segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

SUPERDOSE

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar

Não há mal nenhum em conversar no viva-voz desde que sozinho.

Mas algumas figuras não entendem a prática. Ou não escutam o suficiente para uma vida razoavelmente sociável. E não adianta avisá-las porque são surdas.

Iguais aos nossos avós com novela alta. Só que com adicional da televisão andando.

Elas atrapalham a rotina de farmácias, supermercados, postos de gasolina e bancos urrando com o aparelho estendido na palma da mão. E com a tecla do viva-voz ativada no máximo volume.

Ouve-se a outra pessoa com nitidez, como se ela estivesse dentro do nosso tímpano.

A outra pessoa também é vítima. Não faz ideia de que circula por lugares comerciais como álibi da grosseria. Nem que os seus segredos estão sendo expostos.

Quando vejo alguém conversando no viva-voz, me dá pena, depois desconforto, e, por fim, instinto fratricida e a vontade de arrancar a língua.

Na última sexta, comprava tranquilamente presente para o meu filho num shopping em Porto Alegre, até a chegada da Anticristo das operadoras, da Naja das promoções, da Serpente do 0800.

Uma senhora entrou na loja de moda masculina desprovida de pudor. Tinha um auto-falante embutido na dentadura. Ninguém existia, a não ser a sua amiga na linha.

Ignorou a recepção da atendente, passou reto e ficou virando cabide por cabide com o seu celular a tiracolo e na enésima potência no viva-voz.

Não havia como escutar os meus pensamentos e não olhar para ela.

Era a patrulha da polícia ligada, a cooperativa de táxis procurando carros em dia de chuva, um feirante com superdose de ritalina.

Engoliu um Giraflex, comeu um Walkie Talkie, devorou um oboé.

Pequena, atarracada, quando abriu a porta, tive a visão de um peru gigante apitando e saindo do forno, com as asas embrulhadas em papel-alumínio.

A sexagenária grampeava o próprio telefone. Não fechava a matraca e ainda incentivava a sua interlocutora a subir o tom de voz.

- Muito barulho por aqui! Fale mais alto!

Gritava e não percebia a absoluta falta de educação com os demais clientes. Enquanto discursava sobre os resultados de seus exames médicos, escolheu uma calça e uma camiseta polo, pagou e foi embora.

Não trocou uma palavra com quem estava na loja, em compensação, não calou a boca em sua interação loquaz com a tela do celular.

Ligação é pessoal, não é pública. É tão difícil entender a diferença?

Fonte: Facebook

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