Defronte à antiga Faculdade de Direito, lá nos altos da agência Ford, em Caxias do Sul, funcionava um bar minúsculo, desses que cabem mais histórias do que fregueses. Foi ali que o Mário e eu chegamos num final de tarde qualquer, com aquela pressa calma de quem só quer um cafezinho para manter o estudante acordado, eis que que as aulas ocorriam à noite.
Encostados ao balcão, de pé, saboreávamos o café quando surgiu a figura: um jovem que eu conhecia apenas de vista, presença frequente na praça central. Era desses que não caminhavam, circulavam; não conversavam, garimpavam. Especialista em encontrar incautos e lapidar histórias conforme o brilho do possível lucro. Um aprendiz de estelionatário, digamos assim, ainda em fase de estágio supervisionado pela própria esperteza.
Eu sabia bem de seus truques. Trabalhara perto da antiga agência do Banco do Brasil, território profissional do rapaz, onde ele exercitava sua arte com a constância de um funcionário público — só que sem crachá.
No bar, ele se aproximou do Mário e, com grande teatralidade, esfregou o polegar no indicador: o gesto universal do “dinheiro”. Em seguida, passou a gesticular como quem dizia ser surdo e mudo, compondo um personagem digno de um cinema mudo de quinta categoria. Estrategicamente, posicionei-me às suas costas, pronto para qualquer sinal de alerta, como um anjo da guarda especializado em golpes de baixo orçamento.
Enquanto o estranho diálogo gestual avançava, enfiei a mão no bolso e encontrei uma moeda. Soltei-a no chão, casualmente. O tilintar metálico ecoou no bar como um sino de igreja. Milagre imediato: o pseudo surdo virou-se num átimo. O mudo, então, recuperou a audição e a orientação espacial. Ao iniciar o movimento para apanhar a moeda, fui mais rápido: pisei firme sobre a mesma, selando o milagre inverso.
O Mário, que já havia entendido a cena, caiu na gargalhada, café quase saindo pelo nariz. O jovem, percebendo que sua encenação fora desmascarada por uma simples moeda de troco e um pé bem colocado, desistiu da apresentação. Escapuliu do bar com a dignidade possível, provavelmente em busca de plateias menos críticas e bolsos mais distraídos.
Ficamos nós ali, com o café já frio e a certeza reconfortante de que, às vezes, um pouco de atenção e uma moeda no chão bastam para encerrar um espetáculo inteiro.
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