quinta-feira, 4 de maio de 2023

A IDIOTIZAÇÃO DA SOCIEDADE COMO ESTRATÉGIA DE DOMINAÇÃO

Fernando Navarro
As pessoas estão tão comprometidas com o sistema estabelecido, que são incapazes de pensarem em alternativas contrárias aos critérios impostos pelo poder.

Para conseguir isso, o poder se vale do entretenimento a partir do vazio, com o objetivo de aumentar nossa sensibilidade social fazendo com que nos acostumemos a ver a vulgaridade e a estupidez como as coisas mais normais do mundo, incapacitando-nos para alcançarmos uma consciência crítica da realidade.

No entretenimento vazio, o comportamento desagradável e desrespeitoso é considerado positivo, como vemos constantemente na televisão, nos programas que são lixos chamados “do coração”, e nos encontros de espetáculos em que os gritos e a falta de respeito são a norma, o futebol, a forma mais completa e eficiente que o sistema estabeleceu para converter a sociedade.

Nesta subcultura do entretenimento vazio, o que é promovido é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, no qual a solidariedade e o apoio mútuo são considerados ingênuos. No entretenimento vazio, tudo é projetado para que o indivíduo suporte estoicamente o sistema estabelecido sem questionar. A história não existe, o futuro não existe; apenas o presente e a satisfação imediata que o entretenimento vazio procura. Por isso não é estranho que se proliferem os livros de autoajuda, autêntica porcaria psicológica, o misticismo à Coelho, ou variantes infinitas do clássico “como se tornar um milionário sem esforço”.

Em última análise, o que está envolvido no entretenimento vazio é convencer-nos de que nada pode ser feito: que o mundo é como está e é impossível mudá-lo e que o capitalismo e o poder opressivo do Estado são tão naturais e necessários como a força da própria gravidade. Por isso, é comum ouvir: “É algo muito triste, é verdade, mas sempre houve oprimidos pobres e ricos opressores e sempre haverá. Não há nada que possa ser feito.”.

O entretenimento vazio alcançou o feito extraordinário de fazer com que os valores do capitalismo também sejam os valores daqueles que são escravizados por ele. Isso não é algo recente, La Boétie, naquele distante século XVI, viu claramente, expressando seu estupor em seu pequeno tratado de servidão voluntária, no qual ele declara que a maioria dos tiranos perdura apenas por causa da aquiescência dos próprios tiranizados.

O sistema estabelecido é muito sutil, com suas estupidezes, forja nossas estruturas mentais, e para isso, usa o púlpito que todos temos em nossas casas: a televisão. Nela não há nada que seja inocente; em todos os programas, em todos os filmes, em todas as notícias, sempre inculta os valores do sistema estabelecido, e sem perceber, fazendo com que as pessoas acreditem que a vida real é assim. Desta forma, introduz os valores que se deseja em nossas mentes.

O entretenimento vazio existe para esconder a evidente relação entre o sistema econômico capitalista e as catástrofes que assolam o mundo. Por isso, é necessário que exista o espetáculo do tipo vácuo: para que enquanto o indivíduo se autodegrada revirando-se no lixo que a televisão exerce sobre ele, nao veja o óbvio, não proteste e continue permitindo que os ricos e poderosos aumentem seu poder e riqueza, enquanto os oprimidos do mundo continuam sofrendo e morrendo em meio às existências miseráveis.

Se continuarmos permitindo que o entretenimento vazio continue modelando nossa consciência e, portanto, o mundo à sua vontade, acabará destruindo-nos. Porque seu objetivo não é senão criar uma sociedade de homens e mulheres que abandonem os ideais e aspirações que os fazem rebeldes, para se contentar com a satisfação das necessidades induzidas pelos interesses das elites dominantes. Assim, os seres humanos são despojados de toda personalidade, transformados em animais vegetativos, com a desativação da antiga noção de lutar contra a opressão, se tornam atomizados em um enxame de desenfreados egoístas, desta forma, as pessoas ficam sozinhas e desvinculadas entre elas mais do que nunca, absorvidas na auto-exaltação.

