domingo, 4 de outubro de 2020

NE ME QUITTE PAS

SAÏNA MANOTTE & MAXIME MANOT


Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa. (Zsa Zsa Gabor)

LUGARES

THUN - SUÍÇA
A cidade de Thun, situada na extremidade inferior do lago Thun, é o portão para o Oberland bernês. O marcante centro histórico situa-se a cerca de um quilômetro da margem do lago, no rio Aare. O castelo existente no núcleo do centro histórico remonta ao século XII, ostentando ainda um museu.

GAITEIRO DORMINHOCO

GAITEIRO DORMINHOCO

Quem é ligado às tradições gaúchas conhece o Bochincho, do inigualável Jayme Caetano Braun. Pois nas preliminares, quando ainda apresenta aos ouvintes o que era o "ambiente fumacento" e seus personagens, nos fala de um gaiteiro mulato, que até dormindo tocava… 

Nos bons tempos em que aconteciam bailes pelos clubes da cidade, eu era pequenote ainda, conheci um gaiteiro que também tocava dormindo. Não era mulato, mas descendente de alemão. Seu nome era Otto. 

Houve um tempo em que o salão de bailes do Clube Floriano era administrado pela família dos proprietários do prédio, sendo que um deles, era meu cunhado e padrinho. 

A convite do mesmo eu ia ajudar na copa, atendendo aos pedidos dos garçons, entregando bebidas, recolhendo copos sobre o balcão, etc. Nunca apareceu por lá nenhum comissário de menores para flagrar aquela irregularidade. 

Foram muitos bailes, a maioria deles com presença da Orquestra Típica Céu Azul dos Irmãos Zanchin. Outros grupos também animavam os bailes e eu era muito novo para conhecer e distinguir as formações desses grupos. 

Por vezes, num mesmo baile, eram mesclados diversos gêneros musicais. Quando era vez dos tangos e valsas, apareciam executantes de violinos e bandoneons. Na hora dos boleros havia algum crooner se quebrando sofrendo, à falta de aparelhagem de som. E sempre tinha alguém tocando acordeão. 

Pois o Otto era freguês de caderno ou melhor, o Floriano era freguês de caderno do Otto. Sempre tocava sentado. O acordeão pesava muito e a idade mais ainda. Com uma bebida por perto, então, o baile estava feito. As horas iam passando e o Otto só saia do seu posto para um pipi-stop. Nada mais. Ou melhor, mais uma Brahma… 

Cansaço, bebida e talvez monotonia, iam minando a concentração do valoroso Otto que o compasso da música, marcado no pé direito, ia perdendo o tempo e as mãos já não deslizavam frenéticas sobre as teclas da "cordeona". Até que alguém do grupo, acostumado com os "vôos" do Otto, simplesmente se aproximava da cadeira e o cutucava levemente. O Otto abria os olhos com cara de - quem? eu dormindo? E o baile continuava… 

A cena se repetia umas dez vezes por baile até que finalmente, um galo qualquer da vizinhança, de saco cheio com a barulheira, anunciava a alvorada decretando o fim de festa. 

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 3 de outubro de 2020

UMA LOUCURA SEM MÉTODO

UMA LOUCURA SEM MÉTODO*
Everardo Maciel

… Nos debates sobre reforma tributária e temas conexos consigo perceber as loucuras, mas ainda não consegui identificar, caso exista, o método…

“Loucura, embora tenha lá seu método” foi o que dissera Polônio a Hamlet, segundo a narrativa de Shakespeare.

Nos debates sobre reforma tributária e temas conexos consigo perceber as loucuras, mas ainda não consegui identificar, caso exista, o método.

Merece destaque nessas frequentes insanidades a proposta de criação de uma singular “contribuição sobre bens e serviços”, constante do projeto de lei nº 3.887, de 2020, para o qual se requereu urgência na tramitação para, em seguida, abdicar-se dessa urgência sob a patética alegação de desobstruir a votação de “inadiáveis” alterações no código de trânsito.

O projeto sequer esclarece se a base de cálculo dessa contribuição seria operações ou receita, preferindo delegar a resolução desse dilema, caso o projeto prosperasse, para o Judiciário, em robusta contribuição ao aumento da litigiosidade no País.

