadernados.
"Sou muito cuidadoso com
documentos diplomáticos. — explicou o viajante inglês — e guardo a todos como
uma enciclopédia de minhas lembranças viajoras. É uma pena que hoje estejam
trocando carimbos por chips. As memórias, nesse caso, ficam para os burocratas.
Que, como se sabe, não têm qualquer sentimento".
A seguir, a pergunta da semana:
Caro Mr. Miles: estou organizando
uma viagem de familia — sete pessoas de três gerações — pela Garden Route, na África do Sul (que não conheço).
O que devo fazer para encaixar tão diferentes interesses, sem criar mal-estar
entre todos? Quero dizer que essa viagem é um antigo sonho e estou orgulhoso de
poder proporcionar tudo isso, aos 80 anos, para meus filhos e minhas netas.
Gunter Kaisenberg, por email
Well, my dear Gunter: em primeiro
lugar quero parabenizá-lo pela iniciativa. Levar a familia para viajar é um
sonho de muitos patriarcas, mas nem todos tem saúde ou disponibilidade
financeira para realizá-lo. In my opinion, o simples fato de que essa
empreitada vai ocorrer já o desobrigaria de qualquer preocupação. Sua familia,
I presume, deve estar muito grata e feliz por essa oportunidade.
Concordo com você: viajar em
pequenos grupos de interesses distintos é sempre, indeed, um risco. Conheço
muitos amigos de longa data que, por terem viajado juntos, nunca mais se
falaram. Pior que isso, I'm sorry to say, são as viagens em que casais de
relacionamento abalado tentam refazer seus laços. Unfortunately, isso quase
nunca dá certo, porque por à prova laços tênues e desgastados é um convite a
destroçá-los de vez.
São muito distintas, porém, as
viagens de familia. Pelo tom de sua carta, a viagem pela Garden Route não tem nenhuma
outra intenção que não a de celebrar a união de gente muito próxima em
circunstâncias em que tudo é novo para todos.
Como você bem sabe, my friend,
não tenho uma familia organizada de forma tradicional. Considero meus irmãos
todos os amigos que fiz pelo mundo e algumas tias centenárias às quais, sempre
que posso, cubro de mimos, mesmo tendo que, eventually, comer uma kidney pie
(torta de rim) sem tempero. Admiro, however, aos que têm familia regular e se
gostam a ponto de querer viajar juntos. Ouso dizer que sua viagem é fadada a um
sucesso emocional sem tamanho. Você e seus convidados jamais se esquecerão
desse convivio intenso. A Garden Route — uma bela estrada repleta de atrações
entre Capetown e Port Elisabeth — foi ótima escolha. Mas aposto que tanto para
eles como para você, muito mais que o destino, importa a companhia.
É natural que os interesses de
tantas idades distintas não sejam os mesmos. Para gente que se gosta de
verdade, porém, esse é um tema de menor importância. A tendência é que todos
abram mão de alguma vontade para que a vontade de todos prevaleça. Nesse
sentido, my friend, a sua escolha foi ótima. Além do propósito louvável do
patriarca, viajar sem expectativas não causa decepções. Vocês vão descobrir o
que querem em harmonia. Com certeza, haverá discordância sobre um ou outro item
— o restaurante, o hotel, as paradas. Ponha essas questões na devida proporção:
ensine aos seus descendentes o real valor de uma experiência como essa. Abra
mão de certas preferências, para que os outros façam o mesmo. Divirtam-se,
mostrem o quanto vocês se amam. E, ao fim e ao cabo, se você sentir que não
conheceu o lugar como deveria, a solução é simples: volte e faça, da segunda
vez, aquilo que achar melhor. Um último aviso: lembre-se que a África do Sul
tem o trânsito à inglesa. O que, em outras crônicas, já demonstrei que é a mão
correta de direção.
Fonte: Facebook
quinta-feira, 2 de março de 2023
A ÁRVORE DO CONHECIMENTO
Lygia Maria
Estimular a paixão pelos estudos a partir de interesses e aptidões dos alunos é a semente que gera frutos no ensino superior
O escritor de ficção científica Isaac Asimov disse, durante entrevista em 1988, que o processo de ensino-aprendizagem ideal é aquele que foca no interesse individual do aluno.
Mas não seria um problema se a criança quisesse aprender apenas sobre beisebol? Eis a resposta de Asimov: "Tudo bem. Quanto mais você aprende sobre beisebol, mais pode se interessar por matemática ao tentar entender as médias estatísticas de rebatidas. Pode até mesmo acabar mais interessado em matemática do que em beisebol".
Esse é o princípio da Escola da Ponte, que é pública e foi fundada em 1976, em Santo Tirso (Portugal). Lá, não há salas de aula e classes separadas por idade. Pequenas turmas são formadas a partir dos interesses dos estudantes, que são incentivados a buscar conhecimento de forma autônoma através de pesquisas. A ideia é ensinar a aprender, partindo das aptidões individuais das crianças.
Quem gosta de marcenaria acaba pesquisando geometria para criar móveis mais estruturados e, depois, se interessa por arte, para implementar inovações estéticas.
A reforma do ensino médio no Brasil tenta seguir essa ideia, com itinerários de aprendizagem e disciplinas optativas escolhidas pelos jovens. Mas a teoria esbarra nas péssimas condições da educação no país.
Tal mudança exige contratar professores, investir na especialização da categoria, melhorar salários, oferecer espaços físicos com equipamentos para oficinas e laboratórios etc. Daí as reclamações, justas, de pais, alunos, professores e gestores.
O problema é que o Brasil inverte prioridades. Segundo relatório da OCDE, aqui, o gasto anual por aluno no ensino superior é de U$ 14.202 e, no ensino fundamental e médio, de U$ 3.866. Já nos países desenvolvidos, gasta-se em média U$ 16.100 e U$ 9.300, respectivamente.
De modo insensato, queremos colher frutos de uma árvore sem raízes. Talvez devamos cuidar primeiro da semente, que é estimular a paixão pelo conhecimento, através das aptidões dos alunos, desde cedo.
Fonte: Folha de S. Paulo
LUGARES
PARIS - FRANÇA
Pont des Invalides
A Pont des Invalides é a ponte mais baixa que atravessa o Sena em Paris.
NÃO TROPECE NA LÍNGUA
PARA NÃO MITIFICAR A DESMISTIFICAÇÃO
--- Na coluna Não Tropece na Língua 107 há a seguinte frase: “Moradia própria. Desmistificar o conceito de que somente a casa própria é digna de apoio da lei”. Gostaria de saber se neste caso o mais adequado não seria o uso de desmitificar ao invés de desmistificar. Thais Guedes, Florianópolis/SC
Mitificar ou desmitificar tem a ver com mito. Mistificar ou seu contrário, desmistificar, tem a ver com engano, logro, ilusão, engodo, falsidade, enganação. No caso apresentado pela leitora, portanto, está correto dizer “desmistificar o conceito”, pois se trata de desmascarar esse engano (na visão do autor) ou tirar as pessoas da ilusão de que somente a casa própria é digna de apoio da lei.
Vejamos esses termos em mais situações de uso:
MITIFICAR significa “tornar mito”. Mitificação = transformação em mito.
- A ideologia fascista mitifica não só as formas históricas de integração racial, como procura tornar vivos os antagonismos sociais, o mecanismo da concorrência capitalista.
- Gabeira foi sempre mitificado pela mídia.
- Observou ali uma inclinação para a demonização e mitificação do judeu.
MISTIFICAR quer dizer “abusar de credulidade de alguém; iludir, ludibriar; falsear”, ou até mesmo “fantasiar”. Mistificação = logro, burla, engano.
- Apelam a qualquer recurso, mistificando a opinião pública.
- Mistifica quem fala em Brasil grande.
- O autor aponta a mistificação do capitalismo: doença mundial, conspiração mundial, ruína mundial.
DESMITIFICAR significa destituir algo do seu aspecto mítico [de mito], irreal, fantástico, lendário ou atrativo, tornando-o banal, comum, trivial.
- Os médicos têm desmitificado a impotência como uma questão puramente emocional.
- Uma passada pelos bastidores pode desmitificar a mais bela das mulheres.
DESMISTIFICAR significa desmascarar, destituir do caráter místico, misterioso, ilusório, falso.
- Para o exercício da democracia, a desmistificação dos pretensos grandes homens deve ser considerada um passo à frente.
- Temos a possibilidade de desmistificar ideias antigas, deuses de barro, santos que não são santos.
Fonte: www.linguabrasil.com.br
quarta-feira, 1 de março de 2023
AS DIFERENÇAS NA REDUÇÃO DA MORTALIDADE INFANTIL NO MUNDO
Drauzio Varella
Com 14,8%, Somália tem a mortalidade mais alta; Islândia tem a mais baixa
Quantos filhos a senhora teve? Quantos criou?