Assim, desta forma, os indivíduos não têm mais energia, mudam as estruturas opressivas (que não são percebidas como tais), não têm mais a força ou a coesão social para lutarem por um mundo novo.

No entanto, se queremos reverter esta situação de alienação a que estamos sujeitos, nos resta lutar, como sempre; somente nos toca nos opor aos outros valores diametralmente opostos aos do show vazio, de modo que uma nova sociedade emerge. Uma sociedade em que a vida dominada pelo absurdo do entretenimento vazio seja apenas uma lembrança dos tempos estúpidos, quando os seres humanos permitiram que suas vidas fossem manipuladas tão obscenamente.

#Tradução Elissandro Santana | Desacato.info

*Publicado originalmente na revista Al Margen, Valencia (Ruptura Colectiva)

Fonte: Revista Prosa e Verso
Ter escravos não é nada, mas o que se torna intolerável é ter escravos chamando-lhes cidadãos. (Denis Diderot)

LUGARES

VENEZA - ITÁLIA
Veneza, a capital da região de Vêneto, no norte da Itália, é formada por mais de 100 pequenas ilhas em uma lagoa no Mar Adriático. A cidade não tem estradas, apenas canais (como a via Grand Canal), repletos de palácios góticos e renascentistas. Na praça central, Piazza San Marco, ficam a Basílica de São Marcos, coberta de mosaicos bizantinos, e o campanário, com vista para os telhados vermelhos da cidade. ― Google

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


ME FAZ O FAVOR ESTÁ CERTO?
 “Vivemos no Brasil, em 1989, onde é normal se expressar assim:
  • - Me faz o favor de rebater a carta, sim?
  • - Me arranja um clipe?
  • - Nos disseram que o abono sairia.
  • - Se vê que nada é impossível.- Me é difícil julgar, admito.
 Mais do que normal, é correto, sim senhor”.
 
“Dizer que não se pode iniciar a frase com o pronome átono (me, te, se, nos) me faz lembrar o amigo Bob, que, mal chegado ao Rio, antes de vir se radicar em Florianópolis, foi a um barzinho e repetiu a lição aprendida em Londres: “Dá-me um copo de cerveja”. O garçom simplesmente não entendeu. “CER-VE-JA”, repetiu o inglês. Aí foi atendido. Mas sempre que começava a dizer “dá-me” não era levado a sério. Só sossegou quando recebeu a explicação: brasileiro não fala assim.
 
“E o que fazem os livros de gramática? Se esquecem de ensinar que existem dois procedimentos: o formal, que não permite o pronome átono no início da frase, e o informal, coloquial, usado em diálogos principalmente, que admite o pronome iniciando a oração.
 
“Se o uso de ‘Faz-me o favor / foi-nos dito / é-me’ soa artificial, e por outro lado não se quer ferir a gramática tradicional, pode-se recorrer ao artifício de colocar uma outra palavra ou expressão no início da frase. Por exemplo:
  • A senhora me faz o favor de rebater a carta?
  • Por favor me arranja um clipe.
  • Positivamente nos disseram que o abono sairia.
  • Admito que me é difícil julgar.
  • Já se vê que nada é impossível.
 “Por tudo isso se conclui que no português brasileiro o emprego do pronome átono é bastante livre – depende muito do ritmo, da harmonia, da ênfase que se quer dar ao sujeito ou ao verbo. Tanto é correto dizer Ele me ajudou como Ele ajudou-me. A escolha aí é bastante pessoal, subjetiva.
 
“Há, sem dúvida, certas palavras que atraem o pronome – como que, não, quando – justamente por uma questão de eufonia e ritmo. Por isso é importante apurar o ouvido com boas leituras. [...]”
 