Muito já se disse sobre as impropriedades daquele projeto de lei, mas nele há que se assinalar a virtude de expor, em escala reduzida, as mazelas da PEC nº 45, que propõe a instituição de um Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e um enigmático Imposto Seletivo. Tenta-se encobrir essas impropriedades evitando mensurar as repercussões dos projetos sobre preços, setores e entes federativos, sob a justificativa de que essas informações “não contribuiriam para o debate” (sic).

As mais recentes pérolas desse universo de loucuras são a divulgação de um anteprojeto de lei complementar da PEC nº 45 e discriminação das fontes de financiamento da denominada “renda cidadã”.

O anteprojeto de lei complementar a uma Proposta de Emenda Constitucional que não foi apreciada pelo Congresso Nacional, apesar de inusitado, ajuda a desvelar as deficiências da proposição.

Ao admitir a vulnerabilidade do IVA à sonegação, como especial menção ao que ocorre com esse imposto na civilizada Europa, propõe-se condicionar o aproveitamento de créditos ao efetivo recolhimento do imposto na etapa anterior. Há que se reconhecer o ineditismo da proposta, tanto quanto seu surrealismo. Como poderia um contribuinte fixar o preço da mercadoria ou serviço sem saber se seu fornecedor vai recolher o imposto no mês subsequente?

Para administrar o IBS, é proposta a criação de uma Agência Tributária Nacional visando “implementar federalismo cooperativo” (sic), integrada por servidores da administração tributária dos entes federativos e dirigida por um conselho de administração, escolhido por uma assembleia geral, com poderes para eleger uma diretoria executiva. Esse Conselho teria competência para expedir normas infralegais e proceder ao julgamento administrativo tributário por meio de um órgão denominado “Contencioso Tributário”. Há também alusão, não traduzida no texto do anteprojeto, a um Conselho Consultivo Empresarial. Na história da administração tributária, não me recordo de uma proposta pior do que essa.

Para a renda cidadã, aventou-se, entre outras fontes de financiamento, a postergação do pagamento de precatórios da União. É o auge da temporada de ideias ruins. Qual a autoridade moral de um Estado que posterga o pagamento de suas dívidas e cobra dos contribuintes o pagamento pontual de tributos?

Estamos, hoje, com mais de 4,7 milhões de pessoas infectadas pela Covid-19 e mais de 143 mil mortos, suportamos uma taxa de desemprego recorde (13,8%), “comemoramos” a queda de 9,7%, no segundo trimestre, do PIB brasileiro, o agronegócio é impactado por um entusiasmado desapreço à política ambiental, há previsões consistentes sobre o aumento da parcela da população em condições de pobreza e extrema pobreza, a crise fiscal dos Estados e Municípios vai aumentar. A despeito de tudo isso, continuamos, ao contrário do que é feito no resto do mundo, a debater uma reforma tributária que hostiliza severamente setores econômicos e eleva o preço de serviços tão essenciais, como saúde e educação, e de livros, que desfrutam de uma longeva isenção de tributos.

O Brasil, infelizmente, não desperdiça a oportunidade de cometer erros.

*PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O ESTADO DE S. PAULO, EDIÇÃO DE 1º DE OUTUBRO DE 2020

Se um cão não vier até você após ter olhado em seu rosto, você deverá ir para casa e examinar sua consciência. (Woodrow Wilson)

LUGARES

ANNECY - FRANÇA

PARA SER OUVIDO

PARA SER OUVIDO
Do Rincón de la Psicología

Para ser ouvido, às vezes você tem que fechar a boca

Há um momento para falar e outro para ficar em silêncio, um momento para dar razões e outro para refletir, um momento para reivindicar firmemente nossos direitos e outro para esperar pacientemente. Falar mais nem sempre é melhor. Às vezes, para ser ouvido, é necessário aprender a calar-se, a saber manejar o silêncio, conscientizar-se de que a comunicação está na transmissão de uma mensagem e que, às vezes, dizer nada pode expressar mais de mil palavras.

O papel ativo do silêncio na comunicação

Georges Clemenceau disse que ” gerenciar o silêncio é mais difícil do que lidar com a palavra “. O silêncio é uma poderosa ferramenta de comunicação que pode desempenhar um papel mais ativo do que as palavras, desde que seja conhecido por ser usado de maneira inteligente e no momento certo.

