sábado, 2 de setembro de 2017

MR. MILES


ExperIências gastronômicas inesquecíveis

Ventos gélidos fustigam as ilhas britânicas. Depois de visitar sua tia Agatha, na vila de Naunton, em Cotswolds e ser admoestado pela baixa frequência de suas aparições, nosso voluntarioso viajante já se prepara para partir em busca de latitudes mais quentes. Ainda não há, infelizmente, detalhes sobre seu próximo destino. E já não acreditamos que seja o Brasil, tão raras têm sido suas visitas ao nosso país. De todo modo, só nos resta esperar e torcer. 
A seguir, a correspondência da semana: 

Mr. Miles: fui convidado a um jantar gastronômico na França e serviram-me carne de cavalo. Enojado, recusei. Será que agi mal?
Torquato Melchiades, por email

Not at all, my friend. Eu também jamais provaria a carne de um animal de tal nobreza, sobretudo sem conhecer sua linhagem. Confesso, however, que esta é um idiossincrasia pessoal. Minha infinita — e muitas vezes irresponsável — curiosidade de viajante já levou-me, porém, a experiências gastronômicas que, I must say, ultrapassam o limite do bom-senso. Passo a contá-las, em seguida, advertindo aos leitores de estômago sensível que, para o seu próprio bem, abandonem essas linhas.

Começo pelo capítulo dos insetos. No Camboja, fui levado a provar uma porção de tarantulas. É uma especialidade local. Exceto pela visão dos quatro pares de pernas (pouco carnudos, aliás), o sabor e a textura de seu céfalotorax não é tão repugnante quanto se pode supor. Escorpiões, servidos em abundância na China, são muito mais desagradáveis. A consistência, repleta de arestas pontiagudas do lado de fora e gosmenta, por dentro, levou-me a preferir, em uma próxima ocasião, provar uma ferroada do próprio inseto do que voltar a degustá-lo Don’t you agree?

Na Indonésia, um amigo levou-me a um barbecue de morcegos. Eles parecem adorar estas ocasiões. Enriqueci minha cultura gastronômica provando uma carne dura, com notável aroma de pele queimada. Melhor vê-los em filmes de terror. 

Já na Coréia do Sul, fui instado a degustar um polvo recém-nascido e cru.

Oh, my God! Além da sensação de que o pobre molusco seguia vivo em meu prato, ao invés de mastigá-lo tive de mascá-lo como a um chiclete com sabor de praia pouco asseada. Que sabor é esse? Melhor não saber.

Estranhas predileções culinárias têm os seres humanos, haven’t they? No Japão, há alguns anos, namorei com a morte ao jantar um fugu. Para os que não sabem, trata-se de um peixe de tal maneira venenoso que só pode ser preparado por cozinheiros muitissimo bem-treinados na arte de extrair suas porções peçonhentas. Um único engano e o cliente jamais pagará a conta. Well, I did it. E foi disgusting. O fugu, que custava os olhos da cara poderia ter me matado. However, teria sido melhor, nesse quesito, comer um revólver.

Mas se o prezado leitor chegou até aqui sem náuseas, prepare-se para a minha experiência mais exasperante. A não ser que você seja tão aberto à ingredientes exóticos como meu amigo Luis Lemmon — que aprecia feijoada com tireóides e hipófises de porco. Ele é conhecido como o gourmet legista e faz por merecer o galardão. Jamais aceite comer um balut nas Filipinas. Eu o fiz. Na aparência, são apenas ovos. Na prática, however, são embriões de patos ou galinhas em fase final de formação, servidos dentro da própria casca. Com um pouco de sal e pimenta, é possível engolir o primeiro pedaço. O problema, my friends, são as penas e os pequenos ossinhos que as acompanham. Além da triste realidade que é o fato do tal ovo custar quase tanto quanto uma granja completa.

Como se vê, my dear Torquato, você fez bem em recusar a carne de cavalo. Como já disse, eu mesmo o faria. E não porque, as you noticed, eu não seja ligeiramente curioso.Don't you agree?

Fonte: Facebook

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