A data do início do texto não está errada, não. Essa é uma coluna de português que escrevi naquela época e foi publicada na revista ATX, de SP, e no jornal O Norte, de João Pessoa. Resolvi republicá-la agora justamente porque, diante dos estudos linguísticos que têm se realizado no Brasil nas últimas décadas, está cada vez mais acesa a discussão sobre a necessidade de uma gramática da língua brasileira. E o tópico sobre o uso dos pronomes oblíquos vem sempre à tona quando se fala no assunto. Na próxima semana, trarei alguns exemplos de colocação pronominal do século XIX, usada por pessoa da maior distinção política no Brasil imperial.   

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

OS FANÁTICOS

Por Isaias Costa

A honestidade dos estúpidos é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes

Li algumas palavras do mestre Rubem Alves presentes no seu livro “Ostra feliz não faz pérola” que me deixaram bastante pensativo sobre a realidade atual não só do Brasil, mas de muitos países pelo mundo afora. Leia com bastante atenção.

“A honestidade dos estúpidos é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes. É da honestidade dos estúpidos que surgem os fanáticos. Os fanáticos são pessoas honestas que acreditam nos seus pensamentos e nada os dissuade do seu caminho. E porque acreditam na verdade dos seus pensamentos tudo fazem para destruir aqueles que têm ideias diferentes.”

Rubem Alves

A palavra fanático tem uma origem bem interessante. Ela vem do latim fanaticus, que significa “inspirado por algum deus”. Ou seja, a pessoa fanática, seja lá no que for, está inspirada pelo seu deus interno.

Já inteligência significa “escolher dentre”. Ou seja, pessoas de fato inteligentes têm a perspicácia de escolher dentre tudo aquilo que se apresenta o que se aproxima da verdade. E nesse processo de escolhas, é claro que surgem as DÚVIDAS.

Pessoas inteligentes têm muito mais dúvidas do que as fanáticas. Às vezes chego até a me perguntar: “Será que as pessoas fanáticas têm dúvida de alguma coisa…?”.

Nessa hora lembro a célebre frase do filósofo Bertrand Russell que diz: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas…”.


O Brasil está passando por uma onda de conservadorismo no mínimo preocupante. Os governantes estão tramitando projetos que são completos retrocessos para o nosso país. Há um enorme incentivo para se ter uma educação domiciliar, de forma que não se alimente doutrinas marxistas nas escolas ou se ensine educação sexual pervertida às crianças e adolescentes. Saiba que não estou inventando uma palavra sequer. Basta você ler os noticiários para confirmar estas barbaridades.

Só de pensar nas crianças estudando em casa, sem o convívio com os coleguinhas, sem o embate de ideias, sem o exercício da alteridade (ver o universo do outro) e sem o exercício da obediência a uma figura de autoridade, que é o professor, já cai por terra completamente essa proposta absurda.

Já escrevi diversas vezes que somos seres gregários, não nascemos para ser ilhas. Será que já não bastam as ilhas que são criadas pelas próprias interações virtuais? Ainda vêm governantes querendo ampliar essas ilhas! Precisamos ser inteligentes no mais bonito que essa palavra sugere, precisamos escolher um caminho mais coerente. E lógico que esse caminho é com o maior incentivo aos professores, para que eles tenham não apenas mais recursos materiais, mas acima de tudo, mais liberdade. Os professores já têm pouca liberdade e as novas propostas que vem sendo tramitadas é para transformá-los praticamente em presos vigiados 24h. É como se os professores todos usassem as conhecidas tornozeleiras de monitoramento.

E ainda tem o lado do fanatismo religioso. A ministra Damares Alves, logo nos primeiros dias de 2019 chegou a expressar que era “terrivelmente cristã”. Como pode uma pessoa afirmar uma barbaridade dessas? Se alguém é cristão, deveria ser amorosamente cristão, compassivamente cristão ou humildemente cristão. A palavra terrível não tem a menor ligação com o mestre Jesus Cristo. Ele era o mestre do amor! Como podemos associar terrível a ele?