Quando você aprende a lidar com o silêncio:

– Comunique-se melhor. Muitos de nós falam demais. Todos, de vez em quando, somos culpados de monopolizar uma conversa com palavreado desnecessário e, às vezes, até contraproducente, especialmente quando queremos convencer alguém. No entanto, embora possa ser paradoxal, recorrer mais ao silêncio permitirá que você torne sua mensagem mais clara e contundente.

– Você vai realmente ouvir. Em nossa sociedade, o silêncio pode ser embaraçoso, especialmente em alguns contextos, por isso queremos evitá-lo a todo custo. Desta forma, em vez de ouvir o que o nosso interlocutor expressa, grande parte do nosso cérebro já pensa na resposta que damos a seguir. Em vez disso, o silêncio permitirá que você realmente se concentre no que a outra pessoa está dizendo, além de prestar atenção à sua comunicação não verbal, o que lhe permitirá extrair mais informações e entender melhor o que está acontecendo.

– Você alcançará seu objetivo mais rapidamente. O objetivo final da comunicação deve ser compartilhar informações e tomar uma decisão, e não vencer. Nesse caso, o silêncio não é útil apenas para minimizar o ruído que as palavras vãs podem gerar, mas também pode acelerar a resolução do conflito.

– Você mostrará mais empatia e respeito. Uma vez que você apresente seus argumentos, a coisa mais inteligente a fazer é calar a boca e deixar a outra pessoa expressar suas opiniões. Manter silêncio é um sinal de respeito e demonstração de empatia.

– Você vai promover a reflexão. Não é necessário responder imediatamente. É melhor ficar quieto para pensar na sua resposta. De fato, um provérbio hindu afirma que “quando você falar, procure tornar suas palavras melhores que o silêncio”. O silêncio também serve para indicar à outra pessoa que você não tem mais nada a dizer, o que pode fazer você refletir sobre seus argumentos, enquanto continuar a argumentar só poderia levá-lo a um beco sem saída.

Em que situações é conveniente usar o silêncio?

Miles Davis disse que “o silêncio é o mais alto ruído, talvez o mais alto dos ruídos”. É por isso que, em certas situações, o mais inteligente é não continuar falando, mas simplesmente ficar quieto e deixar que cumpra sua missão.

– Quando você não tem mais argumentos interessantes para contribuir, para que o silêncio permita que a outra pessoa reflita sobre o que você já disse. Às vezes, adicionar mais palavras serve apenas para criar caos e confusão na mensagem que você deseja transmitir.

– Quando a outra pessoa assume a conversa como uma batalha e pensa em termos de vencedor e perdedor, de modo que esteja por trás de seus argumentos.

– Quando a outra pessoa não mostra uma atitude receptiva às suas palavras, mas fecha a mente, porque ele realmente não se importa com o que você pensa ou sente. Nesse caso, as palavras mais sábias simplesmente cairão em ouvidos surdos.

– Quando você quer transmitir uma mensagem forte, caso em que é melhor ser breve e conciso, evitando divagações. Nesses casos, as pessoas costumam interpretar o silêncio como sinal de confiança e segurança.

– Quando você quer que a outra pessoa expresse o que ela sente ou pensa, para que seu silêncio seja um convite para falar, isso lhe diz que você está ouvindo.

– Quando a discussão se esparrama para outros lados, desviando do argumento central. Nesse caso, o silêncio pode ser usado para redirecionar a conversa ou finalizá-la, se não fizer sentido avançar nesse momento.

Claro, há casos em que o silêncio não é positivo, por exemplo, quando é usado como uma arma de desprezo para ferir os outros. Nesse caso, o silêncio não acrescenta nada ao relacionamento, porque o outro permanece sem saber o que você pensa ou deseja e cria uma atmosfera de hostilidade. De fato, esse silêncio pode ser interpretado como uma atitude agressiva ou humilhante e não ajudará a resolver a disputa.

Concluindo, todos queremos falar e criticar, mas poucos se prestam a ouvir e entender. Portanto, não cometa o erro de confundir palavreado com informações úteis, facilidade de expressão com inteligência e número de argumentos com razão. Uma bela frase budista diz: “Quando me lanças espinhos, caindo no meu silêncio eles se tornam flores” 

Fonte: https://www.pensarcontemporaneo.com

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O HOMEM DAS FLORES

O HOMEM DAS FLORES
Paulo Pestana

O colorido de Brasília brota do chão e desafia a cidade feita em concreto rígido. Mas nem sempre foi assim. Nos primeiros anos da capital, o objetivo principal era plantar grama; por um motivo prático: conter a poeira que subia da terra vermelha, impulsionada pelos lacerdinhas, como eram chamados os redemoinhos.

