quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

UMA PANDEMIA É UMA DOENÇA DA POPULAÇÃO

UMA PANDEMIA É UMA DOENÇA DA POPULAÇÃO
Pedro Hallal

Enquanto o mundo seguir tratando a pandemia com uma abordagem individual, estaremos fadados ao fracasso

Em 1985, o epidemiologista inglês Geoffrey Rose escreveu um artigo histórico intitulado "Sick individuals, sick populations" (em português, "Indivíduos doentes, populações doentes"). No texto, o autor explica as diferenças entre uma abordagem individual, para tratar uma doença que afeta indivíduos, e uma abordagem populacional, para tratar uma doença que afeta a população.

Para entendermos o conceito de maneira simples, podemos usar o exemplo de uma doença comum: hipertensão arterial.

Numa abordagem individual, o paciente com hipertensão arterial receberá seus medicamentos para controlar a pressão, receberá aconselhamento sobre hábitos saudáveis, e o objetivo é que o paciente mantenha seus níveis pressóricos em valores normais. No entanto, quando a doença ultrapassa os limites individuais e atinge algum grau de descontrole, é necessária uma abordagem populacional. Nesse caso, pode-se citar legislações para controle dos níveis de sódio nos alimentos, criação de ciclovias para estimular à prática de atividade física pela população, entre outras medidas que ajudam a controlar os níveis pressóricos da população, e não de apenas um indivíduo. A combinação de uma abordagem individual e de uma abordagem populacional garantirá o melhor resultado para a saúde pública.

Desde que a pandemia de Covid-19 começou, há uma incapacidade de alguns gestores (o Brasil é um exemplo) de entenderem que a pandemia é uma doença que afeta a população e, portanto, não será vencida com uma abordagem individual. Toda a lógica do nefasto tratamento precoce, por exemplo, é baseada na ideia de tratar um paciente de cada vez, ao invés de usar abordagens populacionais para reduzir a circulação do vírus.

Da mesma forma, a visão deturpada que o presidente e o ministro da saúde possuem sobre vacinação misturam o negacionismo com uma percepção equivocada de que a Covid-19 é uma doença dos indivíduos, e não da população. Se a Covid-19 fosse uma doença dos indivíduos, não haveria problema em estimular que "se vacina quem quer". Mas como a Covid-19 é uma doença que afeta a população, a não vacinação de um atrapalha o outro. Em outras palavras, o não vacinado não prejudica somente a ele, mas, sim, a todo o controle da pandemia.

Quando olharmos os dados mundiais sobre a Covid-19, notamos que estamos muito longe de vencer a pandemia de Covid-19 globalmente. A média diária de mortes atingiu um pico de 1,8 mortes para cada 1 milhão de pessoas em fevereiro de 2021, mas ainda virará o ano próxima de 1 morte por 1 milhão de pessoas por dia. Com a chegada da variante ômicron, é possível que a tendência de queda seja revertida.

Para vencermos a pandemia de Covid-19, precisamos tratá-la pelo que ela é: uma doença que afeta a população. No caso, a população mundial. E para tratar uma doença que afeta a população, precisamos de uma combinação de estratégias a serem adotadas internacionalmente:

1. Aceleração da vacinação com equidade: ao mesmo tempo que precisamos acelerar a vacinação, precisamos garantir que ela ocorra de maneira minimamente uniforme entre os países.

2. Adoção de vigilância genômica em larga escala: para identificação precoce de novas variantes, permitindo que as vacinas existentes sejam adaptadas rapidamente quando necessários.

3. Combate às teorias e ações negacionistas: para controlarmos a pandemia, é necessário que as teorias e ações negacionistas, anti-ciência, anti-vacina sejam combatidas e ignoradas na tomada de decisão sobre as políticas de enfrentamento da pandemia.

Fonte: Folha de S. Paulo

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