O Brasil é um dos países com a cultura mais diversificada do planeta. Eu acho lindo haver espaço para cristãos, budistas, espíritas, umbandistas, candomblés, taoistas, ateus etc. Meu sonho é ver todos essas culturas religiosas ou não-religiosas convivendo na mais profunda harmonia e sempre que falo sobre isso ressoa na minha mente as palavras do mestre Dalai Lama: “Qual é a melhor religião? É aquela que faz de você uma pessoa melhor…”.

Essa única frase consegue calar até as pessoas mais intransigentes que tenham um pouco de inteligência, mas tenho dúvidas sobre as fanáticas. Talvez passe despercebida por elas, ou “entre por um ouvido e saia pelo outro”, como costumamos dizer…

Meu maior intuito com esse texto é incentivar você que o leu até aqui a ter mais coragem e atitude. Deposito de coração as minhas fichas ao acreditar que você faz parte das pessoas inteligentes. As dúvidas são importantes, eles nos ajudam a escolher melhor nossos caminhos e decidir com mais sabedoria, porém, dúvidas demais nos paralisam, embaçam a nossa visão, abrindo espaço para a doutrinação perversa dos idiotas.

Sejamos inteligentes para não sermos presas fáceis deles. Dessa forma estaremos promovendo uma verdadeira revolução (evoluir de novo). Chega de retrocesso! Já voltamos demais ao passado…

Fonte: https://provocacoesfilosoficas.com
É preciso sentir a necessidade da experiência, da observação, ou seja, a necessidade de sair de nós próprios para aceder à escola das coisas, se as queremos conhecer e compreender. (Émile Durkheim)

LUGARES

HUSSEREN-LES-CHÂTEAUX - FRANÇA
 (Rota do Vinho)
Husseren-les-Châteaux é uma comuna francesa na região administrativa de Grande Leste, no departamento Alto Reno. Estende-se por uma área de 1,2 km². Em 2010 a comuna tinha 527 habitantes (densidade: 439,2 hab./km²).[1]

O BUSINESS DEVE CONTINUAR

Ruy Castro

O famoso US$ 1 milhão de Liz Taylor em 1960 é troco para as estrelas de hoje

Em 1960, o telefone tocou na casa da estrelíssima Elizabeth Taylor, o maior nome de Hollywood. Ela estava no banho. Seu marido e valete, o cantor Eddie Fisher, foi atender. "Liz, é Spyros Skouras. Ele quer falar com você." Spyros Skouras era o odiado chefão da Fox. Liz rugiu de volta: "Mande-o se f.... Não falo com cretinos!". Fisher insistiu: "Ele quer te convidar para o papel-título em ‘Cleópatra’." E Liz, com sabão nos olhos e para encerrar o assunto: "Diga que só por 1 milhão de dólares!". Fisher deu o recado e voltou: "Ele disse que está fechado. Você começa amanhã."

Essa história marca o início dos supersalários no cinema. Ninguém até então ganhara US$ 1 milhão para fazer um filme. Aliás, nem perto disso, porque a maioria dos grandes astros ainda vivia sob contrato e salário dos estúdios. Mas Liz, depois de quase 20 anos na MGM, conquistara sua independência e podia pedir quanto quisesse. O que interessa, no entanto, é o seguinte: quanto representa US$ 1 milhão de 1960 em dólares de 2022?

Fui ao Google. Descobri que, nesses 62 anos os EUA tiveram uma inflação acumulada de 906,80%, donde aquele milhão valeria agora US$ 10.067.972, 97. É o que Liz Taylor receberia hoje por "Cleópatra".