A nova capital nasceu do cerrado desmatado por correntes amarradas a tratores, que erradicaram as espécies nativas. Havia quem sonhasse com uma vegetação bem mais exuberante, desafiando a geografia, até que milhares de árvores morreram de inanição em meados dos anos 1970 – vítimas do solo fraco em nutrientes.

O conceito de cidade parque foi criado pelo urbanista Lúcio Costa e o paisagismo dos monumentos é fruto da imaginação e ciência de Burle Marx, mas o jardim que extasia quem mora e visita o Distrito Federal hoje não é obra de nenhum dos pais fundadores. As cores só se viabilizaram graças a um cearense da região do Cariri, que chegou à cidade sem saber direito o que veio fazer.

Ozanan Coelho chegou em 1969, já formado engenheiro agrônomo. Na época, os tornozelos e pescoços precisavam ser esfregados com zelo para tirar a crosta de terra que não respeitava meias e colarinhos, tal a quantidade de poeira no ar. Era um desafio ao desejo de Lúcio Costa, que queria que os prédios residenciais da cidade fossem erguidos “como da clareira de uma floresta”.

Se Brasília tem hoje o colorido dos ipês – de todos os matizes – a partir de agosto, a fartura de mangas em outubro, os jamelões de novembro, as jacas de março e as pitangas e amoras de setembro espalhadas pelas áreas verdes, deve a ele. Deve também os balões sempre floridos, que ele desenvolveu por encomenda, depois que o ex-governador Joaquim Roriz voltou de viagem, encantado com os jardins de Washington, capital norte-americana.

Os viveiros mantidos pela Novacap foram formados depois que Ozanan e sua turma fizeram uma intensa pesquisa para saber quais árvores e flores se dariam melhor com o clima radical – entre a seca absoluta e o aguaceiro dos finais de ano – do cerrado. E assim, a partir dos anos 1980, ele mudou – literalmente – a paisagem do Distrito Federal.

Os jardins ainda estão sendo cuidados e milhares de pés de árvores continuam sendo plantados em todas as cidades todo ano, mas ninguém havia se lembrado de render qualquer homenagem ao homem que embelezou a cidade e nos fez respirar melhor. Morto vítima de enfarte fulminante em 2016, Ozanan Coelho parecia esquecido sob a mesma lápide do descaso de outras figuras que ajudaram a construir a história e a cultura brasilienses.

Mas a memória dele não vai se apagar. Na entrada da pista da península do Lago Norte, onde ele morou por décadas, pertinho dos bares do Luizão e do Paulinho, que frequentava com muito comedimento, está sendo erguida uma pracinha com o nome dele. Nos próximos dias, uma estátua do ‘seu’ Ozanan será colocada sentadinha num banquinho. Bem perto de um ipê amarelo que ele mandou plantar.

Publicado no Correio Braziliense, em 27 de setembro de 2020
Certas coisas só são amargas se a gente as engole. (Millôr Fernandes)

LUGARES

CAPRI - ITÁLIA
Capri é uma ilha italiana situada no golfo de Nápoles (região da Campania), no mar Tirreno, a pouca distância do continente. A ilha possui uma área de cerca de 10,36 km², a maior elevação da ilha é o monte Solaro (589 m).

MR. MILES




LEMBRANÇAS DO QUE FOMOS

Prezado mr. Miles: o que é, na sua concepção, uma atração turística?
Marcelo Lotario, por email

Well, my friend: eis uma bela questão. Atrações turísticas são lugares, paisagens ou construções que distinguem-se das demais por serem especialmente belas, extraordinariamente esquisitas ou incomparavelmente tristes. Lugares que merecem ser visitados, as I see, não são, por definição, símbolos da virtude humana ou da generosidade da natureza, como muitos costumam acreditar. 

Veja bem, dear Marcelo: adoramos visitar tumbas e mausoléus, que são, of course, o repositário de mortos. Nessa categoria estão quase todas as catedrais do mundo, sob as quais repousam os ossos de celebridades ou abastados de épocas diferentes. As pirâmides do Egito, erguidas ao custo de milhares de vidas, como mausoléus de longínquos faraós, também não passam de tristes necrópoles e, é claro que sentimo-nos atraídos porque, well, são belas construções e os mortos não dizem nada aos nossos corações. Am I right?

