segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

NÃO TENHO MAIS IDADE

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar


É curioso quando alguém rejeita a ideia de dançar loucamente até de manhã ou de se arriscar em uma aventura alegando que não tem mais idade.

A afirmação está errada. Não seria o contrário? Não é o caso de sobrar idade? O excesso de idade vai criando obstáculos e fortalecendo as censuras. Não é que não tem mais idade, o exagero de anos faz com que recue de qualquer exagero. Mas sempre se inventa um jeito de mentir a idade para menos, mesmo quando é para mais.

Não é a experiência que subtrai o entusiasmo, é a falta de vontade. A tradução de "não tenho mais idade para isso" é simplesmente não tenho mais vontade.

Não é culpa da idade não subir em árvore e telhado, pular uma cerca e de bung jump. É consequência de uma paralisia motivacional. O medo vai deixando de oferecer prazer, como na adolescência, onde testamos os nossos limites e inventamos uma legislação daquilo que realmente importa e que merece ser proibido.

Há também a dispersão das turmas geracionais, onde a coragem aparecia na companhia de amigos da escola, da universidade ou do trabalho: viagens incríveis, luau na praia, risadas histéricas a partir dos erros de comunicação.

Vem o tempo do lobo solitário, em que as decisões são adotadas solitariamente, não sendo mais influenciado e não seguindo mais o desejo dos outros.

Vem o tempo da sensatez, representado na mecânica de só fazer o que deu certo, só repetir o que funcionou, sacrificando a espontaneidade louca da vida.

A liberdade é substituída pelo conforto. Pede-se o mesmo prato no restaurante, pede-se a mesma bebida no bar, volta-se aos lugares e cidades consolidados pelo prazer.

Viver e recordar tornam-se sinônimos. Recusa-se a arcar com esse adicional de insalubridade da juventude. O fôlego diminui simbolicamente em função da cautela, assume-se o papel de juiz das experiências, avaliando a que vale e a que não presta. A maior parte do dia é dedicada a emitir sentenças aos filhos, aos colegas e aos amigos de como eles são ingênuos.

O empecilho etário corresponde ainda a um receio da gafe, já que não tem como prever a habilidade em uma situação nova. Não se aprende nada diferente com o claro objetivo de propagar os seus talentos antigos.

Aquele que diz que não tem mais idade civilizou a covardia, pretende evitar sujar a sua imagem e prejudicar a sua opinião moderada. De que serve a sabedoria que não pode ser renovada?

Não ter mais idade é martelar os primeiros pregos do próprio caixão. Ser enterrado vivo na esperança.

Fonte: Facebook

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