Mas as coisas mudaram. Por US$ 10 milhões e quebrados em 2022, Jennifer Lawrence, Julia Roberts e Sandra Bullock nem desligariam a torneira do chuveiro. O piso de cada uma é US$ 25 milhões por filme — e nenhuma delas é, nem chorando, a Elizabeth Taylor de 1960. E os rapazes? Leonardo DiCaprio cobra US$ 30 milhões por filme; Will Smith e Denzel Washington, US$ 40 milhões cada; Dwayne Johnson, US$ 50 milhões; e Daniel Craig acaba de assinar um contrato de US$ 100 milhões. Com o streaming, esses valores dobram.

São números de 2021, conforme as revistas americanas de show business. Sim, o show deve continuar, mas foi o business que disparou.

Fonte: Folha de S. Paulo - 19/11/2022

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 2 de maio de 2023

TWEET AND SHOUT

Antonio Prata

Redes sociais produzem uma minicatarse paralisante

Já ouvi gente falando que o podcast é o renascimento do rádio. O rádio é genial, uma mídia imorredoura, mas podcast não tem nada a ver com ele. O formato está mais próximo do ensaio literário do que de um programa de ondas curtas, médias ou longas.

Podcasts são antípodas das redes sociais. Enquanto elas são dispersivas, levam à evasão e à desinformação, os podcasts são uma possibilidade de imersão, concentração, aprendizado. Depois que eles surgiram, lavar a louça e me locomover pela cidade viraram um programaço. Um pós-almoço de domingo e aprendo tudo sobre bonobos e gorilas. Um Uber pro aeroporto e chego no embarque PhD em reforma tributária.

Tem um escritor, filósofo e neurocientista americano de quem gosto muito, Sam Harris. Em seu podcast sempre há convidados interessantes: cientistas, artistas, religiosos, pensadores de todo tipo. No último episódio, ele papeia com o psicólogo Paul Bloom sobre o Twitter e seus desserviços à humanidade. Sam Harris, um cara bastante influente nas redes sociais, decidiu abandonar o Twitter e as razões que ele dá levam a gente a pensar no que estamos fazendo com as nossas vidas neste labirinto de ódio e fake news.

Um argumento que muitos (eu, inclusive) usam para ficar no Twitter é que ali a gente se mantém informado sobre tudo, o tempo todo. Isso deveria ser um argumento contra a rede social. Quem consegue escovar os dentes sabendo, em tempo real, que uma bomba explodiu na Síria, um senador levou o boneco de um embrião para um debate, o x-costela da lanchonete Y não tem costela e a ex-BBB Fulana de Tal acabou de postar algo ofensivo contra os daltônicos?

Nosso impulso imediato é, sem parar de escovar os dentes, dar um retuite no Guga Chacra, botar coraçõezinhos em posts de amigas feministas, amaldiçoar o capitalismo e dar todo apoio aos daltônicos, a quem, nestes vinte segundos após o tuíte ofensivo, já aprendi a chamar de "comunidade daltônica" – como se estivessem todos eles dançando uma ciranda e trocando morangos verdes por alfaces vermelhas.

No meio da pandemia e da desgraça do governo Bolsonaro, o cientista político Pablo Ortellado publicou aqui na Folha uma coluna muito interessante sobre o poder paralisante dos grupos de WhatsApp. Parecia que ele descrevia minhas conversas. Ficava todo mundo metade do tempo gritando "ai, meu Deus, que horror o que o Bolsonaro fez hoje!" e a outra metade elogiando posts e textos dos amigos contra o horror que o Bolsonaro havia feito naquele dia. Achávamos que estávamos indo pra frente, dividindo a indignação e aplaudindo os feitos alheios, mas, como ratinhos correndo numa roda, não saíamos do lugar.