O mesmo raciocínio aplica-se ao Taj Mahal, em Agra, um grande sepulcro construido por Shah Jahan como prova de amor pela sua esposa preferida, Aryumand Banu Began.

Pense, também nos mais magníficos museus do planeta. Todos eles têm, em seu acervo, obras de arte originárias de butins praticados em batalhas do passado, além de objetos subtraídos de povos mais ingênuos ou de gente confiscada, como os judeus na 2ª Guerra. O passado, however, não significa nada neste momento. Não há ética que resista ao passar dos anos. E, of course, não deixamos de ir aos nossos museus preferidos, mesmo sabendo que a origem de seu acervo esteja, probably, inundada de sangue.
 
Arcos monumentais, esplendidas torres e monumentos espalhados pelas cidades do mundo são, em sua maioria, a celebração de vitórias militares ou a homenagem aos mortos em batalhas. Parece incrível, my friend, mas o mundo teria menos atrações turísticas se os povos não fossem tão belicosos e a natureza fosse menos explosiva. O que seria, for instance, da maravilhosa ilha de Santorini não fosse a explosão do imenso vulcão da qual ela é apenas uma pequena borda da cratera?
 
E porque nos sentimos atraídos a conhecer Pompéia, onde corpos petrificados pelas lavas do Vesúvio testemunham, day after day, uma enorme catástrofre do passado?
 
Tenho pensado sobre essa questão sempre que vejo um palácio construido por um prncipe cruel, um deserto nascido do castigo da seca ou um moai destroçado pela força de um tsunami. São, todos eles, atrações que queremos contemplar. Para lembrarmos, perhaps, de que, de alguma forma milagrosa, somos sobreviventes de toda essa epopéia. E comemorarmos a chance de viajar por todas essas lembranças.

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

AGULHA NO AGULHEIRO

AGULHA NO AGULHEIRO
Paulo Pestana

A habilidade do ser humano fazer música nasceu junto com as palavras. Ou até antes: há quem defenda que as primeiras comunicações eram musicais, ou quase; ainda hoje um grunhido vale por mim palavras, principalmente se sair da garganta da patroa.

Daí para a frente foi a sonoridade – a onomatopeia – que dava sentido ao que ia sendo nominado. Mais uma vez o som se sobrepunha à razão. E foi Nietzsche quem disse que, sem música, a vida seria um erro. Quem sou eu para contrariar?

Ainda tenho estantes cheias de long-playings e compactos, muito mais – imagino – por fetiche do que por necessidade. Outro dia mesmo fiquei feliz de encontrar A Swinging Affair, álbum de Dexter Gordon que dava como perdido, para em seguida verificar que ele está integralmente no Spotify, com a vantagem de ter sido remasterizado a partir das fitas originais.

Ainda assim, teimei e quis ouvir o velho LP, ainda brilhante e limpo, mas as decepções começaram assim que foi colocado no prato da velha vitrola Garrard e ficou parecendo pizza sendo aberta no dedo de pizzaiolo, girando cheio de ondulações. Estava empenado.

Mas guerreiro não desiste no primeiro contratempo e busquei o braço para colocar, via manivela, como manda o figurino, no sulco inicial de Soy Califa, o tema que abre o disco. Assim que encostou a agulha pulou fora, quebrada.

Não faz tanto tempo assim, até em mercadinho se encontrava agulha de vitrola, mas hoje é artigo raro como pincenê, galocha ou emulsão scotch. O caminho lógico é o sebo de discos; menos para o proprietário, que vende LPs mas não tem os apetrechos para tocá-los.

Tem uma loja na asa sul que vende agulhas, disse a mocinha. Realmente tinha, mas foi quando comecei a compreender o real significado da expressão ‘procurar agulha no palheiro’. Só no que no caso era ainda pior, já que a agulha estava num agulheiro mesmo.

Pedi uma shure diamante mas o homem fez cara de que quem não entendeu e perguntou se eu estava com o corpo da agulha quebrada para ele ver o tipo de conexão. Eu insisti que queria aquele modelo, mas não adiantou. Voltei para casa sem nada.