No curso médico, éramos instruídos a fazer essas duas perguntas em sequência ao anotar a história da paciente no prontuário. A resposta nos dava ideia do nível socioeconômico e das condições de vida das mulheres que procuravam o Hospital das Clínicas, em São Paulo, nos idos de 1960.
Não era raro ouvir que haviam dado à luz dez ou 12 e criado sete ou oito. Perder filho era uma das tragédias que as famílias daquele tempo se viam obrigadas a aceitar com resignação, pela vida afora.
No livro "Evolution and Human Behavior", Anthony Volk e Jeremy Atkinson analisaram diversos estudos sobre as taxas de mortalidade antes de alcançar a vida adulta, na história da humanidade. Separaram os dados em dois períodos: 1) mortalidade no primeiro ano de vida. 2) mortalidade total antes dos 15 anos de idade.
O levantamento das séries históricas mostrou que, em média, 26,9% dos recém-nascidos morriam antes de comemorar o primeiro aniversário e que 46,2% de todas as crianças não chegavam aos 15 anos. Em termos gerais: uma em cada quatro morria no primeiro ano de vida; apenas metade dos nascidos chegava à idade adulta.
O que mais chamou a atenção dos autores, entretanto, foi a consistência desses números nas 43 culturas históricas avaliadas. Na Grécia Antiga, na Roma Antiga, na China Imperial, nas Américas pré-colombianas, na Inglaterra e no Japão medievais ou na Renascença Europeia, as taxas de mortalidade eram da mesma ordem: morria um bebê em cada quatro; metade das crianças não atingia a maturidade reprodutiva.
Esses números seriam confiáveis? Não subestimariam a capacidade de sobrevivência de nossa espécie, nas fases iniciais da vida?
Não é o que os dados revelam. O crescimento populacional na maior parte da história foi lento, apesar de taxas de natalidade acima de seis filhos por mulher. Se a média fosse de seis filhos por mulher, a população do mundo deveria triplicar de uma geração para a outra. Na realidade, do ano 10.000 a.C. ao ano de 1700 da época atual, o crescimento populacional foi de míseros 0,04% ao ano. Grande número de nascimentos sem aumento significativo da população, só pode ser explicado por índices elevados de mortalidade antes da idade reprodutiva.
Os demógrafos foram ainda mais longe: analisaram os estudos existentes sobre a mortalidade nas espécies geneticamente mais próximas ao "Homo sapiens". Nos neandertais, por exemplo, que habitaram a Eurásia de 400 mil a 40 mil anos atrás, espécie com genes tão parecidos com os nossos que possibilitaram a miscigenação, a mortalidade no primeiro ano de vida é estimada em 28%.
Já entre os grandes primatas não humanos, a compilação de várias estimativas permitiu concluir que nos chimpanzés e nos gorilas os índices de mortalidade no primeiro ano de vida e antes da puberdade são semelhantes aos dos nossos antepassados. Nos orangotangos e nos bonobos eles parecem ser até mais baixos que os dos humanos.
Na história da humanidade, sociedades que viveram em ambientes diversos, a dezenas de milhares de quilômetros de distância, em cinco continentes, separadas por milhares de anos, mantiveram taxas altíssimas de mortalidade na infância, não muito diferentes daquelas dos grandes primatas que viviam nas florestas.
No século 20 ocorreram transformações dramáticas que duplicaram a expectativa de vida na maior parte dos países. Mesmo nos mais pobres os ganhos foram substanciais. Estão por trás desse aumento da longevidade, a revolução verde que permitiu levar alimentos de qualidade a grandes massas populacionais e três grandes avanços científicos: vacinação, teoria dos germes e antibióticos.
Tais benefícios, entretanto, jamais teriam chegado à vida cotidiana sem a ação dos movimentos sociais, como os que aboliram a escravatura, reduziram as desigualdades, democratizaram a educação e persuadiram as pessoas a lavar as mãos, não fumar, abandonar o sedentarismo e a tomar vacinas.
Hoje, os indicadores de saúde revelam que cerca de 95,4% de todas as crianças do mundo chegam vivas aos 15 anos. Os ganhos foram desiguais, no entanto. A Somália tem a mortalidade mais alta do mundo, nessa faixa etária: 14,8%; a Islândia a mais baixa. A probabilidade de um recém-nascido islandês chegar aos 15 anos é de 99,7%, ou seja, perdem a vida nesse período somente 3 em cada 1.000 crianças.
Fonte: Folha de S. Paulo
LUGARES
LAUSANNE - SUÍÇA
O Château d'Ouchy ocupa um castelo medieval restaurado com torre original na bela paisagem de Lausanne, às margens do Lago de Genebra.
Carlos Heitor Cony
Não estou por dentro do assunto, mas leio nos jornais que há algum embaraço entre autoridades norte-americanas e o Google, questões não sei se técnicas, legais ou morais, mas há algum desconforto entre o quebra-galho eletrônico mais utilizado pelos internautas e os responsáveis pelo setor nos Estados Unidos.
Não tenho elementos --nem me interessa tê-los-- para dar opinião a respeito. Como qualquer usuário, recorro ao Google em determinados casos, mas confesso que com receio, mais do que receio, com remorso. Sei como é falho em suas informações, misturando nomes, datas, situações, fatos. Outro dia fiz uma consulta sobre mim mesmo, digitei meu nome por completo e recebi, entre várias informações corretas, uma centena de Carlos Heitor que nada tinham a ver comigo, inclusive um pai-de-santo no Maranhão e um dono de laboratrório acho que aqui mesmo no Rio.
Se me atrevo a dar uma opinião sobre o Google, diria que, tal como nas boas enciclopédias, cada texto (ou verbete) deveria trazer o nome do autor que o escreveu, abonadas com a citação das fontes. Do jeito que está, simplesmente veiculado por uma sigla (Google), deixa de ser confiável. Torna-se até leviano.
Um colégio aqui do Rio fez uma espécie de concurso sobre os escritores cariocas e meu nome apareceu em diversos deles. Noventa e oito por cento dos alunos consultaram o Google e sem darem crédito à fonte, repetiram o mesmo erro que consta de uma de suas as páginas: atribuíram-me um livro de estréia que nunca publiquei nem escrevi.
A massificação das informações facilita este tipo de trabalho escolar, mas os erros são tantos e tamanhos que prejudica o aluno e a verdade.
Fonte: Folha de S. Paulo - 24/01/2006
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL É BURRA
Ruy Castro
A máquina faz coisas por conta própria, mas quem paga a conta é você
Deu nos jornais. Descobriu-se que "assistentes virtuais", como Alexa, da Amazon, e Siri, da Apple —sistemas eletrônicos domésticos programados para executar certas tarefas ao comando de voz do usuário—, estão tomando decisões por conta própria como se fossem as donas da casa. E essas decisões não se limitam a acender ou apagar luzes, botar essa ou aquela música para tocar e responder a perguntas simples como "Alexa, quem subiu hoje na Bolsa e a quantas andam minhas ações preferenciais da Petrobras depois das declarações insanas do Bolsonaro?".
Parece que Alexa ou Siri, uma delas, andou fazendo encomendas à revelia da dona, como comprar pratos, caçarolas e demais artigos de casa. Não por acaso, uma compra igual à que ela fizera um mês antes. Como a pessoa fazia certas compras todo mês, a máquina deduziu que tal regularidade também se aplicava ao enxoval do apartamento e pediu tudo de novo. Comprou-lhe também uma passagem na Ponte Aérea para um voo que a moça não ia fazer, mas, por coincidência, fizera um mês antes. O resultado foi uma despesa no cartão que ela não esperava. E há outros casos do gênero.
Este é o problema da inteligência artificial: é burra. Como aprende a executar tarefas por repetição, a chamada IA acha que os seres humanos, por fazerem algo duas vezes, também têm de continuar fazendo-as e ao mesmo intervalo. Imagine se, por ter ido ao dentista duas vezes naquele mês, o sujeito terá de fazer isto de 15 em 15 dias para sempre.
E há os agentes alienígenas. Ouvi dizer que, há dias, o Kindle de uma leitora do DF foi invadido por cerca de mil formigas vermelhas. Elas entraram nele, acionaram alguma coisa lá dentro e, talvez por serem fãs de ficção científica, encomendaram um ebook de Isaac Asimov.
Ainda não uso Kindle, mas, se um dia tiver um, espero que, em matéria de ficção científica, minhas formigas prefiram Robert Heinlein.
Fonte: Folha de S. Paulo - 21/08/2022
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