O Twitter, como os grupos de WhatsApp, tem o mesmo efeito: produz uma minicatarse paralisante. Se em vez de retuitar uma hashtag contra a guerra eu fosse até a Acnur ou o Instituto Adus saber o que eu posso fazer para ajudar os refugiados, se doasse dinheiro para uma ONG séria ou me dispusesse a reservar uma hora por semana para ensinar português a crianças sírias, eu faria um bem ao mundo. Mais fácil, porém, é o pseudoativismo narcisista das redes. Fico bem com sírios e troianos, sem ter que mover uma palha para ajudar ninguém. No tempo que resta, xingo Deus e o mundo, me indisponho com pessoas de quem gosto, babo veneno ao ver desafetos sendo levados para a fogueira.

Outro dia um amigo desabafou: "eu saí de Guajará-Mirim aos 17 anos pra fugir daquela coisa tacanha do interior, pra me distanciar das fofocas das minhas tias-avós infelizes que passavam a vida maldizendo os outros e, agora, o mundo virou isso: a sala das minhas tias-avós infelizes num chá de domingo!". Ele tem um ponto. Acho que vou fazer um tuíte a respeito.

Fonte: Folha de S. Paulo
Se você continua vivo é porque ainda não chegou aonde devia. (Albert Einstein)

LUGARES

ROMA - ITÁLIA
Termas de Caracala, conhecidas também como Termas Antoninas, era o segundo maior complexo de banhos públicos de Roma, provavelmente construído entre 211/212 e 216/217, durante o reinado dos imperadores Sétimo Severo e Caracala. O local permaneceu em uso até a década de 530, quando foi abandonado e se arruinou. Wikipédia


ROMANCE FORENSE

Charge de Gerson Kauer
O apreciador dos ´cofrinhos´ femininos

A rede de 45 lojas e 700 colaboradores tinha, como um de seus gerentes, um homem quarentão que não respeitava as subordinadas mais novas.

A petição inicial da ação trabalhista de uma ex-operadora de caixa revela que “ele era abusado, fazendo as funcionárias passar por situações vexatórias; falava que elas ficavam 'gostosas' quando trocavam de uniforme; e sempre dizia querer intimidades com o ´cofrinho feminino´”.

Na audiência, o juiz (pertinentemente curioso) pede à reclamante:

- Explique melhor essa questão do ´cofrinho feminino´.

- Pois, doutor, além de sempre tentar se esfregar na gente, ele apontava para uma parte do nosso corpo e dizia que cobiçava o nosso ´cofrinho´. Falava em ´cofrinho´ seguro, símbolo do prazer e que também podia nos garantir algum dinheiro extra. Dizia também que queria colaborar com a produção, que nossos ´cofrinhos´ eram misteriosos, obscuros, mas produtivos, coisas sem nexo assim...

O magistrado fez um sinal de que bastava. Os depoimentos das testemunhas foram na mesma linha. Uma, porém, especialmente detalhou:

- Um dia, ele me disse que pagaria o que eu pedisse para ingressar nas profundezas do meu ´cofrinho´...

A sentença foi de procedência da ação, deferindo reparação moral de R$ 50 mil.

O caso chegou ao TRT. No julgamento, a relatora deu aula processual: “Ainda que não se tenha por preenchido o conceito de assédio sexual no seu estrito sentido jurídico-penal (artigo 216-A do Código Penal), para fins de responsabilidade civil extracontratual, com amparo no artigo 927 do CC, o ato ilícito alegado na petição inicial restou caracterizado – com o que decido, assim, com a aplicação do artigo 935 do Código Civil”.

Mas a corte trabalhista entendeu exagerado o valor, reduzindo-o para R$ 30 mil, mesmo reconhecendo que a conhecida empresa falhou “ao designar para atuar como gerente, pessoa despreparada, caracterizada, de maneira uníssona nos autos, como assediador sexual”.

Na semana passada dois acontecimentos: 1) o apreciador dos ´cofrinhos´ femininos foi demitido, sem justa causa; 2) a empresa anunciou que vai pagar a conta, propondo um parcelamento, ante as dificuldades que enfrenta.

Em dinheiro atualizado, a reclamante receberá R$ 36 mil. Interessante dinheiro para ingressar na sua poupança. Mas não no seu ´cofrinho´... 

Fonte:www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 1 de maio de 2023

LER E VIAJAR PERMITEM ENCONTRAR O NOVO E CONHECER A NÓS MESMOS

Itamar Vieira Junior

O sentimento de caminhar para o futuro me invadiu no Japão, país tão tecnológico e com grande senso de vida coletiva

"Estive em 2050 e voltei", foi o sentimento que me invadiu depois de quase duas semanas no Japão, onde estive em breve turnê para o lançamento da edição de "Torto Arado".

Primeiro, porque, de fato, caminhamos para o futuro quando nos dirigimos ao Extremo Oriente, afinal eles estão 12 horas à nossa frente (enquanto escrevo este texto na noite de quinta, na terra do sol nascente já é manhã de sexta). Segundo: desconheço outro país tão entranhado —e dependente— nos avanços tecnológicos proporcionados pela criação humana.

Uma ida à "kombini" (descobri que a palavra vem do inglês "convenience store") com caixas automatizados, onde é possível pagar e recolher seu troco apenas com a mediação de máquinas, nos dá a medida dessa dependência. Até mesmo uma simples ida ao banheiro, com seus vasos sanitários inteligentes que existem em quase todos os espaços do país —universidades e locais públicos, por exemplo—, projetam a ilusão de que o Japão é o futuro.

É muito curiosa a presença de palavras de origem inglesa na língua japonesa, como "kombini", "biru" ("beer") e "aisukurimu" ("ice cream"), provavelmente advindas da longa ocupação americana em terras nipônicas.

Olhamos para qualquer lado de Tóquio e encontramos seu horizonte infinito de concreto. Edifícios inteligentes, elevadores ultrarrápidos que alcançam o topo em segundos, veículos com portas automáticas para embarcar e desembarcar sem que o passageiro precise acionar qualquer botão.

A região metropolitana da capital, a mais populosa do mundo, reúne cerca de 37 milhões de pessoas, ou seja, maior que a população de muitos países e equivalente à do Canadá. Mesmo com um contingente populacional expressivo, Tóquio é uma cidade segura, o transporte público é eficiente e pontual e sofre menos congestionamentos que a Cidade do México ou São Paulo.

O silêncio nos transportes e espaços públicos impressiona, como também salta aos olhos a impecável limpeza de suas ruas sem lixeiras. Cada um é responsável por seus resíduos, levados para casa, separados e entregues ao serviço de coleta. Há canteiros de obras por toda a parte, mas são tão discretos que é difícil identificar num primeiro plano.

Existe um grande senso de vida coletiva, com a consciência de que o outro não pode ser importunado e deve ser, sobretudo, protegido. É muito comum encontrar crianças a partir dos 7 anos nos transportes públicos ou nas ruas se dirigindo sozinhas para a escola ou qualquer outra atividade. Algumas podem estar identificadas, e toda a sociedade sente o dever de orientá-las e protegê-las.

Mas há grandes problemas, como em qualquer sociedade. O envelhecimento da população é crescente e gera desafios ao sistema previdenciário e de saúde. Há uma epidemia de suicídios de crianças e adolescentes, que encontram gatilhos nos casos de bullying e de pressão acadêmica. Segundo dados do Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar, somente no ano passado foram mais de 500 vítimas. Quando se considera o total da população japonesa, o número ultrapassa a casa dos 20 mil.

Sempre fui leitor —e apreciador— de crônicas de viagem. Desde o livro "Viagem", de Graciliano Ramos, relançado recentemente pela José Olímpio, passando pelas narrativas de Erico Veríssimo, com seu "Gato Preto em Campo de Neve" (Companhia das Letras), e toda obra memorialística da escritora Zélia Gattai. Gosto especialmente de "Dentro do Segredo" (Companhia das Letras), de José Luís Peixoto, e também das narrativas de Alexandra Lucas Coelho, agraciada com o último Prêmio Oceanos pelo poderoso "Líbano, Labirinto", ainda sem edição no Brasil.

As crônicas de viagem podem ser importantes instrumentos para se conhecer o outro e exercer a alteridade. Podem nos ensinar maneiras de coexistir, com diligência e respeito.

Esse encontro com o outro —outro mundo, outros humanos, outras paisagens— são oportunidades de sair do espaço familiar e conhecido para penetrar o mistério do desconhecido. Talvez por isso, conserve essa paixão pela literatura: ler é como viajar e encontrar o novo, é reencontrar o familiar. Viajando e lendo, não vamos apenas escrutinar o diferente, mas encontrar e conhecer a nós mesmos.

Fonte: Folha de S. Paulo
O cansaço físico, mesmo que suportado forçosamente, não prejudica o corpo, enquanto o conhecimento imposto à força não pode permanecer na alma por muito tempo. (Platão)

LUGARES

INNSBRUCK - ÁUSTRIA
Innsbruck, capital do estado do Tirol, no oeste da Áustria, é uma cidade nos Alpes e tradicional destino para a prática de esportes de inverno. Innsbruck também é conhecida por sua arquitetura imperial e moderna. Suba no funicular Nordkette, com estações futuristas projetadas pelo arquiteto Zaha Hadid, a 2.256 metros do centro da cidade, para esquiar no inverno e fazer caminhadas ou montanhismo nos meses mais quentes. ― Google

NOSSO PEQUENO AMOR

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpintejar

Uma leitora me disse que sabia que a sua relação acabou, mas mesmo assim queria mais uma semana com o seu namorado.

Já estão depois do fim, realmente desgastados, exaustos, finitos, brigam por qualquer coisa, já não tem paz para sair com os amigos, já não tem ânimo para dividir o vazio do sábado e domingo, mas ela ficaria satisfeita com uma simples e inútil sobrevida.

Os dois experimentam a angústia de se encarar por uma frase libertadora, quando o silêncio cobra os pensamentos, quando o mal estar da sala não acaba no quarto, mas ela ainda anseia prolongar, em sua própria expressão,  "o pequenino amor" deles.

Se antes o coração pagava um mês de aluguel agora arca com diárias onerosas de hotel. Mas não importa, ela se esforça por manter um naco de tempo com ele.

Óbvio que vê o imponderável da divergência, o atrito permanente, a incompatibilidade póstera, mesmo assim está preocupada em assegurar que a despedida não aconteça hoje, que possam dormir mais uma noite lado a lado e passar mais uma manhã frente a frente.

Ela tentou de tudo para salvar o romance: explodiu, chorou, esmolou, fugiu, voltou. Guarda a serenidade de que não resta esperança. Mas ela não desiste da teimosia para aumentar o prazo. Não abdica da elasticidade morta, de alargar o que não será mais usado, de adiar a data do óbito e esticar a mão do aceno.

A noção do fim não a impede de continuar a convivência.

A princípio, ela me pareceu sadomasoquista, louca, possessiva. Por que lutar por aquilo que se mostrava falido? Por que jogar fora a energia com uma causa perdida? Por que não partia para outra?

Quanta estranheza em uma única atitude. Eu não percebia nexo em insistir no relacionamento que deu errado, em permanecer junto sem futuro. O namoro não prosperaria em casamento e filhos, qual a lógica?

Depois fui me conformando com a incoerência e imperfeição da vida, que nem toda a faísca é menos por não se transformar em fogo.

O muito é sempre pouco, então que o pouco seja também muito. Que este pouquinho a mais acrescente sentido à saudade ou que aumente a nitidez das lembranças. Que as semanas sejam horas, que as horas sejam minutos.

Dentro da minha antipatia encontrei inveja. Dentro da inveja encontrei admiração.

Aquilo era uma entrega absolutamente honesta: ter consciência da morte, mas morrer com todo amor um dia de cada vez.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS