segunda-feira, 21 de agosto de 2023

VAMOS RIR DISSO TUDO

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Não há frase tranquilizante depois de uma separação. Os amigos tentando ajudar costumam infeccionar as feridas. Desejam livrar você do sofrimento o quanto antes e não respeitam o luto demorado e gradual. Procuram despertar a sua vontade para sair e conhecer novas pessoas enquanto o que anseia é desaparecer  e se esconder dentro do passado.

Não costuma funcionar dizer para o dolorido da perda recente que "vai passar!". É subestimar a importância do pertencimento e da entrega. "Vai passar" é desprestigiar as pontadas da saudade. O enlutado quer lutar contra o esquecimento e você insiste em apressá-lo a mudar de assunto.

Da mesma forma, é nada aconselhável decretar que ele ou ela "encontrará alguém melhor". Ninguém acredita na esperança quando acabou de assassinar a fé. O separado não aceitará a profecia, entenderá como maldição, já que experimenta um asco de amar, um nojo de amar. Sua reação será de absoluto descrédito, com a intenção irritada de jamais namorar de novo.

Tampouco deboche advertindo que "escapou de uma fria". O descorneado não tem como julgar coisa alguma, voltaria na primeira oportunidade. Está se vendo como um enterrado vivo na lápide de um romance - fria é a sua pedra de solidão, fria é a sua cruz bordada com os nós da garganta.

A melhor consolação é "ainda vamos  rir disso tudo". No plural, avisando que permanecerá junto no futuro, que não abandonará a amizade à míngua dos acontecimentos. É projetar a alegria no tempo de trevas, é antecipar a cumplicidade que surgirá com o amansamento das mágoas. O riso dói, o riso é cedo, mas prepara a serenidade do rosto.

Graças aos amigos, a tragédia amorosa pode vir a ser a nossa grande piada.

Fonte: Facebook

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