Perdi umas boas horas para atender a um capricho, pensando se valeria mesmo a pena gastar cerca de R$ 150,00 num objeto obsoleto que pode ser arrancado pelo primeiro arranhão mais profundo de um disco qualquer. O CD já tinha acabado com essa tortura, além de garantir uma reprodução tão boa ou melhor que a de um ótimo vinil, com a vantagem de que não chia, não solta estalidos e, principalmente, não pula.

Já em casa olhei a bela capa disco, com o largo sorriso do saxofonista iluminado de vermelho sobre o fundo preto, mas a vontade de ouvir as frases mais fluidas que o jazz produziu havia passado. Olhei para os CDs, mas pulei. Abri o aplicativo, digitei o nome de Candeia e o som de Sorriso Antigo saiu da caixa ligada sem fio.

Limpo, sem ruído, sem pular.

Publicado no Correio Braziliense, em 20 de setembro de 2020
O que você não vê com seus olhos, não testemunhe com sua boca. (Provérbio Judáico)

LUGARES

MOSCOU - RÚSSIA

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


O QUE É CRASE + DE...A OU DA...À 

Entende-se por crase a fusão de vogais idênticas. Em Gramática Descritiva se utiliza o termo para designar a contração da preposição a com o artigo definido a (as) e com aquilo, aquele e flexões, indicada pelo acento grave: à/às, àquele, àquilo.

Só nós falantes do português temos de lidar com a crase. A origem do problema – e é um problema porque existem três fonemas iguais com grafias diferentes: a / há / à – está no artigo definido feminino, que no latim vulgar era “illa”, tendo evoluído para "la" em francês, italiano e espanhol. No português arcaico o artigo também era "la", passando mais tarde para "a". Se o artigo tivesse permanecido com o L, seria fácil distingui-lo da preposição, e o caso estaria encerrado!

Uma curiosidade: até meados do século XX não existia o acento grave. Essa notação era feita pelo acento agudo: áquelle por a aquelle, á mão por a a mão.

Gostaria ainda de destacar duas acepções do Dicionário Houaiss (2001) no verbete crase que corroboram o modo brasileiro de se expressar sobre esse fato linguístico:

“3.1 A contração da preposição a e o artigo a (ou no pl.: as), grafada à, às, e seu emprego na língua escrita (já que na fala essas formas geralmente não se distinguem). Ex.: <erra muito em crase> <fez muito erro de crase>"
“4. Derivação: por extensão de sentido. O acento grave que marca na escrita a contração.”

DE 1 A 10, DE SEGUNDA A SEXTA, DA 1ª À 4ª

Quando se faz a ligação de dois numerais ou substantivos por DE ... A, não se deve crasear o segundo; mas quando se determina o primeiro elemento com DA ou DO, o segundo inicia com À (ou AO, se masculino). É uma questão de coerência: havendo determinação no 1º substantivo ou numeral ordinal (que acompanha o substantivo), deve haver determinação no segundo. O que não pode acontecer é a mistura, por exemplo: L *de 2ª à 6ª. Modelos bons:

SEM DETERMINAÇÃO:
  • Trabalhamos dea sábado.
  • A exposição ficará aberta ao público de hoje a domingo.
  • Ainda há vagas para alunos dea 8ª série.
  • Só sabe contar de 1 a 100.
  • Os eletrodomésticos estão em todas as casas, de norte a sul do país.
  • As inscrições poderão ser feitas de 1° de maio a 15 de junho.
COM DETERMINAÇÃO:
  • Todas as alunas da à 4ª série foram dispensadas.
  • Molhou-se dos pés à cabeça.
  • A ceia será servida da meia-noite à uma hora.
  • Trabalho desta segunda à quinta-feira próxima.
  • O jantar estava perfeito da entrada à sobremesa.
  • Tudo parece estar em constante subida – da mensalidade escolar à consulta médica, do aparelho de som à geladeira.
A propósito, com o intuito de nos ajudar a identificar quando ocorre a crase, o biólogo uruguaio Diego Perez nos escreveu: “Gostaria de passar uma dica para meus colegas de língua hispânica. Quando traduzimos ao espanhol uma frase em português e utilizamos a la é certo que em português utilizamos a crase, exemplo: Eu vou à escolaYo voy a la escuela”. Vale a dica também para os brasileiros que conhecem espanhol ou francês (à la).

Fonte: http://www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS